* Por Francisco Saboya

As cidades vão mal. Isso não é nenhuma novidade e é um grande problema, já que mais de 50% da população mundial vive em centros urbanos. No Brasil, esse número é de 85%. Um dos dramas urbanos mais ressaltados nos últimos tempos é a questão da mobilidade. Em quantidades cada vez maiores de cidades, o tempo médio de deslocamento de ida e volta para trabalho supera com folga duas horas e meia por dia, com milhões de pessoas imobilizadas e de horas desperdiçadas em engarrafamentos que chegam a 280 km em São Paulo, a locomotiva cada vez mais travada do país. Mas sempre resta algum alento. Parece que a sociedade vem despertando para os efeitos negativos gerados por um dos emblemas da sociedade industrial, que é o carro e a mitificação ao seu redor.

Além de meio de transporte para alguns, era símbolo de status e liberdade para muitos e sonho de consumo para quase todos. Institutos de pesquisa e estatísticas econômicas ainda usam a produção de automóveis como um parâmetro para medir o desenvolvimento dos países. Quando o conceito de BRICs ainda fazia algum sentido, lá pela metade dos anos 2000, indicadores de pujança do Brasil, Rússia, China e Índia consideravam, além dos clássicos território, população e PIB, a velocidade de crescimento da classe média (que adora carros) e da própria produção nacional de veículos.

No Brasil, políticas recentes de subsídios fiscais à indústria e facilitação ao crédito para compra fizeram o problema da mobilidade se agravar consideravelmente. Perdemos ótimas oportunidades, como a Copa do Mundo e seu gigantesco orçamento, para ampliar e melhorar os sistemas públicos de transportes de passageiros. E la nave và, quase desgovernada, puxando um comboio nacional, segundo o Denatran, de mais de 95 milhões de veículos motorizados pelas ruas das cidades e estradas do Brasil a fora e ladeira abaixo. Esse número inclui motocicletas. Mas aí já é outro problema, matéria para epidemiologistas.

Mas, como disse, há sinais de que a civilização carrocrata bateu com a cabeça no teto. Vez por outra a imprensa repercute pesquisas que apontam um crescente desinteresse das populações jovens em obter a outrora cobiçada carteira de motorista. E não é por um ímpeto juvenil de trafegar na marginalidade e infringir o código de trânsito, não. É puramente por falta de interesse. Segundo a Universidade de Stanford, não passa de 30% a quantidade de jovens com desejo de obter licença para guiar, uma redução de quase 50% frente ao que se verificava trinta anos atrás. Não há nenhuma revolução à vista, mas é certo que os valores da juventude são outros.

Bandeiras identitárias, sustentabilidade ambiental e economia compartilhada entraram de vez no repertório da moçada. Por aí se enxerga uma janela para o futuro. Pegando o gancho na ideia do compartilhamento, aproveito para comentar novas tecnologias de serviços de caronas urbanas, como a lançada pelo Waze no Brasil esta semana (há várias iniciativas que vêm sendo aprimoradas desde 2010, num movimento iniciado pela startup – sempre ela – americana, a RelayRides). Em primeiro lugar, há de se ressaltar que, mais uma vez, estamos diante de movimentos pilotados por empreendimentos privados para enfrentamento de problemas de natureza pública. Isso quer dizer que os governos vão ficando cada vez mais para trás aos olhos da população no seu papel de provedor de coisas essenciais do dia-a-dia da coletividade. Isso é fato.

Em segundo, é importante registrar que iniciativas assim são mais um exemplo da aplicação prática, e portanto da capacidade de geração de valor, dos avanços tecnológicos nas áreas  de informação e comunicação, combinados com arranjos de negócio cada vez mais criativos. Vamos ao que se passou. Waze lançou nesta quarta-feira o Carpool, aplicativo criado para suportar o transporte de pessoas carless por meio do compartilhamento de carros na velha e boa modalidade de carona. Quem quiser dar carona, se inscreve na plataforma Waze e dá seu número de conta corrente para receber um dinheirinho extra pelo serviço. Quem quiser pegar carona, baixa o Carpool, cadastra o número do seu cartão de crédito uma vez e diz pra onde quer ir sempre que tiver vontade. Se coincidir com algum ofertante que vá para as mesmas bandas, o negócio tá fechado.

Carona sempre foi uma ação generosa e até divertida, mas caiu em desuso devido à insegurança crescente nas cidades. Aplicativos assim permitem selecionar os passageiros por gênero, local de trabalho ou segundo referências em redes sociais, restaurando a possibilidade de compartilhamento seguro de veículos. Os impactos disso são imensos. Cada carro compartilhado tem potencial de retirar das ruas entre cinco e dez outros veículos, a depender do contexto urbano, da metodologia do pesquisador e da torcida do militante da causa. Menos carros nas ruas significa menos trânsito e mais fluidez e bem-estar da população; menos poluição e mais saúde para todos.

Não é uma boa notícia para os taxistas não. Nem para motoristas de Uber, que passam a ter mais um competidor. Mas quem estava atrás de um bom exemplo prático daquilo que se banalizou chamar de cidades inteligentes aí está. A população agradece. E agora espera mais. No dia em que carros elétricos e autônomos estiverem operacionais e financeiramente acessíveis para serem compartilhados em larga escala, quem sabe os ensinamentos do velho Henry Ford, que fizeram a cabeça de gerações de pessoas de negócios, não vão de vez para uma nota de rodapé nos manuais acadêmicos?


Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Desde agosto de 2007 ocupa o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.