* Por Vitor Perez

Se você escolheu o caminho de trabalhar com tecnologia e inovação a partir de uma startup, parabéns! É promissor e repleto de oportunidades de curto, médio e longo prazos. Mas há um complicador bastante contemporâneo se compararmos à realidade do empreendedor há dez, 20 anos: ser global é mandatório. E isso assusta muita gente, apesar de não ser esse bicho de sete cabeças que parece.

Nos últimos dias, estive no Vale do Silício com um grupo de startups do programa de Aceleração da Visa e essa percepção de que é necessário ser global só foi reforçada. Ao se apresentar para um fundo de venture capital, um mentor especializado em marketing de produto ou então apenas para um coaching de pitch (outra cultura que as startups brasileiras devem incorporar com urgência), a pergunta recorrente é: como vocês imaginam escalar a sua solução para outros países, principalmente para os Estados Unidos? A resposta padrão do empreendedor brasileiro costuma ser que o foco inicial da empresa é o mercado nacional. Resposta errada.

Por que não buscar similaridades de mercado em outros países onde o seu negócio possa funcionar? Ou então desenhar um plano de expansão internacional, por mais distante que isso esteja da sua realidade atual? É isso que investidores e especialistas em auxiliar startups a crescer esperam numa conversa inicial para avaliar eventuais parcerias. Ao negar-lhes esse horizonte, o empreendedor limita o seu alcance a quem, assim como ele, estiver totalmente focado no mercado brasileiro.

Felizmente as startups que acompanhei já estavam com este mindset mais ajustado. Uma delas, a Cloudwalk, inclusive já conta com escritório no Vale do Silício e mantém conversas próximas com investidores. Seu fundador, o Luis Silva, já conhece bem como funcionam as conversas na região e desde o início pensou a solução para meios de pagamento, com aplicações de blockchain, para rodar em outros mercados além do Brasil. Isso também vale para a Celcoin, focada em transformar celular em uma maquininha de cartões e ao mesmo tempo disponibilizar serviços financeiros para pessoas não bancarizadas. Quantos países no mundo enfrentam tal problema de falta de acesso aos bancos por parte da população? Mesmo nos EUA, quantos imigrantes não estão à margem do sistema financeiro tradicional. E ainda vi de perto a pesquisa de mercado da LaPag, uma startup brasileira, que, além de participar do programa da Visa, recebeu aporte do fundo de venture capital Canary, encontrando diversas similaridades entre os salões de beleza no Brasil e nos EUA.

Como disse no início, ambicionar ser global não é um bicho de sete cabeças. Quanto antes os empreendedores brasileiros encararem isso como mandatório, mais casos de startups brasileiras de sucesso iremos acompanhar. E certamente essa também é uma expectativa dos investidores estrangeiros. Aja e pense global!


Vitor Perez é Chief Operating Officer da Kyvo