* Por Francisco Saboya

Temos falado aqui na coluna sobre a importância dos ecossistemas empreendedores para o desenvolvimento das cidades numa realidade econômica movida à inovação, conhecimento e criatividade. Isso decorre basicamente da capacidade que os mesmos possuem de atrair talentos, prover serviços tecnológicos qualificados, propiciar fluxos de conhecimento, mobilizar capital de risco, promover vínculos de cooperação e estimular negócios inovadores globalmente competitivos, entre outros fatores.

A visão subjacente é a de que i. a inovação é um fenômeno essencialmente empresarial (no sentido schumpeteriano); e ii. as empresas não inovam sozinhas e dependem de competências externas complementares e das interações entre elas. Ou seja, dependem de ecossistemas de inovação, que são complexos formados por conjuntos de elementos e interligações que influenciam a produção, difusão e utilização do conhecimento novo e útil para geração de negócios e para o desenvolvimento econômico.

Quando se buscam exemplos de ambientes com tais características, o nome do Porto Digital invariavelmente vem à tona. Poucos anos após sua fundação em fins de 2000, o parque tecnológico já começava a receber feedbacks encorajadores, seja por parte da imprensa seja por parte de organismos especializados nacionais e estrangeiros. Alguns exemplos. Em 2007, a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (ANPROTEC) o reconheceu como o melhor parque tecnológico/habitat de inovação do Brasil. Esse mesmo reconhecimento voltou a ocorrer nos anos de 2011 e 2015. Em 2008, a IASP – International Association of Science Parks and Areas of Innovation destaca o Porto Digital como um modelo de referência global, ao lado dos Parques Tecnológicos de Málaga (Espanha), Manchester (Reino Unido) e Hyderabad (Índia).

Mais recentemente, foi um dos casos ressaltados no livro “Global Clusters of Innovation – Entrepreneurial Engines of Economic Growth Around the World” (2014), de autoria do pesquisador Jerome S. Engel, da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Em 2017 o Porto Digital recebeu do IPHAN – mesmo não sendo uma instituição de cultura stricto sensu – premiação nacional na área de patrimônio histórico pela preservação e restauro de quase 100.000m² de imóveis na região tombada do bairro do Recife Antigo. E, neste mesmo ano, outro órgão da administração pública federal, a FINEP – instituição que financia estudos e projetos de inovação – apontou o Porto Digital como um dos casos de sucesso de sua ampla carteira de clientes, ao lado de apenas outras 11 empresas e instituições de todo o país.

Estes reconhecimentos advêm de resultados concretos. O Porto Digital possui atualmente cerca de 315 empresas, emprega mais de 8 mil pessoas e fatura, no conjunto de seus empreendimentos, valor próximo a R$ 2 bilhões (estimativa para 2018). A certidão de nascimento oficial desse ambiente de negócios inovadores é de dezembro de 2000, mas a sua construção vem de muito antes, e nada mais justo do que referenciar os antecedentes e destacar as ações conduzidas por agentes públicos, privados e acadêmicos que por décadas assentaram diligentemente cada tijolo dessa obra.

Claro que estabelecer uma cronologia para empreendimentos assim, que envolvem múltiplos atores e distintas visões, não é uma tarefa simples. A saída veio da escuta de vários personagens com atuação destacada no setor de tecnologia de informação do Estado. Este procedimento mitigou parte das dificuldades e propiciou a identificação de diversas iniciativas relevantes para a história do parque tecnológico. O fato de existir um ou outro evento que não seja pacífico entre as pessoas consultadas nem de longe invalida a tentativa de se criar uma narrativa que, ao considerar a visão de muitos, ajuda a diluir distorções geradas pela leitura de poucos.

Como o tema é vasto e falta espaço na coluna, no artigo da próxima semana descreverei a linha de tempo resultante desse esforço. E para preencher um pedaço da lacuna que fica, adianto logo que a culpa é de um IBM 1401, cérebro eletrônico transistorizado adquirido pela Secretaria de Finanças da Prefeitura da Cidade do Recife em 1963.

P.S. Esse trabalho ficará mais completo com a conclusão do projeto Memória do Futuro, iniciativa do SOFTEX Recife coordenada por Alcides Pires e Emídia Felipe.

* Artigo originalmente publicado pelo Diário de Pernambuco

Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Ocupou por 11 anos (2007 – 2018) o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.