O mercado empreendedor no Brasil é bastante movimentado. Com frequência, nos deparamos com aquisições e aportes de investidores-anjo, venture capitals e private equities em startups. No Brasil, só nos primeiros meses do ano o ecossistema ganhou três unicórnios: 99, PagSeguro e Nubank. Neste seleto grupo dos unicórnios (startups que valem mais de US$1 bilhão), há cerca de 280 ao redor do mundo.

Mas, de que forma o valor de uma empresa é calculado? De acordo com Adam Patterson, especialista neste tipo de avaliação, há várias formas e modelos diferentes utilizados para se calcular o valor de um negócio, mas, em uma análise mais aprofundada, verifica-se que existem duas abordagens principais: o fluxo de caixa descontado (FCD) e a avaliação relativa aos múltiplos do mercado. ” Vale ainda lembrar que, no universo de Venture Capital, a maior parte das vezes o foco acaba sendo em “precificação” e não Valuation em si. Nestes casos, a precificação pode ser feita por Scorecards, pelo ‘feeling’ dos investidores, por ‘humor do mercado’ ou com base em estimativas de exits futuros”, explica.

Adam é cofundador da Alfa Valuation, primeiro portal de avaliação financeira para PMEs e startups online no Brasil. “Decidi sair para empreender com intuito de democratizar o acesso ao Valuation e disseminar as melhores práticas internacionais na avaliação de pequenas empresas e startups”, conta o empreendedor. Hoje, lidera a equipe de Valuation da Legacy Partners, um escritório de M&A (fusões e aquisições).

Na prática

João Kepler, investidor-anjo e sócio da Bossa Nova Investimentos, explica que o valuation é uma forma de mensurar o valor que uma empresa tem. “No mundo do investimento, o valuation é a base pra você determinar quanto o investidor vai colocar de capital financeiro na empresa e o quanto de participação ele vai ter”, diz.

Em startups iniciantes, que ainda não tem faturamento, João fala que, na hora de investir, há uma conta básica: quanto de dinheiro aquele empreendedor precisa para manter a empresa (contas a pagar, funcionários, desenvolvimento de software, aluguel etc) e o qual a porcentagem da empresa ele está disposto a ceder em troca deste dinheiro, o equity. A soma destas duas coisas dá uma base de quanto a empresa vale.

Por exemplo, um investidor precisa de R$100 mil para manter sua empresa pelos próximos 12 meses. Em troca, ele está disposto a ceder 10% da participação para o investidor. Isso significa que, basicamente, a empresa dele vale R$1 milhão. ” Se o investidor não acha que a empresa tem aquele valor, o investidor e o empreendedor negociam. O investidor, geralmente, vai comparar com outras empresas do segmento no mercado, analisar o estágio delas e o valor, para dizer ao empreendedor se o equity para o investimento está de acordo com o mercado, seja para mais ou para menos”, explica João.

Nesta conta, é imprescindível que entre também o salário dos fundadores. “Em uma empresa que está no começo, o empreendedor calcula até R$3 mil por mês de salário, dependendo da região do país, este valor pode ser menor. Quando a empresa começa a melhorar, o aporte leva em conta cerca de R$5 mil para o fundador. Quando a empresa já está em um estágio muito melhor, a média é de R$8 mil para o empreendedor.”

Sem faturamento

Diversas empresas no mundo têm um valor de mercado gigante sem ter faturamento algum. O WhatsApp, por exemplo, foi adquirido pelo Facebook por US$22 bilhões, há três anos. Até hoje, o aplicativo de mensagens não tem anúncios e é totalmente gratuito. Este valor astronômico é definido por um dos inúmeros KPIs – ou indicadores-chave de desempenho – que são levados em consideração na hora de avaliar uma empresa de grande porte.

Alguns dos KPIs são faturamento, número de usuários, custo de duplicar a solução e etc. “Quanto eu perco em valor de mercado se eu não conseguir duplicar a solução que aquela startup desenvolveu e eu não adquiri-la? Quantos usuários eu posso perder neste cenário? Estas são as preocupações de grandes empresas que compram startups sem faturamento, mas com uma base grande de usuários”, explica Fábio Póvoa, investidor-anjo e diretor da Smart Money Ventures.

As aquisições que geram unicórnios, neste caso em especial, podem ser feitas visando o potencial de gerar faturamento e lucro líquido em um momento futuro, a expectativa de um evento de liquidez ou ainda pensando em sinergias futuras.

“O custo de duplicar uma solução muitas vezes é maior do que a de adquirir aquela empresa que tem sua base de clientes. O Google, por exemplo, ao tentar criar uma plataforma como o Facebook, criou o Google Plus. Hoje, o Facebook tem mais de 1,6 bilhão de usuários na plataforma”, diz Fábio.

Cálculo

Adam aponta que, da mesma forma que um contrato deve ser elaborado por um bom advogado, é altamente recomendado que um profissional responsável e qualificado de valuation realize um estudo de avaliação. “Pode ser necessário um investimento adicional – e sim, realmente é um investimento! –  mas vale a máxima que ‘o barato pode sair caro’. Em todo o caso, tanto empreendedores quanto investidores devem entender os drivers de valor e os métodos de Valuation.”

Ter uma compreensão realista do valor de sua startup é fundamental para a tomada de decisão e planejamento. Muitos empreendedores presumem que só devem se preocupar com o quanto vale seu negócio se eles estão pensando em levantar capital ou trazer novos sócios. “No entanto, uma avaliação é muito mais do que um único número: é a chave para ter um ‘big picture view’de sua startup, mostrando onde você está e pra onde você está indo, mapeando os riscos, oportunidades e modelos de monetização no caminho. Assim, a avaliação pode e deve ser utilizada como um driver de como gerenciar sua startup, avaliando oportunidades e fazendo um acompanhamento de ganhos futuros para investidores”, explica Adam.

Perdendo valor

Risco e retorno são os pilares do cálculo de valuation. O especialista explica que, se o risco – entendido como volatilidade ou resultados fora dos planejados – aumenta e os retornos reduzem (ou simplesmente não se realizam), o valor econômico de uma startup pode ser negativamente impactado. Em um momento futuro, esse potencial tem que ser transformado em resultados ou a lei de gravidade econômica pode ser aplicada. “Os fundamentos de uma empresa têm que acompanhar seu Valuation ou podem experimentar o ‘dreaded down round’. Como sempre, startups tem que “show us the money” (ou seja: gerar lucro ou economic synergies) para justificar seu Valuation.”

Para Adam, o valuation não é uma simples planilha, mas sim a resposta para a pergunta “o que gera valor?”. A resposta é baseada em três fatores principais: fluxos de caixa de ativos existentes e em crescimento, seu nível de risco e quando e como a empresa se aproxima da maturidade. “Assim, toda avaliação começa com uma narrativa, uma história futura que convertemos em números e em uma tese de investimento. Ao desenvolver essa narrativa, fazemos avaliações dos produtos, processos e pessoas da empresa/projeto; mercado, concorrência e macro ambiente. Essencialmente, são essas histórias que impulsionam a avaliação, então precisamos testar essa narrativa de avaliação para verificar se é possível, plausível e provável.”

Em resumo os dois principais testes que as startups precisam passar para receber capital dos investidores são:

  • Teste narrativo: a história faz sentido?
  • Teste de números: os números fazem sentido?

Por que há tão poucos unicórnios no Brasil?

Como o próprio nome sugere, os unicórnios são entidades raras. Os Estados Unidos detém o título de “lar dos unicórnios”, sendo país de origem de metade destas empresas. O Brasil, entretanto, se tornou lar de seus primeiros três apenas em 2018.

Para Adam, “dois fatores chave para incentivar um ‘blessing’ de unicórnios nacionais seriam a criação de políticas públicas de incentivo de empresas de tecnologia e inovação, falta de ecossistemas joined-up e falta de capital de risco em fases anteriores de crescimento. Uma melhoria no cenário econômico-político e maior otimismo podem gerar um quadro favorável para estimular ainda mais o surgimento destas criaturas míticas por aqui.”

Então, que venham os próximos!