* Por Francisco Saboya

Garagem é lugar de guardar carro, de despejar tralhas, de depositar coisas inservíveis que já passaram da hora de ir pro lixo mas você não tem coragem de descartar. Material de construção daquela reforma que nunca acaba, então, nem falar, foram feitos um pro outro. Mas uma coisa é certa: garagem não é lugar de instalar uma startup.

Explico. Recentemente li artigo em uma revista de negócios que fazia a apologia desse tipo folclórico de escritório, como se tivesse propriedades mágicas de empinar sonhos dos jovens empreendedores. Tipo, teve uma ideia? Pegue uma mesa e uma cadeira encostada, levante uma grana emprestada com os velhos, compre um computador e se instale na garagem. Pronto. Está criado o novo unicórnio da praça – aquela empresa de base tecnológica que logo valerá mais de U$ 1 bilhão. Sim, e não se esqueça de avisar pra namorada ou pro namorado que o tempo agora vai ficar mais escasso. Mas só por um tempo, até você receber o primeiro milhão de um investidor-anjo que ficou encantado com sua ideia.

Balela pura. Mas pense numa lenda urbana arrastada e cansativa! Lendas são estórias da imaginação, que vão sendo disseminadas pelas palavras, que vão de boca em boca, vão pelos livros, filmes e ganham perenidade no imaginário das pessoas, por gerações. Lendas se tornam críveis na medida em que vão sendo passadas adiante. O imaginário cria muita coisa, inclusive lugares, como Atlântida, Camelot, as Ilhas da Utopia (um não lugar)…mas garagem-escritório simplesmente não dá pra engolir! A propagação desse tipo de conto do vigário high-tech chega a ser irresponsável.

É uma forçada de barra, na linha da autoajuda empresarial e de consultores-empreendedores de palco. Não deixa de ser uma metáfora simpática, de fácil assimilação, porém pobre para descrever a complexidade da trajetória dos negócios bem-sucedidos. A única base real dessa lambança é que, de fato, alguns – raríssimos – negócios incríveis nasceram, há décadas, em garagens, como Apple e Microsoft. Tem até fotos dos caras pra provar. Mas aí é onde mora o perigo da narrativa fajuta. Basicamente não existem mais novos negócios inovadores nascidos em garagens. Nem aqui nem no Vale do Silício, onde as garagens não são garagens quaisquer. E não são por uma razão simples: cada endereço desse lugar mítico é parte de um megaecossistema de inovação e empreendedorismo.

Ecossistemas, esses sim, são ambientes adequados para fertilização de ideias, construção de negócios e desenvolvimento do potencial empreendedor. Em primeiro lugar, porque têm a capacidade de atrair, concentrar e conectar o mais relevante dos ativos na economia do conhecimento, que é o capital humano criativo, o trabalhador do conhecimento. Os bons se procuram e os melhores se atraem. Assim, quanto mais talentos empreendedores estiveram próximos, mais outros virão.

Segundo, porque os ecossistemas garantem a geração e circulação do conhecimento, esse bicho esquisito que se alimenta dele mesmo e que mais cresce quanto mais é consumido. Na economia da inovação, o conhecimento é matéria-prima e produto dos negócios ao mesmo tempo. Uma terceira razão é que atraem o capital financeiro de risco, essencial para destravar o potencial inovador do lugar. Investidores não se deslocam para ouvir um empreendedor isoladamente, pois a chance de dar errado é muito grande.

Aliás, eles nem sabem onde se encontra esse gênio e sua garagem. Mas eles vão com gosto a lugares onde têm dezenas, centenas de empreendedores juntos. Ecossistemas são ainda plataformas de cooperação entre pessoas e entre empresas, gerando sinergias poderosas para a criação e escalagem de negócios progressivamente mais competitivos. São também plataformas de visibilidade, promovendo o marketing coletivo do lugar, que é muito mais barato e eficaz do que ações promocionais individuais, particularmente numa fase em que as startups mal se põem de pé. Ecossistemas são habitats que comportam diversidade de agentes e funções na cadeia de valor dos negócios, e tal como nos ambientes naturais, trata-se de condição para a sobrevivência, melhoria genética e fortalecimento dessa espécie não trivial chamada de empreendedor criativo.

Posso dar mais razões, como o compartilhamento de infraestruturas e serviços tecnológicos sofisticados, conexão com a universidade, acesso diferenciado às instituições políticas que formulam as leis e regras que impactam nos ambientes de negócio, etc, mas não tenho mais espaço. Então, se você quiser mesmo empreender de verdade, sem folclore, procure uma incubadora de empresas, uma aceleradora de negócios, um espaço de coworking ou outros mecanismos similares que estejam situados preferencialmente em uma área de inovação com reputação, como um parque tecnológico. E deixe a garagem para…sua bike.

* Artigo originalmente publicado pelo Diário de Pernambuco

Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Ocupou por 11 anos (2007 – 2018) o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.