*Por Laís Grilletti para Endeavor Brasil.

Você deve ter ouvido falar que o primeiro unicórnio brasileiro — startup avaliada em mais de 1 bilhão de dólares — a 99, foi adquirida pela chinesa DiDi Chuxing, em janeiro deste ano. O que talvez você não saiba é que essa foi a sexta startup de Paulo Veras. Sua jornada como empreendedor começou muito antes, aos 23 anos, antes mesmo de a internet chegar às casas brasileiras, restrita apenas às universidades.

Naquela época, os conteúdos eram compartilhados em CD-ROMs, as telas de computador eram pretas e o universo digital era uma grande novidade. Ninguém sabia ainda, mas uma revolução estava prestes a acontecer.

Paulo Veras aprendeu a programar, ainda pequeno, usando a calculadora de sua irmã. Na juventude, chegou até a desenvolver um software de gestão para clínica médica. O que poderia ter sido o primeiro SaaS para o segmento de saúde do país tornou-se apenas um projeto que foi vendido para o amigo de seu pai. Faltava ainda a visão empreendedora que Veras desenvolveria tempos mais tarde.

Durante a faculdade, enquanto cursava Engenharia Mecatrônica na USP, juntou-se a três amigos para fundar seu primeiro negócio: a Tesla, uma das primeiras empresas brasileiras de desenvolvimento de sites. Os empreendedores começaram com uma ideia simples: criar um programa de treino e simulado para o vestibular.

Uma das reuniões mais marcantes aconteceu com a diretoria do cursinho Anglo. Sem um notebook na mão, era preciso levar o computador de mesa de casa: torre, monitor, teclado, mouse…cada sócio levava um pedaço. A reunião até foi boa, mas a ideia parecia tão inovadora que os diretores não sabiam bem o que fazer com ela.

“Nós percebemos que estava muito cedo para apresentar aquela ideia. Abrimos uma janela do que poderia ser feito no digital, mas ainda não era a hora de nos contratarem para fazer aquilo.”

Os 4 empreendedores seguiram tendo ideias do que poderia ser feito, até a Internet começar a se popularizar no Brasil.

“Quando nos deparamos com a internet, nós pensamos: isso aqui vai revolucionar o mundo. Criar uma rede que conecta todo mundo e que, a qualquer momento, você pode ir lá e acessar informações, comprar coisas…aquilo era revolucionário!”

O que eles enxergavam, quase ninguém via. Era difícil convencer as pessoas a criarem suas páginas. Ninguém sabia ao certo o que era a internet. Foi assim que nasceu a segunda startup de Veras: o GuiaSP. O site era um verdadeiro guia de atividades culturais para São Paulo e funcionava como um case para os empreendedores explicarem o que estava por vir. Como funcionavam os hyperlinks, quantas visitas um site poderia ter, qual era o alcance da plataforma e de que forma uma empresa comum poderia se beneficiar daquele movimento.

Essa visão pioneira rendeu à Tesla a criação dos sites de grandes empresas como a Siciliano e o Sé Supermercados. Dos 4 sócios, Paulo Veras era o único que sabia programar e se dividia em uma jornada dupla: de dia, trabalhava como engenheiro de automação na ABB (Asea Brown Boveri) e nas horas vagas programava os novos sites pela Tesla. Quando Veras percebeu que se divertia mais trabalhando aos fins de semana do que de segunda a sexta, decidiu transformar o part-time job em dedicação total. Seria preciso, apenas, comunicar essa decisão aos pais.

“Sentei para conversar com meus pais e falei: se eu não me dedicar à Tesla, ela não vai decolar e eu vou perder uma grande oportunidade. Queria comunicar a vocês que, amanhã, eu vou pedir demissão.

Minha mãe falou: meu filho, você está louco? Ela falou um monte, descascou, descascou…

E meu pai não falava nada.

Até que minha mãe diz: o menino vai fazer uma besteira dessas e você não vai falar nada?

Ao que meu pai responde: claro que não. Ele está brincando!”

Quando Veras contou que aquilo não era uma brincadeira, ouviu o discurso todo outra vez. Agora, na voz do pai.

Esse foi o meu primeiro Day1. O dia em que resolvi queimar a ponte e dizer: o que quero, de fato, é empreender.

Paulo Veras viveu todo o período da bolha da internet, desde antes da sua formação. Em 1999, chegou a estrelar uma reportagem de capa da Revista Exame, que colocava a Tesla como uma das empresas mais promissoras para o novo milênio.

Apesar de todos os holofotes, foi uma pergunta feita pela equipe do Banco JPMorgan, durante uma rodada de investimento, que trouxe o empreendedor de volta à realidade. “Eu vejo aqui os números de vocês, mas não consigo entender. De verdade, vocês dão lucro ou prejuízo?”. Veras não sabia responder na hora, mas descobriu logo depois: desde o primeiro dia, a Tesla dava prejuízo.

Apesar desse choque, o final da história foi feliz. Eles refizeram os últimos dois anos de contabilidade, conseguiram um investimento de quase US$5 milhões pelo JPMorgan e, tempos depois, venderam o GuiaSP para a Starmedia, que estava entrando com tudo no Brasil.

Era o momento de se profissionalizar como empreendedor. Paulo Veras saiu da operação da Tesla por um período e foi fazer um MBA no exterior. Esse contato com outros empreendedores do mundo inteiro o fez ter clareza de que o modelo de negócios da Tesla não tinha futuro. Foram dias elaborando um novo planejamento estratégico, inspirado pela nova visão do que a empresa poderia se tornar. Ele só não contava que seus sócios iriam se opor à ideia. Entre seguir com o modelo que não acreditava e sair do negócio, o empreendedor decidiu sair.

De cara para o vento, tirou um ano sabático para viajar e se afastar completamente dos negócios. Viajou por países completamente diferentes, dos mais desenvolvidos aos mais carentes. Uma oportunidade de refletir sobre o seu papel na criação de um mundo melhor.

Com essas reflexões em mente, Paulo Veras chegou até nós, aceitando a missão de liderar a Endeavor, em 2004.

A Endeavor, para mim, foi o melhor dos dois mundos: consegui colocar em prática o plano de ter mais impacto social e ajudar o país a melhorar e se desenvolver. E, ao mesmo tempo, me trouxe muita experiência em empreendedorismo. Foi uma escola excepcional.

Quando a missão estava cumprida e o ciclo concluído, era hora de voltar a vestir o chapéu de empreendedor. Paulo Veras saiu à caça de novos modelos de negócios. Em 3 anos, ele participou da criação de 3 outras startups, sempre na área de serviços no meio digital.

A Pixit deu certo e foi vendida, já o Guidu infelizmente não teve tração. Parte do jogo e dos riscos de quem empreende. A terceira decolou muito rápido, no melhor estilo Vale do Silício. E depois, quebrou.

Um pouco depois disso, a dupla Renato Freitas e Ariel Lambrecht o chamou para construírem juntos a 99.

“Foi uma jornada bastante intensa. Começamos em 2012 e terminamos em 2017, há poucos meses.”

A bagagem das outras 5 startups e a vivência na Endeavor provocaram em Paulo Veras um novo jeito de sonhar grande. Logo no início, Ariel tinha colocado como meta alcançar mil táxis com o aplicativo, mais do que qualquer cooperativa até então. Parecia algo muito grande. Mas analisando o mercado, os três descobriram que existiam 150 mil táxis no Brasil. O objetivo da 99 era romper com esse modelo, criar um novo paradigma. Para isso, a referência da cooperativa não seria suficiente.

E, de fato, não foi. Poucos meses depois de lançar a 99, eles já estavam fazendo mil corridas por mês. Mas o que parecia uma curva exponencial, estava longe de atingir o teto. Tempos depois, chegaram a 10 mil corridas, depois 100 mil…E, finalmente, 1 milhão de corridas por mês.

“Nós percebemos que não adiantava colocar uma meta porque aquilo seria um teto. Mais importante do que definir onde poderíamos chegar era manter o crescimento. Manter a cadência de crescer 5% ou 10% toda semana.”

Nesses 5 anos, o maior desafio era estar, na semana seguinte, maior do que na semana atual — em uma montanha-russa que contava com maravilhosos anos ímpares e terríveis anos pares. Toda essa jornada que envolveu a concorrência feroz do Uber, a entrada no segmento de carros particulares com o 99POP e, ainda, uma batalha pessoal pela saúde, levaram Paulo Veras a dezembro de 2017.

Depois de ajudar a mudar uma legislação de longa data, entrar no segmento de carros particulares com o 99POP e fechar a maior rodada de Venture Capital da história no Brasil, era hora de vender a 99 para a DiDi. Afinal, 2018 seria ano par. Estava na hora de buscar por outro Day1.

*Texto publicado originalmente por Endeavor Brasil.