De acordo com um relatório da Central Connecticut State University, o Brasil é um dos primeiros países do mundo em relação à proporção de alunos na escola e PIB destinado à educação. Entretanto, ficamos entre os últimos do planeta quando o assunto é qualidade de ensino.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, em sua avaliação de 2015, apontou que 71% das escolas dos anos iniciais do ensino fundamental não estão patamar mínimo de qualidade definido pelo Ministério da Educação.

Estes dados mostram que, embora cada vez mais pessoas estejam recebendo educação no Brasil, o formato ainda é ultrapassado e a qualidade, consequentemente, não acompanha o mundo onde vivemos hoje.

“Nós estamos em um momento em que a educação pode caminhar para vários lugares. É o momento de uma ‘crise existencial’ onde a educação está repensando a sua função social e quais desafios no mundo atual ela terá condições de atender, que vão desde desafios de sustentabilidade ambiental, até de convivência e, principalmente, de produtividade, emprego e distribuição de renda”, diz Marcia Padilha, professora e fundadora do Programa Criamundi, cujo objetivo é transformar as escolas em espaços mais tecnológicos a partir do empoderamento de gestores de ensino e equipes escolares.

De acordo com a pesquisa “Retratos da Sociedade Brasileira – Educação Básica”, realizada pela Confederação Nacional da Indústria e pelo movimento Todos Pela Educação, o brasileiro considera que há uma relação direta entre a qualidade da educação nacional com os índices de violência e corrupção.

77% dos entrevistados no estudo concordam que o problema da violência se relaciona diretamente com a baixa qualidade da educação. 60% também diz o mesmo em relação à corrupção. A percepção sobre o vínculo entre a educação e violência cresce de acordo com o grau de escolaridade dos entrevistados. Entre aqueles com até a quarta série do ensino fundamental, 71% concordam com a afirmação, e este percentual que chega a 82% entre os que possuem ensino superior.

“A má distribuição de renda no Brasil traz para as escolas, em especial as públicas, um nível de complexidade muito sério. É necessário mais investimento para a educação, porque inovação não faz mágica. A inovação melhora completamente a eficiência e a eficácia na educação, mas se não há suficiência de recursos, a inovação se torna apenas uma melhoria”, completa.

As oportunidades neste mercado são impressionantes. Há mais de 50 milhões de alunos no Brasil, entre fundamental, médio e profissionalizante, em mais de 200 mil instituições de ensino. Para ensiná-los, o País conta com mais de 2 milhões de professores e professoras.

Para mudar a forma como as pessoas aprendem e ensinam, as edtechs brasileiras estão crescendo cada vez mais. De acordo com a Associação Brasileira de Startups, cerca de 12% das startups do país são do segmento de educação.

“O papel das startups no cenário atual da educação é de construir com as escolas uma parceria e agregar valor aos alunos em empreendedorismo, inovação e outros temas para somas às competências da escola”, diz a Marcia.

Para Glaucia Rosas, professora e Diretora de Aprendizagem Digital da St Paul’s School, a inserção da tecnologia nos métodos de aprendizagem são fundamentais para que hoje os alunos, sejam crianças ou adultos, acompanhem a evolução digital do mundo todo. “É importante que os professores escutem os alunos e entendam quais as necessidades deles na sala de aula. Capacitar uma pessoa para a vida e o mercado de trabalho é muito mais do que sentar em uma sala de aula e explicar conteúdo. É necessário que a tecnologia utilizada no dia a dia seja inserida também neste momento, para que o que seja ensinado faça sentido aos alunos.”

O Startupi conversou com algumas das edtechs mais promissoras do País e, abaixo, mostra alguns segmentos a serem explorados pelo vasto mercado que envolve tecnologia e educação. Confira:

Startups

Robótica para crianças

Estudos mostram que 65% dos empregos das próximas gerações ainda nem existem. Neste contexto, algumas startups estão surgindo para levar para dentro da sala de aula o futuro das profissões: programação e robótica. A startup Mundo 4D funciona como um integrador de robótica para crianças, levando este serviço para dentro das escolas.

A empresa identifica quais são as melhores soluções para cada escola e faixa etária, e entrega aos pequenos o serviço completo da programação robótica, com materiais para a confecção das atividades, robôs, dispositivos e professores. Para escolas fora de São Paulo, a startup capacita professores da própria escola para que deem a oficina de criação para os alunos. Por enquanto, a empresa atua apenas com escolas particulares, porque as burocracias para oferecer serviços para escolas públicas ainda são complexas.

Os clientes da startup tem idades que vão desde os 4 anos até o fim do ensino fundamental, aos 14 anos. “Criamos um robozinho que segue uma linha, para começar a ensinar as crianças pensamento computacional só utilizando lápis de cor. Ensinamos os códigos, damos papel e as crianças pintam o código de acordo com a função que o robô deve cumprir. A partir do 3º ano, nós migramos para um robô mais robusto, completamente programável, e que tenha uma boa anatomia para as atividades maker que desempenhamos”, diz André Emil Getschko, fundador da empresa.

Para ele, o modelo in school realizado pela startup agrada às escolas e famílias: “As escolas têm consciência da importância da inserção do ensino das competências do século XXI no panorama infantil, e através da parceria com o Mundo4D, conseguem aliar qualidade, inovação e conveniência às famílias”, diz André Emil. Hoje, são atendidas cerca de 150 crianças pela empresa, onde mais de 40% são meninas. “Elas são dedicadas e fascinadas pela robótica. E vamos chegar aos 50%!”, diz Fernanda Getschko, fundadora.

Inteligência emocional

Educação não é só aquisição de conhecimento teórico, mas também preparar um ser humano para o futuro que o aguarda. A Brain Academy é uma startup que oferece cursos de desenvolvimento de inteligência socioemocional e função executiva para crianças. Os cursos, aplicados por psicólogos e psicopedagogos, são estruturados nos conhecimentos de psicologia cognitiva, neurociência, psicologia positiva e aprendizagem mediada de Feurstein.

A empresa foi fundada há um ano e hoje realiza parcerias com escolas para oferecer estes cursos na grade extracurricular para mais de uma centena de crianças, em grupos de até 15 alunos, que tem de 4 até 10 anos de idade. “Sou psicóloga clínica e trabalhei muitos anos nesta área. Comecei a empreender neste segmento porque acredito que a prevenção de transtornos de ansiedade, pânico, depressão e outros, passa pela educação”, explica a fundadora Regina Suguihara.

Alguns dos pontos trabalhados durante os cursos são: controle inibitório; manejo do tempo; memória de trabalho; pensamento analítico; pensamento crítico; persistência em direção à um objetivo; planejamento; priorização; liderança; resolução de conflitos; trabalho em equipe; cooperação e valorização da diversidade; influência social; comunicação assertiva; autocuidado; automotivação; autopercepção; curiosidade; criatividade; ética; integridade; metacognição; responsabilidade; consciência, saúde mental e psicológica.

Para Regina, é importante que crianças com dificuldade de aprendizado também trabalhem estas competências desde cedo. “Hoje, as escolas percebem que alguns alunos chegam para elas sem algumas habilidades importantes, como, por exemplo, prestar atenção. As crianças estão agitadas pelo excesso de estímulos e, para trabalhar isso, muitas vezes faltam algumas ferramentas que nem mesmo os pais conhecem”, completa.

Educação Corporativa

Educação de qualidade não é só para crianças! Um dos pontos importantes hoje quando se fala em educação corporativa, é a capacitação de funcionários para ocuparem determinados cargos nas empresas. E as oportunidades são gigantes: o mercado de ensino profissionalizante, atualmente, movimenta cerca de R$35 bilhões. Uma das startups que surgiu para preencher uma das lacunas deste mercado é a Witseed, uma startup de produção de conteúdo para o mercado fundada em julho de 2017.

Com investimento inicial de R$1 milhão em bootstrapping, a startup já alcançou grandes empresas brasileiras como clientes, como Algar, Braskem, Siemens, Fiat, Gerdau, CCR, Natura e Grupo Pão de Açúcar. Em vez de oferecerem  um produto pré-preparado ao mercado, os fundadores Bruno Leonardo e Miguel Fernandes criaram um Conselho de Educação junto com seus clientes, formados pelos próprios executivos de cada um deles, de modo a unir as principais tendências e benchmarks do mercado com as reais necessidades de desenvolvimento identificadas nas empresas.

O resultado até o momento é a produção de mais de 200 vídeos, sobre os mais diversos temas, desde automação, processos analíticos, mindset tecnológico até liderança, criatividade, negociação e comunicação. Todos gravados por executivos do mercado, especialistas em cada um dos temas.

O faturamento da Witseed atingiu a marca de R$1 milhão quando a empresa tinha seis meses de funcionamento e hoje já possui mais de 6 mil profissionais cadastrados na plataforma. O crescimento da empresa é de 180% ao mês.

Segundo Bruno Leonardo, CEO da Witseed, “queremos revolucionar a experiência da educação e ser a forma como os profissionais mais competentes da América Latina se mantém em constante aprendizado”.

Atualmente, a equipe é formada por 12 humanos e um robô (o Witson, nome dado ao Watson da IBM). O robô utiliza a Inteligência Artificial para “conversar” com os alunos, identificar seus interesses e sugerir conteúdos.

Para Miguel Fernandes, CPO da Witseed, “algumas das motivações para abrir o negócio foi contrapor os modelos atuais, que são desconectados com os desafios do mercado, e a falta de seleção e qualificação no conteúdo disponível na internet (muitos deles com pouco controle de qualidade e relevância).”

O mercado das EdTechs é vasto, e há um oceano de oportunidades para as startups que nele se encontrarem. Para mudar o cenário político, econômico e social do Brasil, o caminho passa necessariamente pela educação, que, por sua vez, depende do empreendedorismo, tecnologia e muita inovação. Como diria Immanuel Kant,”o Homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.”