* Por Vinck de Bragança

Elas vieram pra ficar! As startups estão em todo lugar e não seria diferente no Path, festival que rolou neste sábado e domingo, 19 e 20 de maio de 2018. Para contribuir com o FOMO (Fear Of Missing Out) gerado no evento – sim! eram 300 palestras e 500 horas de conteúdo entre palestras, workshops e oficinas, além de feiras, atividades, shows e ações, tudo isso em 2 dias de evento – as startups estavam presentes de todos os jeitos, como co-curadores, caso da Celebryts, plataforma que conecta marcas com influenciadores digitais, que cuidou de toda a programação da Casa Natura Musical, como patrocinadores, a 99, app para conseguir um táxi ou carro com motorista particular, trouxe uma sala para falar de Caminhos Inteligentes e, principalmente, nos palcos, contando suas trajetórias e ensinando na prática como lidar com os problemas do dia a dia.

Para quem está começando a se aventurar em uma startup, a aceleradora Startup Farm tinha um espaço – com clima de fazenda – todo dedicado a orientar essa galera. O sábado foi recheado de talks que falavam de proposta de valor, mulheres na tecnologia, personal branding e saúde mental na hora de empreender. O espaço era aberto ao público e sempre encerrava a programação com um Pitch Battle, uma batalha de pitchs que, apesar de não ter porradaria, tinha uma startup vencedora ao final da competição.

Para quem já está pensando em escalar sua startup o talk  As dores do crescimento – O que uma startup precisa enfrentar para escalar era essencial. Em um painel formado por 3 empreendedores a discussão sobre as dificuldades de escalar uma empresa foi muito interativa. Juliana Assunção da Rank My App, Marcos Ramos da Easy Crédito e Marcus Roggero da Infoprice, foram guiados por Rafaela Herrera da Startup Farm durante um painel que durou uma hora mas passou voando. Os painelistas falaram muito sobre cultura, propósito, foco e priorização. Marcus Roggero citou o livro The hard things about hard things e as metodologias Double Diamond e Design Thinking que ajudaram ele em sua trajetória.

Ao serem questionados sobre como se organizam para não se perderem em meio a loucura que é crescer uma empresa Juliana Assunção comentou que usa na startup uma métrica chamada North Star Metric e explicou que “A definição de sucesso é diferente para cada um, inclusive para os founders que estão trabalhando no mesmo produto, e é diferente porque cada um tem um perfil diferente. Para alinhar isso, temos uma única métrica que define sucesso para os três perfis e cada um vai chegar até lá de um jeito diferente, mas vamos saber que estamos chegando”. Além dessa dica, Juliana sugeriu o livro Hacking Growth do Shean Ellis, para entender mais sobre métricas e uso de metodologias como o OKR.

O papo encerrou com a provocação: “A startup tem hora para escalar e você precisa entender porque quer escalar. Muitas vezes você tem deveres de casa antes deste momento”.

E para quem já está circulando nesse ecossistema sabe que não dá pra falar de startup sem falar de negócios e inovação. Os destaques de conteúdos são:

Guerra x inovação uma relação de amor, uma palestra daquelas em que você sai impactado. Igor Mascarenhas da startup Pier, uma solução de seguro para celular compartilhado, apresentou o cenário histórico de Israel e contextualizou a razão de o país ser o 3º no mundo em maior número de IPOs.

Com uma cultura muito diferente da brasileira, o israelenses enfrentam guerras desde o início dos tempos, isso gerou uma necessidade de criar os melhores esquadrões do exército e assim, pessoas com alto nível de controle emocional. Além disso, o exército investe em alta tecnologia que, em diversos casos, é levada para solução de problemas da população. Como exemplo foram citadas as startups:

Netafim:

Israel é no deserto, então a startup nasceu da necessidade de produzir alimentos e economizar agua e criaram uma solução simples para crescer e expandir, hoje já estão no Brasil também.

RideOn

Trouxeram uma tecnologia criada para comunicação na força aérea para uma startup que pode ser aplicada em muitos outros cenários como direção de motos, jet ski e outros.

Argus Cyber Security

Segurança para carros autonomos contra ataques cibernéticos, um grupo da cibersegurança da força armada levou a tecnologia para a startup .

SalesPredict

Startup criada pela Kira Radinsky, data scientist do exército para fazer melhor direcionamento de emails para clientes aumentando as vendas. Ela havia criado uma inteligência cruzando o as pesquisas do google com os acontecimento de forma a prever catástrofes como uma crise de ebola na América do Sul.

CyberSpark

Cidade de Cyber Security criada para unir as melhores cabeças para discutirem tendências.

Onde podemos acelerar na corrida da inovação global?, palestra de Daniel Cukier sobre sua tese de doutorado. Ele fez uma avaliação do Brasil no ranking de ecossistemas de inovação e empreendedorismo global, usando como base o Startup Genome 2017, ranking realizado anualmente, que avalia alguns critérios e observa como estão as cidades-ecossistemas de inovação no mundo.

Para ilustrar o desenvolvimento de um ecossistema como forma de aceleraçao na inovação, Daniel utilizou o livro Startup Communities de Brad Feld e comentou os fatores que influenciam na formação de ecossistemas de inovação. São eles: o nível de confiança na liberdade democrática, o individualismo, a corrupção. E apresentou o sistema criado, com 4 estágios de maturidade, para avaliar o ecossistema de inovação:

  • Primeiro estágio (M1): Nascente. Quando o ecossistema se reconhece como um hub de startups, já possui algumas startups operando, tem alguns cases de investimento e, possivelmente, o governo está começando a gerar iniciativas de apoio.
  • Segundo estágio (M2): Envolvimento. Neste  momento que as maiores startups passam a re-investir em outras startups em um ciclo virtuoso.
  • Terceiro estágio (M3): Maturidade.  É o momento em que o ecossistema já apresenta alguns cases de sucesso, há uma boa quantia de investimentos e a primeira geração de empreendedores bem sucedidos começa a surgir.
  • Quarto estágio (M4): Auto sustentável.  Um ecossistema auto sustentável, é aquele com mercado, talentos, investimento em um certo nível que faz com que ele não precise mais de apoio externo.

A mensagem deixada por ele é: “Não precisamos imitar ninguém, nem o vale do silício. Precisamos pegar referências e montar o nosso modelo”.

E para aqueles que queriam descobrir novidades, a feira de startups trazia empresas disruptivas e criativas de diversos mercados. Em seu terceiro ano a feira já está consagrada no evento, em 2018 eram 9 startups expondo seus produtos e serviços para todos que passavam pela cobertura do Centro de Convenções. A maioria dos expositores tinha uma média de 2 anos de operação e optou por seguir o modelo Bootstraping (calçando a bota em tradução literal), termo para quando a startup decide usar a própria receita para custear as despesas ao invés de pedir investimento.

Estavam por lá a 1927, Spin Off (termo em geral usado para falar de uma pequena empresa que surgiu a partir de uma maior, muitas vezes iniciando como um produto) da agência de mesmo nome, é uma plataforma para gestão de mailling e clipping. A ideia surgiu da necessidade de automatizar os processos da assessoria e utiliza o modelo PRAAS (Public Relations As A System). Há menos de um ano no mercado já têm como clientes empresas e startups como EBAC- Escola Britânica de Artes Criativas, TruckPad e Print.

Ainda falando em plataforma, a Cennarium é o “Netflix das produções artísticas”. Apesar de já existirem há 7 anos, a plataforma de streaming de peças de teatro e musicais é um pouco mais recente. Com atuação nacional e internacional, a startup possui no acervo 550 peças, entre elas, 350 são de produção própria. A startup já foi acelerada pela câmara Brasil Alemanha e todo o investimento – estimado em milhões – foi feito pelos fundadores.

A startup Em canto Meu entra na categoria software com serviço. A plataforma de design de interiores ajuda quem busca uma reforma em imóvel próprio ou alugado a ter uma transformação de sonho, com baixo custo e sem preocupação com enrolação na hora da obra. Eles já estão em vários 18 cidades do Brasil e alguns países como Estados Unidos e Portugal. A startup que possui pouco mais de 1 ano de vida ainda não recebeu investimento e não está buscando no momento.

Na mesma categoria,  a Nós 8 é uma plataforma para consulta jurídica. O conjunto de 8 advogados atende a distância os casos mais simples como revisão contratual e dúvidas sobre se portar em determinadas situações, optando por atendimentos presenciais somente quando o cliente solicita. Eles atuam em um modelo que consideram como freemium, realizando uma parceria com as startups em early stage para que possam atender gratuitamente no momento inicial do negócio, desta forma, quando a startup atinge seu breakeven pode começar a remunerá-los.

A última startup que utiliza software com serviço é a Nuper, assistente pessoal de compras de supermercado que apostou em pessoas com mais de 50 anos para realizar as compras dos clientes. A proposta é simples, você cria sua lista de supermercado, eles cotam e com a sua aprovação seu assistente pessoal realizará as compras e entregará. Eles garantem a personalização dos pedidos e resposta da cotação em 15 minutos. Já foram acelerados pela ACE e receberam dois rounds de investimento.

Um pouco diferente, mas não fugindo muito do modelo, a MindMiners é uma startup focada em pesquisa de mercado para testes de campanhas, conceitos, entre outros. A empresa está a 5 anos no mercado mas a plataforma SAAS (Software As A Service) existe há um ano. Eles já atendem grandes marcas como por exemplo a Nestlé, que usou a ferramenta para testar seu novo produto, o Smoovlatte, que inclusive estava sendo distribuído no festival! Eles receberam investimento anjo lá no comecinho do projeto e hoje querem continuar crescendo com a receita dos seus próprios clientes.

Mais um projeto que funciona como SAAS é a Fhink, startup de Inteligência Artificial que automatiza processos e dá aos seus clientes dados sobre o comportamento de seus funcionários, como o tempo em que permaneceram numa mesma atividades, os processos mais repetitivos e outros, oferecendo às empresas informações relevantes para melhoria das atividades operacionais do dia a dia. Os sócios fizeram o primeiro investimento e atuaram como consultores inicialmente mas não pedirem dinheiro de terceiros, hoje, eles começam a pensar em uma estratégia de captação para expansão.

Em outra categoria, a dos marketplaces, a Firgun facilita o microcrédito para empreendedores de baixa renda. Eles funcionam de forma similar a um crowdfunding, mas dependendo do valor do investimento é cobrado juros. Os empreendedores interessados na solução devem ser de baixa renda, tornando a solução de alto impacto social. A plataforma é inspirada na KIVA, ONG americana que atua de forma parecida. Hoje a startup está começando a buscar investimento, e este será o primeiro.

Fugindo dos softwares, a Biosoftness é uma solução disruptiva no mercado da moda sustentável. A ideia de um amaciante que permitia que você utilizasse a mesma roupa 20 vezes seguidas sem que ela ficasse com mal odor e livre de fungos e bactérias parecia que revolucionaria este mercado. Após testes com os clientes os fundadores entenderam que o formato amaciante não funcionava tão bem e recriaram o produto, hoje, a solução vem em um borrifador. Após o uso da roupa é feita a aplicação do produto no tecido de forma leve e ela está pronta para ser usada diversas vezes. Eles foram acelerados pelo Startup Farm e já estão no mercado com essa nova versão.

Outros exemplos legais de startups no evento são a Maturijobs, startup de contratação de pessoas na terceira idade e a Transempregos, plataforma que auxilia a inserção de trans no mercado de trabalho. Elas foram responsáveis pelos monitores do evento, que deram show no atendimento. E falando em contratação, a 99jobs, também startup de contratação com com foco em jovens fazia sessões de pitchs de quem buscava emprego para quem estava contratando, bem ali, no meio do corredor.

* Vinck de Bragança atua com marketing há 8 anos. Após vivenciar 5 anos de experiências com o mercado corporativo, mergulhou no mundo da inovação e se especializou em startups. Hoje atua na Associação Brasileira de Startups e empreende no mercado de cosméticos funcionais