* Por Elber Mazaro

Venho aqui compartilhar um conselho que recebi há um bom tempo e que creio ter sido muito relevante tanto na minha carreira profissional como na vida em geral.

Eu não me lembro de quem me falou, podendo ter sido meu pai, um professor ou chefe, mas com certeza há uma dose de sabedoria na recomendação que recebi para desenvolver minha capacidade de Observação. A pessoa me disse que isto poderia ser um grande diferencial para mim.

Até parece algo muito óbvio, mas vejo isto ser pouco explorado ou mesmo trabalhado, tanto nível individual / profissional quanto nas empresas e nos negócios.

Eu mesmo já escrevi sobre 7 caraterísticas importantes para o sucesso profissional na gestão e no empreendedorismo, quando apresentei o ALFREDO (Atitude, Liderança, Foco, Resultados, Empatia, Disciplina e Organização), e não citei a capacidade de Observação. Acho que não cabe a revisão do ALFREDO e sim considerar que a competência de um bom observador é uma premissa, algo que vem antes e pode ser mais abrangente que as habilidades específicas definidas no ALFREDO. Pelo menos está é minha perspectiva no momento.

Quando estou me referindo a capacidade de Observação estou abordando o tema no contexto mais amplo possível. Considerando a capacidade de percepção sobre algo ou sobre um ambiente, e a possibilidade de notar primeiro ou rapidamente, algo que poderá fazer toda a diferença no nível individual ou coletivo.

No primeiro o momento o que nos ocorre é a Observação como um ato de visualizar, ou seja aproveitando-se do sentido da  visão. Na verdade, todos os sentidos podem e devem ser explorados na Observação, pois podemos ouvir melhor, ou seja observar os sons e perceber conversas, tons, ruídos e outros elementos audíveis. Imagine ter a capacidade de ouvir conversas sussurradas, sinais sonoros de alerta e atenção ou os sons da natureza que inspiram e / ou acalmam.

Também podemos observar os cheiros, odores, perfumes e suas nuances, detalhes e eventuais mensagens. Por exemplo: pode fazer toda a diferença ser o primeiro a sentir um cheiro de queimado em um ambiente propenso a um incêndio, ou simplesmente sentir o cheiro do cafezinho que acabou ficar pronto na cozinha e chegar lá antes que acabe.

Os sentidos do paladar e do tato, também são ferramentas importantes de Observação, quando sentimos algo através da pele ou da experimentação de sabores e gostos. Os entendedores de vinho sabem como observar durante uma prova ou degustação cada elemento que compõe a bebida, usando o paladar e o olfato para observar, entender, experimentar e explorar a experiência do vinho.

Os ditados populares dizem que temos dois olhos, dois ouvidos e uma boca para primeiro observarmos mais, vermos mais, ouvirmos mais, do que falarmos.

A Observação é uma ferramenta que possui técnicas, as quais que podem ser desenvolvidas e trabalhadas de acordo com a situação ou o momento. Normalmente ela antecede a decisão e a ação e nos fornece subsídios, informações, detalhes, insights, ideias, etc, para orientar de maneira consciente ou não, as nossas decisões e ações. Portanto quanto melhor a capacidade de Observação, mais insumos temos para decidir e agir, sendo que isto pode ser um grande diferencial para o sucesso.

Observar uma tendência ou uma oportunidade de mercado ainda não percebida pela maioria das pessoas, pode gerar uma ação empreendedora.

Observar uma mudança no comportamento dos clientes ou nas relações, pode viabilizar uma adaptação mais rápida e a capacidade de atender primeiro as novas demandas e aos desejos.

Observar riscos, ameaças, crises e disputas, pode minimizar perdas e conflitos, trazendo mais segurança para as decisões e para o posicionamento.

Em um evento do Google que participei, uma frase de Larry Page sobre tomada de decisões, me marcou; ele disse: “a velocidade para se obter as informações necessárias para uma decisão, faz toda a diferença. Não há uma decisão boa que seja lenta / demorada, mesmo com a desculpa que se buscava todas as informações para a melhor decisão. A melhor decisão ou a boa decisão é sempre rápida e tomada com o máximo possível de informações no momento em que precisa ser tomada.”

Aproveitando esta lição do CEO da Alphabet (Google), eu acrescento que quanto mais rápido forem observadas as informações relevantes, mais rápida e completa será a decisão, o que aumenta a chance de ser a melhor para o momento e de gerar os resultados esperados. Deixar de observar coisas importantes e de fazê-lo rapidamente, pode fazer a diferença entre o fracasso e o sucesso.

A Observação é algo tão importante, a ponto de todo bom negociador, explorá-la ao máximo durante todo processo, em que busca através do que vê, ouve, sente, percebe, elementos para embasar sua argumentação e oferta de valor. O negociador observa a comunicação corporal, verbal, todo o ambiente e o que mais puder para formular suas estratégias e abordagem.

Recentemente li um artigo enaltecendo a competência ou característica da Curiosidade, como fundamental para o aprendizado e desenvolvimento humano, consequentemente fundamental para o empreendedorismo ou para o crescimento na carreira profissional. Mas será que há curiosidade sem um boa capacidade de Observação? Parece-me que a ligação é direta, entre ambos.

Então como pode ser trabalhada e desenvolvida a capacidade de Observação de um individuo e de grupos / empresas?

A melhor resposta para mim é: a prática com foco no aprendizado. Esta foi a segunda parte do sábio conselho que recebi e venho compartilhar neste artigo.

A prática da Observação, pressupõe você parar para observar. E aí está um grande desafio para pessoas muito ocupadas, agitadas e que precisam estar o tempo todo em movimento, em ação.

É necessário um tempo, mesmo que sejam frações de segundos, para não agir e “apenas” observar, apreendendo tudo que for possível, através de todos os sentidos e processando estes dados capturados para que possam se transformar em informações e quem sabe até insights, que na sequência serão utilizados para a ação.

Dá para treinar esta capacidade de Observação, planejando este tempo sem ação, imaginando o que pode / deve ser observado e discutindo com outras pessoas sobre o que foi observado.

Existem técnicas de pesquisa que se baseiam na Observação e ferramentas (como o binóculo e o gravador para um observador de pássaros) que podem ser utilizados para ampliar e desenvolver a capacidade de Observação. Já cheguei a ficar observando o fluxo de pessoas em um refeitório para uma trabalho do mestrado e foi incrível perceber o fluxo das pessoas, qual fila escolhiam, onde sentavam-se, com quem, se comiam rapidamente, como se dirigiam a saída e etc. Tudo comportamento humano e a disciplina era justamente Comportamento Humano no Trabalho.

Experimente ir a locais públicos e “apenas” observar tudo o que puder no ambiente ou escolha um tema, depois tome notas do que chamar a atenção e converse com outras as pessoas sobre as descobertas e suas hipóteses. Uma das mais fascinantes Observações é mesmo a do comportamento humano. Isto é muito aplicado na área de Varejo, por exemplo, e já aplicada na tão falada Jornada do Consumidor.

Uma confusão comum é achar que a Observação é aplicada somente a ambientes físicos, quando na verdade pode e deve ser desenvolvida também nos ambientes virtuais.

Compartilho um exemplo do Descomplicando Carreiras (onde sou sócio). Quando tínhamos uma grande dúvida sobre se estávamos vendendo  algo que as pessoas não compram em escala (planejamento de carreira profissional), o meu sócio, Alberto Parada, teve a ideia de criarmos um grupo no Facebook chamado Amigos Indicam Amigos, para ao mesmo tempo, ajudarmos as pessoas a encontrarem vagas de emprego “reais” e aos recrutadores a encontrarem candidatos “recomendados / indicados”; e também para através da Observação do comportamento das pessoas no grupo, das suas publicações, das suas reações e dos seus movimentos, descobrimos se nossa hipótese sobre nossa oferta estava correta. O que observamos e concluímos foi fundamental para a “pivotagem” do negócio.

Então a Observação no ambiente virtual, na internet, em simuladores etc, também pode ser muito relevante, praticada e desenvolvida. E neste ambiente existem ainda mais ferramentas para ajudar, medir, mapear e registrar tudo o que acontece com todos os envolvidos.

A definição de Observação, diz que é o ato ou efeito de observar, que representa considerar com atenção… Considere estes casos:

  • Em uma grande multinacional onde trabalhei um dos seis valores era a Disciplina, e na explicação do significado deste valor existia um parágrafo que citava:
    “pay attention to detail”. Prestar atenção aos detalhes, uma forma de Observação, que era uma expectativa da empresa para todos os seus colaboradores;
  • “The devil is on details” – “o diabo está nos detalhes”. Originalmente era “Deus está nos detalhes”. O ditado hoje alerta para erros que podem ser cometidos nos pequenos detalhes de um projeto. No entanto, uma versão mais antiga do provérbio significava, na verdade, que a atenção para as pequenas coisas da vida trazia recompensas significativas. Novamente observação dos detalhes;
  • “Ler na Entrelinhas”, que significa observar e perceber um significado além do que está escrito, através de outros elementos, normalmente sutis, da comunicação,
  • Onde há fumaça há fogo, ou seja observe e note a fumaça, que é um indicador de fogo.

Então, minha conclusão é que: este é um dos segredos da diferenciação e da conquista de vantagens: uma boa Observação. Esta competência / capacidade pode ser desenvolvida com a prática orientada ao aprendizado (parando, prestando atenção, registrando / apontando os detalhes e compartilhando / discutindo com outros para se chegar a conclusões que possam levar a decisões e ações).

E você, é um bom observador?

Que tal aproveitar o tempo na próxima fila, ou no trânsito, ou no shopping para praticar sua Observação?

Obs.: Se isto vale, lembre-se que você também está sendo observado (quase que o tempo todo)!


Elber Mazaro - Espaço do ExecutivoElber Mazaro é assessor/consultor, mentor e professor em Estratégia, Tecnologia, Marketing, Carreiras/Liderança e Inovação/Empreendedorismo. Atua há mais de 25 anos no mercado, liderando negócios no Brasil e na América Latina. Possui mestrado em Empreendedorismo pela FEA-USP, pós-graduação em Marketing e bacharelado em Ciências da Computação.