Todos os tipos de arte tem a ver com empreendedorismo. Música, dança, pintura, poesia, atuação e outras, muitas vezes têm a ver com quebra de paradigmas e, quando o artista é bem sucedido no que faz, as chances de mudar a vida de seus seguidores com sua arte são gigantes. O mesmo acontece com uma startup inovadora.

Além de uma das indústrias mais lucrativas, nem sempre é necessário empreender no entretenimento para aprender com este mercado sobre execução, público-alvo, engajamento e inovação. Quais as maiores lições que o empreendedor pode tirar dos maiores artistas do mundo?

Empreendedorismo e a Música

“Eu sou de uma época em que, se nenhuma banda cantasse o que você queria ouvir, você criava o seu próprio som. Se não tinham revistas que mostrassem o que você queria ler, você criava o seu próprio fanzine. De um deles, inclusive, saiu o nome que batizou o movimento punk”, explica Clemente, músico, produtor e um dos pioneiros do Punk Rock no Brasil.

O punk, nascido na década de 70 que abordava em suas letras ideias anarquistas e revolucionárias, mudou o cenário da música ao se rebelar contra a forma de música que faziam as bandas de rock progressivo e hard rock, principalmente. Bandas como The Clash, Ramones e Sex Pistols incentivaram milhões de jovens ao redor do mundo a produzirem seu próprio som. No Brasil, Ratos de Porão, Garotos Podres e Plebe Rude, esta última, da qual Clemente faz parte, foram sucesso e marcaram o rock brasileiro mostrando que sim, é preciso ter muito de sangue empreendedor para ser punk.

“Quando eu comecei na música, a gente trabalhava com os recursos que a gente tinha, a gente se virava com pouco, assim como os empreendedores que estão no início. E você trabalhar com menos não significa que você tem que ser tosco; ser punk é você dar o seu melhor com os recursos que tem. O punk tem a ver com tecnologia porque ele quebrou a mesmice que era a música nos anos 70. Os empreendedores são exatamente assim: quebram os paradigmas da indústria tradicional”, diz Clemente.

Músico e Empreendedor

Também é possível encontrar a necessidade de empreender a partir da música. Um exemplo disso é o músico, designer e empresário Neilton Carvalho, guitarrista da banda Devotos, uma das mais influentes do cenário punk de Pernambuco.

O guitarrista entrou para a banda Devotos em 1989. Ele diz que nessa época os equipamentos bons para músicos eram escassos e muito caros, mesmo os fabricados no Brasil. “Na década de 90 eu comecei a desconstruir esse conceito que o que estava nas lojas é o que era de fato bom, e pensei em tentar aprender a construir meus próprios instumentos, pois quando eu comprei a minha primeira guitarra, em 1988, uma Sonic da Giannini, vi que era muito simples o funcionamento e tentei “tunar”, trocando peças e também tentando construir acessórios utilizando sucata”, explica.

Nesse exercício, Neilton aprendeu muitas coisas, entre elas o funcionamento do instrumento. Ele diz que não encontrava literatura sobre o assunto nas livrarias, bibliotecas, nem nos sebos em Recife, por isso teve que aprender à força, desmontando e “destruindo” para tentar entender como se constrói, como se desmonta e monta uma guitarra. “E em 1991 eu construí/montei a minha primeira guitarra utilizando peças (parafusos, chapas, potenciômetros, chaves e etc) de uma sucata de uma eletrônica em que eu trabalhava como vendedor e foi lindo ver aquele instrumento tocar e impressionar alguns amigos músicos, pois ela não tinha um aspecto bizarro, nem eu queria que tivesse, pois meu sonho era ter um bom instrumento. Depois dessa experiência com a  construção da guitarra eu me senti seguro para experimentar outras empreitadas, e comecei a construir e desconstruir alguns pedais de efeitos e amplificadores.”

O multiartista Neilton e sua obra. Foto: Eric Gomes/Divulgação

Em 2006, o músico formalizou esta empreitada com amplificadores em um negócio, junto com três amigos. No começo era como um grupo de pesquisa, cujo nome era Altovolts (Grupo de Pesquisa de Tecnologias Mortas), que era para desenvolvimento de amplificadores e pedais de efeitos que atendessem as demandas pessoais do grupo como músicos, pois os do mercado ou não atendiam ou eram muito caros. “Depois as pessoas foram vendo esses equipamentos em estúdios e em palcos e foram querendo comprar. Hoje temos 5 modelos de amplificadores e 4 modelos de pedais para guitarra e contrabaixo. Tudo feito literalmente a  mão. E tudo começou pelo fato de não ter dinheiro para comprar os equipamentos que vendiam nas lojas”, conta.

Nesta trajetória, Neilton encontrou diversas similaridades entre a vida de empreendedor e a de músico. “Eu nado contra a maré, contrariando toda a lógica do mercado atual. Minha produção é pequena e quero que continue assim,  pois eu quero atender o músico ou artista que me procure pessoalmente, projetar ou afinar meu equipamento para aquela pessoa. Todo ser humano é diferente em sua estrutura, por mais que sejamos “iguais” como espécie. Eu tento levar meus trabalhos para o limite dessa percepção individual. O mercado moderno diz que você tem que usar aquilo que é padronizado e produzido em massa, te forçando a andar, escutar e ver sempre as mesmas coisas. Esse tipo de raciocínio não é o que eu sigo. Esse é o elo entre a arte e a empresa que tento seguir.”

O artista apresentará, entre os meses de maio e julho, a exposição “A arte é um manifesto – 30 anos de Devotos”, terceira de sua cerreira, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), na capital pernambucana, um dos mais importantes do estado. De acordo com Neilton, os conhecimentos e talentos de uma área são essenciais para o desenvolvimento de outra.”Minhas habilidades para desenho e pintura, e minha formação de designer são usadas a 30 anos para conceber e ilustrar as capas dos discos, os backdrops, os logos, as camisetas e etc da banda Devotos. E são as músicas e letras da banda que me inspiram a compor as ilustrações. Sem uma coisa eu não teria a outra”, diz.

Música e Startups

A indústria musical no Brasil está cada vez mais aquecida e é um importante mercado na economia do País. Uma pesquisa do Sebrae aponta que são mais de 90 mil pequenos negócios brasileiros atuando neste segmento. E as startups não estão de fora dessa.

A startup Carreira de Sucesso é uma escola online de musicbusiness cujo objetivo é ensinar músicos independentes de todo o Brasil a construir uma carreira artística escalável. A plataforma da startup de treinamento e qualificação dos artistas envolve interação, videoaulas e capacitações online ao vivo para que os músicos se tornem seus próprios empresários.

Gabriel Camargo, fundador da empresa, diz que sua relação com a música começou aos 5 anos de idade. “Meu pai, apesar de não ser músico, fez uma barganha e chegou em casa com um teclado. Cresci brincando de tirar músicas de ouvido. Foi ali que, sem saber, comecei a construção do meu futuro.”

Em 2013, assim que se formou em Música, convidou sua irmã Maria Augusta para ser sócia e abrir um estúdio de produção musical. Após anos atendendo inúmeros músicos, Gabriel começou a notar um fenômeno estranho: por falta de conhecimento, os artistas/músicos entravam em estúdio, gravavam e depois não sabiam o que fazer com aquele trabalho. “Passei, então, a fazer um bate-papo com eles antes de passar o orçamento de produção. Nesse bate-papo eu falava um pouquinho de Marketing Artístico, Planejamento de Carreira e Music Business de forma geral. Eles entravam nesse bate papo pensando que bastava ter talento e um CD gravado e saíam pensando em ROI, Público alvo, Conceito Artístico etc. E assim causei nossa própria disrupção”, explica o empreendedor.

Músico e empreendedor Gabriel Camargo, fundador da Carreira de Sucesso

Para ele, o maior desafio dos músicos hoje é vencer o mito social de que sucesso depende de sorte “e entender que ter uma carreira na música é ter um empreendimento, um negócio próprio. A única diferença é que o rótulo do produto é um rosto, uma pessoa”, diz. Durante doze meses, os artistas da Carreira de Sucesso participam de oficinas online sobre Mindset Empreendedor, Conceito Artístico, Planejamento de Carreira, Modelo de Negócios, Público Alvo, Venda de Shows, Mídias Sociais, entre tantos outros temas essenciais para quem quer ter uma carreira sólida. Além disso, eles passam por rodadas de mentoria com profissionais do ramo, e também contam com uma rede de parceiros como estúdios, lojas de instrumentos musicais e editoras.

Sobre as mudanças que aconteceram no mercado da música nos últimos anos, ele diz que hoje a fórmula para o sucesso é completamente diferente. “Se fizermos uma lista dos músicos que faziam sucesso no Brasil em 1960 teremos por volta de 100 nomes. Se fizermos uma lista hoje, teremos milhares de artistas. A cauda longa está cada vez mais evidente inclusive no mercado musical. Hoje temos artistas de vários patamares vivendo de música. A carreira musical não é mais sobre ter uma gravadora por trás fazendo acontecer; é sobre empreender e ir escalando.”

Como a empresa imagina o futuro desta indústria? Para Gabriel, o mercado musical sofre o fenômeno da disrupção tardia. Ou seja, ele replica de forma atrasada as transformações que outras áreas já sofreram. “Quem imaginava o modelo de publicidade massiva diferente do da Rede Globo? A Google imaginava. O Mercado Musical, por muito tempo, foi controlado por poucas organizações como gravadoras, emissoras de rádio e TV. Agora, cada vez mais, os artistas deixarão de ser contratados para ser autônomos. O futuro musical será dos artistas que aprenderem a gerir a própria carreira e empreender na música”, finaliza. Empreender é, realmente, rock ‘n’ roll!