* Por Erik Nybo

No dia 21 de março de 2018 a transformação digital virou política pública por meio do Decreto nº 9319/18. Apesar de muitos falarem sobre isso atualmente, poucos de fato entendem do que se trata.

O que é a transformação digital?

Trata-se de uma fase de transição no mundo dos negócios. Se ocorre a transformação digital é porque ainda existe algo analógico, que foge dessa nova realidade. Por isso, há um processo pelo qual tudo o que não é digital está passando para que possa de fato entrar no mundo virtual.

Há alguns anos, passamos por uma fase de digitalização: o processo pelo qual pegávamos materiais físicos e conseguíamos enviá-los para o espaço virtual (ex. scanner). Em seguida, migramos para a digitização: alguns dos processos empresariais passaram para o mundo virtual (ex. faturamento). Por fim, agora, estamos no processo de transformação digital – isso significa que as empresas inteiras migraram para o mundo virtual. Não se trata mais apenas de um ou outro processo ou outro isolados. A empresa inteira migrou. Isso significa que o produto/serviço é digital, os canais de distribuição, os esforços de marketing, os pontos de venda, dentre outros.

Quais são os efeitos da transformação digital?

Apesar de se tratar de um fenômeno do mundo dos negócios, os impactos ultrapassam essa esfera e geram reflexos nos hábitos sociais e na forma como consumidos produtos e serviços. Como mencionado, já se tornou até política pública como verificado no Decreto mencionado.

Quando de fato a empresa consegue se transformar, passa a assumir determinadas características e, por isso, exige habilidades específicas de seus colaboradores. Tarefas mecânicas e repetitivas passam a ser menos valorizadas nos colaboradores, pois isso pode ser automatizado, principalmente com a inserção dos bots nas empresas. De outro lado, isso gera um desafio para as equipes de Recursos Humanos pois estas precisam encontrar novas formas de avaliar o desempenho dos funcionários, descrever suas funções, definir metas e criar job descriptions.

Ao mesmo tempo, isso gera a necessidade de toda a empresa se atualizar quanto às questões relativas a tecnologia. Conforme mencionado, todas as partes do time devem saber como de fato funcionam os canais digitais para marketing, operações, logística, vendas, jurídico, dentre outros. Portanto, não se trata apenas de algo ligado à equipe de T.I., mas algo que afeta toda a empresa.

O efeito final é o fato de que, uma vez superada a fase de transformação digital e concluída com sucesso, a empresa opera de fato no mundo digital – não existe mais a distinção entre o departamento que de fato usa tecnologia e os demais que ainda operam de maneira analógica. A tecnologia é aplicada em tudo e todos estão cientes de seu uso.

Não se engane

Por conta disso, não adianta que uma empresa contrate um software de gestão de clientes (CRMs – Customer Relationship Management) ou um ERP (Enterprise Resource Planning) para enfrentar essa nova realidade. Não se trata mais de processos isolados ou contratação de serviços de tecnologia. Trata-se de uma nova mentalidade.

Não faz sentido, por exemplo, uma empresa focada em processos internos contratar serviços de tecnologia e acreditar que isso será suficiente. Processos internos são mecanismos criados pelas empresas para diminuir eventuais imprevistos na empresa que possam atrapalhar o funcionário na execução de seu trabalho – algo típico da época em que as empresas estavam focadas em criar produtos físicos, na esteira de produção, uma tecnologia que remonta à 2ª Revolução Industrial. Hoje estamos na 4ª Revolução Industrial e já não existe mais a esteira de produção, trabalhos repetitivos foram automatizados e não é mais necessário que um colaborador seja orientado por processos internos que aumentam burocracia.

O mesmo ocorre com a hierarquia. Numa lógica de produção típica até a década de 90 fazia sentido uma estrutura hierárquica clara, na qual eram colocadas pessoas para fazer a gestão dos times. No entanto, hoje já se fala em Holacracia, metodologias ágeis, dentre outras formas de gestão, organização empresarial e criação de produtos.

Adapte-se

Assim, as pessoas que antes se vangloriavam por não utilizar redes sociais ou tecnologia precisarão se atualizar. Passou a ser uma demanda não apenas empresarial, mas social. As pessoas serão valorizadas conforme sua capacidade de gerar e processar dados, pois a informação passa a ser a nova commodity em uma sociedade digital. Trata-se de um efeito da transformação digital, o período em que vivemos atualmente.

Dentro dessa perspectiva, as pessoas serão forçadas a lidar com tecnologia para se atualizar. No entanto, para lidar com tecnologia e inovação as pessoas deverão ter habilidades de gestão e outras técnicas necessárias para de fato aproveitar o conhecimento nessas áreas.


 Erik Fontenele Nybo, cofundador da EDEVO e head de inovação no Molina Advogados. Foi gerente jurídico global da Easy Taxi, tendo criado o departamento jurídico e foi responsável pelas questões legais em todos os países de atuação da empresa. Autor e coordenador do livro “Direito das Startups” (Juruá), autor no livro “Regulação e Novas Tecnologias” (Forum) e coordenador do curso “Direito em Startups” no INSPER. Pesquisador do GVCEPE – Fundação Getúlio Vargas. Advogado formado pela Fundação Getúlio. Email: erikfnybo@gmail.com