* Por Francisco Saboya

Já mencionamos em outros artigos o conceito e relevância dos ecossistemas de inovação e empreendedorismo para a competitividade das cidades na economia da informação. Em especial, destacamos o papel desses ambientes na articulação de fluxos intensos de conhecimento entre os agentes do mercado, governo e academia para desenvolvimento de tecnologias inovadoras para a sociedade.

Há porém uma dimensão do conhecimento que nem sempre está presente em tais ecossistemas, que é o conhecimento prático obtido a partir das reações e comportamentos dos usuários quando submetidos a situações reais. Há portanto que se diferenciar os arranjos tecnológicos propícios à prototipação, teste e validação de soluções das grandes questões urbanas, como a mobilidade, segurança e os desequilíbrios ambientais, daqueles que não contribuem com esse propósito.

Diferentemente de experimentos que podem ser integralmente conduzidos em condições controladas de laboratório, as tecnologias voltadas para as cidades necessitam de pelo menos três ingredientes que somente são encontrados em campo de prova. São eles a população usuária, as infraestruturas urbanas e a legislação da cidade. Esses ingredientes não podem efetivamente ser simulados em laboratórios clássicos dadas as dificuldades de reprodução das condições de uma cidade em escala real.

É aí onde entram os chamados Living Labs. Trata-se de um conceito relativamente recente, coisa de pouco mais que 20 anos, primeiramente utilizado por pesquisadores do MIT para definir um experimento em que pessoas normais viveriam alguns dias dentro de uma casa com automação residencial. O objetivo era compreender o comportamento dos residentes e adaptar as tecnologias as suas necessidades. Alguns anos mais tarde, o conceito foi ampliado e passou a ser utilizado por pesquisadores europeus para definir experimentos similares em outras áreas. Os Living Labs são hoje tidos como ecossistemas de inovação aberta centrados no usuário e baseados no uso sistemático de uma abordagem de cocriação de inovações na vida real das comunidades. Os Living Labs colocam o usuário no centro da cena, como protagonista na dinâmica da inovação. E isso faz toda a diferença, pois o experimento se dá rigorosamente no contexto das situações reais da vida cotidiana.

A componente inovação aberta é estruturante para implementação de Living Labs e merece um comentário adicional. Tendo nascido na mesma época que os LLs, o conceito de Open Innovation responde pela necessidade de aceleração e barateamento dos custos do desenvolvimento e introdução de novas tecnologias no mercado. A razão é simples: os processos tradicionais, baseados em laboratórios próprios, lentos e caros; ou estruturados sob convênios de cooperação científico-tecnológica com universidades, igualmente lentas e burocráticas, parecem insuficientes aos dias atuais, em que as oportunidades de negócios se abrem e se fecham na mesma velocidade da inovação.

Como os ativos críticos, tais como talento, conhecimento, capital financeiro de risco etc., estão cada vez mais distribuídos geograficamente e pulverizados em iniciativas não convencionais (p. ex, redes de investidores-anjos fazem com muito mais eficiência o papel antes exercido por bancos comerciais), uma das novas funções dos ecossistemas inovadores é a de conectar-se com outros ecossistemas e articular as melhores competências de cada um para incrementar as taxas de inovação corporativa. Apenas ecossistemas robustos são capazes de assegurar a rápida mobilização de tais ativos de forma compartilhada e a custos decrescentes. Ou seja, de exercer de forma plena a condição de Living Labs.

As experiências oficiais no Brasil são relativamente recentes, e provavelmente existem iniciativas que não são de nosso conhecimento. Mas deve ser ressaltada a ação pioneira do parque tecnológico Porto Digital, sediado no centro histórico do Recife. Por situar-se em uma configuração urbana real e completa, o PD vem desde 2008 convertendo-se em uma plataforma natural para teste e aprimoramento de tecnologias desenvolvidas por algumas de suas mais de 300 empresas. A primeira iniciativa do PD enquanto Living Lab foi a Zona Azul Eletrônica, aplicativo que substitui os famigerados talões e dispensa a intermediação de flanelinhas.

Já estavam presentes nessa operação aqueles ingredientes referidos acima: a empresa desenvolvedora (a Serttel, uma das líderes de tecnologias urbanas do país), o ente público (a Prefeitura, que flexibilizou a legislação para teste da tecnologia no bairro), o usuário (proprietários dos veículos), o operador de trânsito da cidade (a CTTU) e o agente de articulação sistêmica (o Núcleo de Gestão do Porto Digital). Desde então, várias outras experiências se sucederam e viabilizaram tecnologias relevantes para a melhoria do bem-estar das cidades.

Tanto aquelas validadas e com potencial de escalar no mercado – como aplicativos para gestão dos serviços de bicicletas compartilhadas, sistemas para detecção de vagas de estacionamento disponíveis nas ruas a partir de câmeras inteligentes, sistemas de inteligência artificial e internet das coisas para identificação de anormalidades em vias públicas mediante a classificação dos tipos de sons – como as que não prosperaram, como o serviço de compartilhamento de carros elétricos de passageiros, caros e de baixa disponibilidade, atropelado que foi pela chegada do Uber em 2016. Afinal, um laboratório serve também para demonstrar a inviabilidade de uma inovação antes do ponto em que já se terá gasto muito tempo e dinheiro, coisas que não voltam mais.

Claro, não vamos imaginar que Living Labs são a fórmula para qualquer tipo de inovação. Ninguém está pensando em soltar bactérias ou agentes biológicos nocivos aí pelo meio das ruas das cidades pra ver no que vai dar. Nesse caso, talvez o campo de prova mais adequado fosse o Congresso Nacional, onde as ratazanas de sempre já se movem às claras para capturar o próximo presidente que, seja lá quem for – e espero que #elenão – já entrará fragilizado com uma rejeição superior à própria aprovação. Não vamos fazer das urnas um laboratório vivo para testar os limites da nossa própria insensatez.

Juízo, Brasil!


Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Ocupou por 11 anos (2007 – 2018) o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.