* Por Francisco Saboya

Dias difíceis

Mark Zuckerberg era o 5º homem mais rico do mundo até ontem. Agora não é mais. A queda espetacular do valor das ações do Facebook nesta última 5ª feira, cerca de 20%, o maior tombo diário na história da bolsa de valores (maior inclusive do que o da Microsoft e Intel no estouro da bolha em 2000), empurrou o cara por trás da maior rede social do planeta para a condição de 6º homem mais afortunado. Na última sexta-feira, dia 27 de julho, pelo contador de bilionários real time da forbes.com, ele tinha um patrimônio de U$ 66,3, depois de ter perdido U$ 15,4 bi em cerca de 24 horas.

A queda

Essa talvez tenha sido a notícia econômica da semana no mundo dos negócios. O Facebook perdeu U$ 120 bilhões de seu valor de mercado em cerca de duas horas. Mas quanto vale a empresa depois do terremoto? A bagatela de U$ 510 bi. Ou seja, ela ainda continua sendo a 5ª maior companhia americana listada em bolsa, atrás de Apple, Alphabet (Google), Amazon e Microsoft. Essas cinco empresas somadas valem no mercado U$ 4,1 trilhões. Para se ter um parâmetro de comparação, as 343 empresas da B3, a bolsa de valores do Brasil, estão avaliadas hoje em U$ 883 bi. Mesmo com o tombo, o Facebook ainda é maior do que as 20 maiores empresas brasileiras juntas. Para clarear ainda mais a compreensão, é como se o FB tivesse arrancado de seu mapa, em PIB equivalente, duas Bolívias, três Congos e uma Zâmbia inteira. Aliás, essa é uma marca da nova economia. As empresas individualmente valem tanto dinheiro que os países mais pobres são tomados como referência de moeda-mercadoria de baixo valor. Produtos ou coisas já não servem como indicadores de tamanho nesse mundo dos negócios high tech.

Sem [muita] explicação

Esse episódio tem gerado indagações. A principal delas é: seria o princípio do fim do modelo de negócios em redes sociais rentabilizadas pela dobradinha audiência-anúncios? Provavelmente ainda não. Facebook não perdeu clientes ou amargou prejuízos. Ao contrário. Paradoxalmente, cai num momento em que anuncia crescimento de 11% na base de usuários (métrica fundamental nos negócios em mídias sociais), alcançando cerca de 1,5 bilhão de daily active users, e um aumento no faturamento anual de 42% no trimestre fechado em junho, contra 47% no período anterior. Esse é o problema. O que se nota nos sites especializados é um desapontamento dos investidores decorrente da desaceleração das expectativas. O mercado castiga com força desproporcional as menores frustrações geradas por companhias como o FB, acostumadas a superar as previsões dos analistas. A sangria foi desatada pelo próprio executivo financeiro, ao anunciar que o ritmo de crescimento dos negócios não será tão intenso nos próximos trimestres e isso tem a ver com o aumento dos gastos para aprimorar os mecanismos de controle e privacidade dos dados pessoais.  Por aí se tem uma pista. O que se passa é que finalmente FB foi alcançado pela lambança na qual se envolveu, junto com a Cambridge Analytica, vazando dados de mais de 87 milhões de usuários para, entre outras finalidades, influenciar eleitores em benefício de Donald Trump e em favor do Brexit. A desvalorização deve refletir também a adoção recente na Europa – continente que tem cerca de 280 milhões de usuários diários – da GDPR, a restrita regulação de uso de dados que nós comentamos aqui na semana passada.

A última que morre

Como os especialistas estão sugerindo, ainda é cedo para os críticos comemorarem e para os investidores se desesperarem. Facebook, assim como Amazon e Twitter, entre outras, é altamente centrado no usuário, e esse parece ser o caminho das pedras nos negócios de tecnologia. A gigantesca base de usuários que demonstram interesse nos dados e serviços ajuda a manter a plataforma interessante para os anunciantes. Além do mais, FB é proprietário das outras três redes sociais que possuem mais de 1 bilhão de usuários – Instagram, Messenger e WhatsApp. E olhe que esta última ainda não monetiza seus serviços, embora carregue mais de 60 bilhões de mensagens diariamente. É de se crer que esses ativos combinados ainda têm poder suficiente para restaurar a confiança dos investidores e devolver MZ à condição de 5ª fortuna do planeta. (Se o leitor tiver alguma ideia para a coluna, pode enviar seus comments para chicosaboya@gmail.com).

* Artigo publicado originalmente pelo Diário de Pernambuco, em 28/07/2018

Francisco Saboya é Graduado em Ciências Econômicas (1982) e mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE (2006). É professor das disciplinas de Macroeconomia e Gestão de Sistemas e Tecnologias da Informação na FCAP-UPE. Desde agosto de 2007 ocupa o cargo de Diretor-Presidente do Porto Digital, parque tecnológico sediado em Recife-PE. É conselheiro do CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e do Softex Recife.