Nos últimos dias, uma série de acontecimentos está movimentando o mercado das fintechs no País. O banco Inter, sediada na capital mineira, se tornou a primeira fintech a abrir capital na bolsa de valores brasileira, levantando R$721,9 milhões. A notícia, de acordo com especialistas, é um ânimo para que mais startups do setor financeiro abram IPO no Brasil, em vez dos Estados Unidos.

Hoje, um site noticiou que milhares de dados de usuários do banco Inter foram vazados por um ataque hacker. De acordo com a reportagem, mais de 100 mil clientes foram afetados com o vazamento de fotos de cheques, documentos, transações, emails, informações pessoais, chaves de segurança e senhas. O portal diz ter confirmado a veracidade do vazamento de mais de 80 mil nomes deste ataque, mas os criminosos afirmam que o sequestro dos dados alcança mais de 300 mil pessoas, o que significa que todos os clientes do banco podem ter sido atingidos. A publicação ainda afirma que os hackers estariam vendendo as informações por 10 Bitcoins, ou cerca de R$340 mil. Em resposta ao portal, em nota o banco afirmou que “o Banco Inter segue as regulamentações de segurança aplicáveis à natureza do serviço prestado, estando em conformidade com as boas práticas no que se refere à proteção dos dados pessoais de seus clientes. Nesse sentido, busca constantemente o aperfeiçoamento de sua segurança digital. Inclusive, é pioneiro na migração de dados para computação em nuvem junto ao seu parceiro Amazon Web Services”.

Procurado pelo STARTUPI, o Inter declarou que “foi vítima de tentativa de extorsão e que imediatamente constatou que não houve comprometimento da segurança no ambiente externo e nem dano à sua estrutura tecnológica. A companhia esclarece, ainda, que comunicou o fato às autoridades competentes e a investigação corre em sigilo.”

Neon

Outro banco que também teve uma semana cheia de altos e baixos foi o Neon. Ontem, o STARTUPI noticiou o aporte de R$72 milhões, sendo o maior aporte Serie A já realizado em uma fintech no Brasil. O investimento contou com a participação das empresas Propel Ventures, Monashees, Quona, Omydiar Network, Tera Capital, family office do Patria Investimentos, e Yellow Ventures.

Nesta manhã, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da empresa Banco Neon S.A. No site do Neon, que está fora do ar, o BC afirma que a decisão considera ” as graves violações às normas legais e regulamentares que disciplinam a atividade da instituição financeira, bem como o comprometimento da situação econômico-financeira”.

De acordo com o Banco Central, entre as irregularidades estão “patrimônio líquido negativo” e “a deficiência de controle e monitoramento para prevenir a lavagem de dinheiro”. Para os clientes do banco, serviços como cartão de crédito, pagamento de boletos, resgate de Certificados de Depósitos Bancário (CDB) e até recargas de celular, estão indisponíveis. O aplicativo do banco também está fora do ar.

A nota do Banco Central diz ainda que a instituição “está adotando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades, em observância às suas competências legais de supervisão do sistema financeiro”, informou o BC em nota. “Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.”

Procurado pelo STARTUPI, o banco enviou uma nota de esclarecimento: “Referente à liquidação extrajudicial do Banco Neon S.A (atual denominação do antigo Banco Pottencial) divulgada hoje pelo Banco Central, a Neon Pagamentos esclarece que é uma pessoa jurídica distinta do Banco Neon, com sócios e administradores independentes. Portanto, o anúncio não interfere na administração da Neon Pagamentos, que inclusive recebeu aporte recente de fundos de venture capital”, afirma.

Ainda em nota, o banco afirma que o dinheiro dos clientes, disponível em conta-corrente, encontra-se disponível para saque e compras por meio de cartão de débito e não serão afetados pela liquidação extrajudicial do Banco Neon. Os clientes podem sacar o dinheiro, com limite de até 2 mil reais por dia, nos caixas eletrônicos 24 horas. Nos próximos dias, espera-se que o Neon entre em contato com os clientes para informar sobre restituição de valores dos clientes que continuarem em conta e sejam levados pelo liquidante, uma instituição indicada pelo Banco Central. O Fundo Garantidor de Crédito, tem como limite a restituição de até R$250 mil por CPF.

“Em 2016, a Neon Pagamentos e o Banco Neon firmaram um acordo operacional com o objetivo de oferecer contas de pagamento e serviços financeiros relacionados ao mercado. A Neon Pagamentos já toma providências para contar com novo banco liquidante para regularizar a prestação de seus serviços e reforça o compromisso de manter clientes e mercado informados”, complementa a nota.

Nem tudo é caos

Na última semana, o Banco Central também trouxe boas notícias para as fintechs brasileiras, aprovando a regulação de fintechs de crédito, que estabelece dois novos tipos de instituições financeiras: Sociedade de Empréstimo entre Pessoas (SEP), correspondente ao modelo Peer to Peer Lending (P2P), ou empréstimo coletivo, no qual sites conectam pessoas (ou empresas) que estão buscando empréstimos a investidores buscando retornos acima da média; e Sociedade de Crédito Direto (SCD), onde empresas emprestam seu próprio capital para pessoas físicas.

Com a regulamentação, as fintechs que trabalham com crédito digital, poderão entrar com pedido de abertura de instituição financeira nas novas modalidades SEP ou SCD, o que as torna independentes e mais competitivas em relação aos bancos tradicionais.

Para as fintechs pertencentes à SEP, houve uma mudança importante no limite máximo de risco que o investidor pode tomar, comparando com o edital de consulta público lançado em Agosto de 2018. No primeiro edital este limite era de R$ 50 mil por investidor, considerando todas as suas operações na nova modalidade. Na nova proposta, o Banco Central regulamentou um limite de R$ 15 mil por operação, mas sem limitar a quantidade de operações. “Esta mudança representa um grande avanço para o setor, pois viabiliza o modelo de negócio e incentiva a diversificação”, afirma Daniel Gomes, CEO da fintech Nexoos.

No mundo, os maiores players do mercado financeiro já perceberam que parte dos lucros estará nas mãos de atores diferentes em um futuro próximo. “O banco norte-americano Goldman Sachs estima que 20% de seu mercado pode ser abocanhado pelas fintechs”, afirma Marcelo Oliveira, CPO da Verity.

Marcelo cita um estudo feito pela PwC, que entrevistou 176 presidentes-executivos de instituições financeiras de todo mundo e mostrou que 81% desses líderes acreditam que a velocidade das mudanças tecnológicas ameaça o crescimento de suas companhias. Segundo último estudo do Radar FintechLab, realizado em novembro do ano passado, o Brasil abrigava 369 fintechs – crescimento de 36% em relação ao levantamento de fevereiro do mesmo ano.

“Esse número, no entanto, não reflete a capacidade máxima desse setor. Há ainda muito espaço para crescimento e surgimento de novos empreendimentos que melhorem a experiência de acesso, informação e uso dos mecanismos financeiros. As oportunidades são muitas, mas mais importante do que enumerá-las, é definir sua essência: ‘massificação’ de oferta e foco absoluto na experiência centrada no cliente. A rentabilidade do negócio, sem dúvida, será uma consequência da gestão benfeita desses dois pilares”, completa o CPO.

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