*Por Exame.com

Trocar um botijão de gás é uma tarefa feita praticamente do mesmo jeito há décadas, por encomendas pelo telefone ou com o ouvido atento à música do caminhão de gás.

O mercado é grande: apenas na cidade de São Paulo, são vendidos mais de 100 mil botijões por dia. Mesmo assim, ainda é setor pouco tecnológico e há vendedores irregulares.

O Chama nasceu para mudar esse hábito. Pelo aplicativo, o consumidor pode comparar diversas revendedoras de gás pelo preço e tempo de entrega e escolher a que melhor se adequa a suas necessidades.

Criado há dois anos, o serviço já tem mais de 2 mil revendedores cadastrados em três cidades: São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

A startup foi criada pelo holandês Marijn van de Ven, apoiado por um investidor europeu. Ele veio ao Brasil e percebeu que a entrega de gás por aqui era bem diferente da que ele conhecia.

O país tem um abastecimento de gás muito peculiar. Enquanto em países mais frios, onde há aquecimento nas casas, o gás é encanado, o Brasil ainda é bastante dependente de botijões, principalmente em bairros com mais casas que prédios.

De acordo com a companhia, há uma oportunidade de tornar o procedimento mais rápido, digital e confiável, já que 38% do mercado de gás passa pela mão de revendedores ilegais, sem a segurança adequada.

Por conta da origem holandesa do fundador, há também uma equipe de desenvolvimento e tecnologia em Amsterdã, com 20 pessoas. A maior parte da companhia, porém, fica no Brasil, em um escritório em São Paulo. No total, são cerca de 80 funcionários.

Como funciona

O monopólio do refino de gás de cozinha está nas mãos da Petrobras. Ela depois vende o gás para as engarrafadoras, empresas como Ultragaz ou Comgás. Por fim, os revendedores menores compram destas marcas. O consumidor tem contato apenas com a ponta final desta cadeia, os revendedores.

Estocar os botijões não é um trabalho simples para esses revendedores e os custos são altos. As condições de armazenagem são regulamentadas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) e o local precisa ter uma licença do corpo de bombeiros.

Dessa forma, os vendedores acabam tendo margens de lucro pequenas. Por isso, há muitas revendas ilegais, que não cumprem com os requisitos, o que pode ser catastrófico para a segurança, diz Otávio Tranchesi, diretor de marketing do Chama.

O app aceita apenas revendedores em dia com as normas de segurança e aprovados pela ANP. O sistema checa em tempo real se aquela empresa está com o cadastro em dia no sistema da agência.

Alcance

Para ser atrativo ao consumidor, o aplicativo precisa oferecer mais de uma opção de abastecimento para cada região. Por isso, um dos principais trabalhos da companhia hoje é acrescentar novos revendedores ao seu sistema e garantir a qualidade da entrega.

Com mais de 2 mil revendedores, o aplicativo já tem mais parceiros do que qualquer distribuidora. O objetivo é que cada área de aproximadamente 2 quilômetros quadrados seja atendida por pelo menos quatro revendedores diferentes, que conseguem entregar em até meia hora.

Para garantir a cobertura, a equipe comercial observa os detalhes: vê em qual região, bairro ou rua não há cobertura e por quê. Também verifica as instalações dos revendedores, se têm computadores para anotar os pedidos, qual é a área de cobertura e os ajuda a melhorar a logística no horário de pico – na hora do almoço ou do jantar, que é quando o gás normalmente acaba.

Em um caso, conta Tranchesi, o app ajudou uma revendedora a consertar o atraso na entrega de gás – eles perceberam que o maior atraso era no horário das 7h às 9h, por conta de um funcionário que costumava cochilar no serviço.

São Paulo foi a primeira cidade a receber o serviço, em novembro de 2016. Belo Horizonte chegou em seguida, no meio de 2017, e Porto Alegre está disponível há menos de dois meses.

Para o futuro

O principal objetivo da companhia, diz o diretor, é mudar o hábito de consumo do brasileiro. A maior parte das pessoas ainda pede gás pelo telefone e poucos compram dos caminhões de gás. Por enquanto, o aplicativo é usado principalmente pelos “heavy users” de aplicativos, ou seja, as pessoas que estão por dentro das últimas novidades da tecnologia.

Falta chegar ao público geral e, por isso, grande parte do investimento da empresa hoje é em marketing. Ela criou dois comerciais com músicas conhecidas. O primeiro é uma paródia do sertanejo “50 reais” e o segundo faz uma brincadeira com a música “Cheguei”, da cantora Ludmilla. “Queremos transformar uma coisa chata, que é um botijão de gás, em algo legal e divertido”, afirmou o diretor de marketing.

Ele acredita que, uma vez que conhecerem o aplicativo, os consumidores não irão mais voltar ao método antigo, pela facilidade e economia. “O Chama é um dos poucos aplicativos focados nas classes B e C. Para essas pessoas, faz diferença pagar 60 ou 70 reais por um botijão, o que faz parte do nosso impacto social”, diz Tranchesi.

Já a médio prazo, o aplicativo deve incluir novas funcionalidades, como agendamento de entrega ou aviso de que o gás está acabando, cálculo feito de acordo com o perfil do consumidor.

*Por Karin Salomão para Exame.com.