A Associação Brasileira de Startups, em conjunto com a Accenture, liberaram a versão final do estudo que mapeia o cenário das startups brasileiras. Batizada de “radiografia do ecossistema de startups”, a pesquisa mostra de perto a situação dos maiores polos de inovação do Brasil e o perfil dos empreendedores inseridos nelas.

O estudo contou com a participação de 1.000 startups por todo o País, e tem o objetivo de reconhecer o cenário destas empresas e elencar as ações prioritárias para alavancar o ecossistema de inovação. A pesquisa foi realizada por meio de um questionário online e aberto, onde os empreendedores puderam responder entre os meses de setembro e outubro de 2017.

De acordo com Guilherme Horn, líder de inovação da Accenture, esta ação ajudará a entender o mercado brasileiro. “Essa é uma pesquisa dentro de um contexto maior, que é mapear os ecossistemas no mundo. Já fizemos pesquisas semelhantes na Europa e EUA. O Brasil tem muito pouco dado a respeito do ecossistema de inovação, e isso dificulta as ações para promover o ecossistema. Porque, para fazer algo pelo ecossistema, precisamos entender suas dores e os desafios”, explica.

73% das startups mapeadas estão nas 10 maiores comunidades de startups do País (Rapadura, Manguezal, Brasília, Colmeia, San Pedro Valley, Cariocas, ZeroOnze, Red Foot, Capi Valley, Startup SC); 41% das startups ainda estão buscando por tração e 44% operam com modelos de serviços (SaaS).

Dentro da Radiografia, Guilherme destaca dois principais pontos. O primeiro deles é a identificação dos polos de inovação no Brasil. “Conhecemos os polos que existem em Recife, Santa Catarina, Minas Gerais etc, mas agora temos uma noção muito maior de quantas startups existem em cada um deles, se elas já receberam investimento, o perfil do empreendedor de lá. Desta forma, identificamos alguns gaps”, explica.

O estudo confirma que estes polos, fora das principais capitais, têm uma dificuldade maior em acesso a capital, mas ainda assim estão se desenvolvendo de forma muito interessante. “Agora, podemos levar isso para investidores-anjo, Venture Capitals e mostrar novas oportunidades de investimento nestes lugares, ajudando o ecossistema a crescer como um todo.”

O segundo ponto de destaque, para Guilherme, tem relação com os talentos existentes em todos os polos de inovação. A evasão de profissionais que se formavam em universidades e iam para as grandes capitais era muito grande até pouco tempo atrás.  “No Rio de janeiro, há dois anos, por volta de 40% dos estudantes de engenharia saiam do estado, a grande maioria destes vinha para São Paulo. Há excelentes universidades no nordeste e ainda assim as pessoas tinham que sair de lá. O que está acontecendo com o desenvolvimento nesses polos é que as pessoas estão começando a ficar. O fomento à inovação está dando oportunidade para estes profissionais e cresce o país como um todo”, afirma.

A radiografia também mapeou os pontos de atenção de acordo com os empreendedores das comunidades, apontando as principais tendências até 2020. Alguns dos números apresentados são: Talento – 80% dos respondentes acham que irá melhorar; Apoio ao empreendedor – 84% dos respondentes acham que irá melhorar; Mercado consumidor – 79% dos respondentes acham que irá melhorar; Acesso a capital – 88% dos respondentes acham que irá melhorar; Ambiente regulatório – 73% dos respondentes acham que irá melhorar.

Guilherme explica que este otimismo apresentado pelos empreendedores se deve à evolução significativa do ecossistema nos últimos anos. “Se você vê um empreendedor que está há anos empreendendo, ele está sim muito otimista. Cinco, 10 anos atrás eles não tinham as opções que tem hoje: mais empreendedores na comunidade, aceleradoras e coworkings, por exemplo. O empreendedor se sente mais confiante quando se vê inserido dentro de um ecossistema ativo”, diz.

Associação

Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups, destacou, no estudo o protagonismo das comunidades que não estão nos grandes centros. “Realmente os grandes centros acabam recebendo mais atenção que as pequenas comunidades até por conta da economia, e isso está criando um comportamento cada vez mais caro para obtenção de tecnologia e resultado por esforço colocado”, diz.
“O empreendedor fora dos grandes eixos tem desafios relacionados a talento, liderança, infraestrutura… Hoje ele está empreendendo e quase sozinho. Se ele tem um  problema, em vez de largar o negócio e criar outro, ele desiste, porque não tem comunidade suportando ele por trás. Ou a gente começa a desenvolver esses outros centros, ou a gente vai ter cada vez mais centralização dessas oportunidades. Mas a grande riqueza do Brasil é a nossa diversidade. Temos tudo pra sermos 10 vezes maiores que Israel ou Reino Unido, por exemplo”, afirma Amure.
Com os dados coletados com a Radiografia, a ABStartups tem grandes planos para fomentar as comunidades do Brasil que, segundo o presidente da associação, já somam mais de 130. No Brasil, “O primeiro passo para nós foi identificar quem são estas comunidades e onde elas estão. O próximo, para a ABS, é classificá-las por densidade empreendedora, localização, número de startups etc. A partir daí, conseguiremos criar arquétipos, colocando-as em níveis, para poder escalar.”
Isso significa que a Associação trabalhará dentro das comunidades, uma a uma, para identificar os problemas comuns, realizar um mapeamento deles e encontrar a forma de resolvê-los. A cereja do bolo deste plano de ação é uma criação de um guia, ao qual os líderes de cada comunidade terão acesso, com todos os dados dela. Deste playbook sairão soluções que poderão ajudar a resolver os gaps de cada comunidade, seja realização de eventos open source, meetups até a criação de um diálogo com a prefeitura local, por exemplo.
Para Amure, com estes dados coletados, organizados e divulgados, a visibilidade de cada polo será ampliada, dando a oportunidade para que investidores, aceleradoras, imprensa, venture capitals, grandes corporações e academias possam olhar para estes ecossistemas com uma lupa, de forma não realizada antes. Assim, há a possibilidade de um equilíbrio no nível do ecossistema brasileiro pelas regiões geográficas.
“A ideia é que a gente faça isso e em três anos já tenhamos um aumento no número de startups e geração de trabalho”, completa. A base de startups da Associação, hoje, é de 6410 empresas. No Brasil, estima-se que existam cerca de 10 mil startups ativas.