*Por Maicol Peixe

Ideação, validação, prototipação, MVP, tração, faturamento, investimento, gestão do negócio e fluxo de caixa. Tudo isso faz parte do dia a dia de uma startup, mas um dos pontos críticos que, se não planejado com antecedência desde o início do desenvolvimento de produtos, é a  “Qualidade de Software”, que apesar de ser de conhecimento de todos tende a ser esquecido e só lembrado nos momentos de desespero o que pode impactar no futuro em investimentos maiores e até mesmo impedir grandes investimentos por parte de VCs.

Para abordar este assunto, teremos a partir de hoje uma série de artigos visando permitir aos empreendedores um melhor planejamento.

São muitos os fatores que nos fazem pecar com o baixo nível de cautela e a atenção aplicados ao tema Qualidade de Software, dentre eles, a falta de clareza da necessidade de testes, presente às metodologias, modelos e ferramentas utilizadas para o planejamento e para a estruturação de startups.

Nunca se pensa ao desenvolver nossos produtos e serviços, que estes mereçam uma atenção específica, que vai muito além do básico, e que precisamos avaliar criteriosamente seu comportamento para caminharmos seguros, seja na apresentação para um grupo de familiares investidores, um investidor anjo ou para passos maiores junto às aceleradoras, Venture Capitals ou até mesmo um IPO.

Uma simples falha pode levar à depreciação de valor de seu sonho, reduzindo desta forma, o valor de sua empresa no processo de negociação de investimento. Imagine um pitch onde temos uma falha em meio à apresentação, imagine a vergonha, a decepção, imagine um problema após um investimento de marketing, que muitas vezes é one shot (uma jogada única), clientes existentes abandonando o barco, possíveis clientes decepcionados e ainda a mídia descrevendo, de forma clara, verdadeira e objetiva o quão falha foi sua empreitada.

Existem dados de mercado, não estou falando de sonhos ou chutes, mas da realidade dura, que entendo, todos podemos evitar. De acordo com o Optima Specialty, 95% dos clientes dividem suas experiências ruins (http://optimaspecialty.com/), já o PWC (https://www.pwc.com/) apresenta que, globalmente, 30% dos clientes que enfrentam uma única experiência ruim deixam de utilizar o serviço. Adicionalmente, mais de 50% dos clientes abandonam o barco após mais de uma experiência ruim, a situação é caótica e é muito importante entender que isto não considera apenas uma empresa com capital anjo ou capital familiar, estamos falando de empresas de todos os tipos, segmentos e tamanhos, ou seja, nunca é cedo e, com certeza, pode ser muito tarde para começar a se preocupar. Vejam a exemplo o ocorrido com o WhatsApp que teve uma perda de quase 5 milhões de usuários para o app russo Telegram em apenas um único dia devido à instabilidade apresentada pelo aplicativo.

O risco e o custo de não se ater com a qualidade são muito altos, como podemos ver no “The Art of Software Testing, 2012″ onde apresenta-se que os custos decorrentes de problemas de qualidade podem chegar a 100 mil vezes se considerados dados decorrentes de reputação, perdas de receitas, contratos e afins.

 

Fonte: adaptado de Glenford J. Myers – The Art of Software Testing, 2012

Como apresentado, quando estruturamos nossos sonhos e focamos em torná-los reais, normalmente não nos atemos ao tema, pois ferramentas como Canvas Model, Lean Canvas, Jobs to Be Done, P&L, não nos instruem de forma clara e objetiva a atuar com testes, e isto nos faz correr sem tomar cuidado com o trajeto percorrido, sem a cautela necessária para que não existam riscos de termos de voltar vários passos atrás.

Para cada estágio de maturação, cada nível de investimento, cada quantidade de usuários existe uma abordagem diferenciada, uma maneira específica através da qual podemos nos estruturar, focando em pontos de maior importância, que nos ajudarão naquele momento específico que estivermos caminhando e lutando pelo nosso sucesso.

Para um maior esclarecimento de todos, através dos próximos artigos, abordaremos o nível específico de importância de cada teste em um determinado momento do nível de maturidade, apresentando quais os temas, processos e ferramentas que podem e devem ser utilizadas, sem danos na velocidade de desenvolvimento, mas com grande ganho na redução de risco de insucesso e de retrabalho.

O que apresentaremos é o caminho das pedras para que se possa inverter a curva de atuação de qualidade, reduzindo drasticamente o investimento e os riscos de falha após certo nível de maturidade, seja do produto ou do serviço, através das análises das relações entre tempo, investimento, concentração de usuários, áreas foco e objetivos.

Até mais, nos vemos nos próximos capítulos…


*Maicol Peixe possui 20 anos de experiência em Desenvolvimento e Qualidade de Software, com formação em Administração, MBA Executivo Internacional FIA e Mestrado FEA/USP e atua como Diretor de Operações da BRISA, empresa com foco em Qualidade, Consultoria e Desenvolvimento de Software. Atualmente está envolvido no processo de internacionalização da BRISA para os Estados Unidos e com projetos de diferentes bases tecnológicas para grandes empresas nacionais e internacionais. Como parte de suas atividades citamos projetos de testes para mais de 20 países, em 4 diferentes idiomas, com milhões de casos de testes e diferentes tecnologias.