Muitos empreendedores sabem e com certeza já ouviram sobre a importância de pensar global desde o início, mas ainda são poucos aqueles que realmente colocam em prática e conseguem efetivamente se internacionalizar. Segundo reportagem do jornal O Globo, apenas 210 companhias nacionais têm operações no exterior. Apesar disso, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) “Gestão Internacional e Empresas Brasileiras”, mostra um crescimento na internacionalização das multinacionais brasileiras de mais 50% de 2010 para 2015.

Internacionalização é o processo que leva uma empresa a estabelecer relações de negócios além das fronteiras do país em que atua e essas relações podem acontecer tanto por meio de exportações de produtos ou serviços quanto de importações de matérias-primas, tecnologias e outros insumos.

Essa semana, o Startupi, em parceria com a Softex, Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, seguindo sua missão de internacionalizar tecnologias brasileiras, principalmente aquelas desenvolvidas por startups e empresas de tecnologia, promoveram o evento “Internacionalização: Como preparar sua empresa para ser global?”, que contou com a participação do especialista do Vale do Silício, Apurva Chandra, empreendedores, empresários e interessados em entender mais sobre o mercado internacional.

Apurva sempre morou no coração do Vale do Silício, com fácil acesso a diversas empresas de tecnologia como Oracle, Google, Facebook, Salesforce e trabalha há anos com dezenas de empresas de tecnologia, promovendo coaching estratégico para as empresas interessadas em internacionalizar sua operação nos EUA e compreender o ambiente de inovação e funding do Vale do Silício.

Apurva destaca que vender para os EUA é uma das melhores saídas, pois temos uma cultura semelhante e grande aceitação com o idioma inglês. Segundo ele, os EUA também possuem o maior e mais aberto mercado do mundo, além de ser o maior comprador de produtos e serviços de tecnologia. Segundo a Softex, o Brasil é o 9º maior mercado de TIC no mundo – com mais de 1,5 milhão de profissionais, existem 40 polos tecnológicos espalhados por todo o país. Além disso, o setor deve crescer dois dígitos novamente em 2018.

“Acredito que já tenha trabalhado com mais de duzentas startups de diversos lugares do Brasil, como Recife, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Campinas e Porto Alegre, existem muitos bons negócios no país”, destaca Apurva.

Apurva enxerga o ecossistema de startups do Brasil com um incrível potencial, temos mão de obra, iniciativas privadas, incubadoras, aceleradoras e fundos de investimento, para ele, o que falta é a mentoria, treinamento e bons exemplos de empresas que obtiveram sucesso. Ele comenta isso citando o exemplo da partida entre Brasil e Alemanha na Copa de 2014 onde tivemos o resultado de 7X1. “Nós perdemos aquela partida por falta de treinamento, o time alemão foi treinado com disciplina, o que garantiu o resultado do jogo”.

Para ele, as startups precisam fazer algo que seja único, que se diferencie dos outros negócios e que realmente resolva o problema de um número significativo de pessoas. “Se eu desse hoje US$10 milhões para uma pessoa aqui, o que ela faria? Que companhia ela criaria? Que tipo de solução ela iria desenvolver?”.

Ele também destaca que em uma conversa de 15 minutos com uma startup ele é capaz de identificar se o negócio tem um futuro promissor ou se está fadado a morrer. “O grande ponto é que ninguém diz isso para elas, as startups continuam suas operações e não aguentam, acabam sumindo, por isso o papel do mentor é fundamental”.

No Vale do Silício, Apurva conta que 97% das empresas que receberam investimento de um fundo de venture capital não estarão vivas nos próximos três anos. E isso faz com que elas façam um bom trabalho e assumam riscos.

Apurva também falou sobre a importância do empreendedor pensar em se internacionalizar desde o início. “Você precisa pensar global, mas agir localmente”. É necessário ter um produto que venda em qualquer lugar do mundo, a não ser que você esteja desenvolvendo uma tecnologia como Inteligência Artificial, Big Data ou Blockchain para solucionar um problema específico. “Internacionalizar é difícil, demanda tempo, dinheiro e paciência”.

Antes de tudo é preciso montar um plano de negócio para o mercado no qual você deseja entrar. Para isso é necessário identificar o seu produto/serviço que deseja comercializar e depois encontrar uma boa pessoa de vendas que precisa falar inglês fluentemente, que já tenha trabalhado nos EUA ou com empresas dos EUA no Brasil, tenha disponibilidade de gastar grande parte do seu tempo no exterior, que tenha capacidade de tomar decisões e que tenha vontade e sinergia para trabalhar com paciência, pois provavelmente os primeiros resultados virão apenas 18 meses depois do início.

Se capacitar também é parte fundamental desse processo, entender o tamanho do mercado, clientes-alvo, selecionar feiras e eventos que façam sentido para o seu negócio e, claro, preparar um bom pitch de vendas, onde você consiga passar as principais ideias do seu negócio em, por exemplo, 30 segundos.

Fernando Godoy, Empreendedor com 20 anos de experiência na área de tecnologia, também marcou presença no evento para contar sua experiência na internacionalização da Zênega Tecnologia, líder em telecom e projetos de tecnologia, o principal fornecedor da Nokia.

Ele trabalhou durante 4 anos nos EUA em agências de internet como BoxTop e iXL e ainda nos EUA fundou a sua primeira empresa, a i4 Technologies e posteriormente trouxe a softwarehouse para o Brasil.

Fernando destacou a importância de entender as questões legais do País. Quando você quiser realizar negócios em outro País, você tem que estar familiarizado com as leis desse País. Você também pode ter que pagar impostos adicionais e taxas de importação, se você está importando produtos de outros países. As complexidades jurídicas de negócios internacionais pode ser um desafio e sem aconselhamento jurídico adequado você pode estar sujeito a multas e penalidades. Fernando, por exemplo, encontrou um advogado no país que está exportando e o chamou para ser seu sócio.

As barreiras linguísticas também são uma desvantagem óbvia para fazer negócios internacionalmente. Você pode precisar contar com tradutores quando se fala de contatos de negócios e os meandros do que dizem seus contatos podem ser perdidos na tradução. Se você está terceirizando o serviço ao cliente para outro país, seus clientes podem ter dificuldades para entender as pessoas cuja língua materna é diferente do seu.

Uma boa maneira de conhecer esse novo mercado é através de uma Missão Comercial guiada, o que reduzirá muito seu tempo em agendar reuniões, participar de eventos e visitas específicas, falar com as pessoas certas, nos lugares certos e de acordo com seu interesse. Viajar sozinho em busca de negócios internacionais sem nenhum contato ou indicação, achando que vai conseguir ser recebido por empresas ou pessoas é um grande erro e vai gerar frustração, além de perder tempo e dinheiro investido em passagens e estadias, normalmente caras por serem em dólar ou em outras moedas.

Um outro erro frequente é achar também que em uma semana você irá conseguir tudo: prospectar, fazer reuniões e fechar vendas. Pergunte-se para você mesmo: qual meu ciclo de vendas no Brasil? Se a resposta for três, seis, nove meses, por que acha que vai ser diferente em um País onde ninguém te conhece ou ao seu produto/serviço? Por isso, tenha em mente que um bom planejamento ANTES e APÓS a Missão é fundamental para se obter resultados futuros.

Durante o evento, André Bianchi, Diretor da IIN Imersão Internacional de Negócios, compartilhou sua experiência, ele já está na 13ª turma de missões em que leva grupos para uma semana de imersão no Vale do Silício.

Ele conta que é uma grande oportunidade de conhecer o ambiente de trabalho, ter palestras com empreendedores que respiram o ar da inovação todos os dias, fazer network com essas pessoas e voltar com um mindset para novos modelos de negócios que podem elevar o nível de seu negócio. O próprio André, que hoje está à frente dos grupos, adquiriu muitos de seus conhecimentos nessas viagens, que já somam mais de 30 idas aos Estados Unidos.

“É muito interessante observar a transformação do grupo no decorrer das atividades. A cada experiência e no contato próximo com os empreendedores de lá, os participantes vão adquirindo um novo mindset para seus negócios e isso acaba impactando de forma positiva não só sua empresa mas todo o ecossistema com que se relacionam”, destaca.

O Brasil está trabalhado cada vez mais para ajudar as empresas a entrar em outros mercados, prova disso são diversas iniciativas que foram lançadas com esse propósito.Em Novembro de 2017, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), o Ministério das Relações Exteriores (MRE), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), o Sebrae e a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) lançaram o StartOut Brasil, que tem como objetivo proporcionar aos empreendedores capacitação e mentoria personalizada de acordo com a oportunidade e interesse da empresa com o mercado alvo; participação em missão com agenda voltada à prospecção de clientes e investidores e ainda um apoio pós-missão para definição de estratégia de internacionalização e/ou softlanding no mercado-alvo.

No começo deste ano, a Anjos do Brasil, organização sem fins lucrativos com a missão de fomentar o investimento anjo para apoiar o empreendedorismo de inovação brasileiro, também assinou um acordo com o WBAF, fórum mundial de investimento-anjo, que tem como objetivo colaborar mundialmente com o empoderamento de economias em desenvolvimento.

O acordo assinado no congresso anual em Istambul, visa à cooperação para troca de oportunidades de investimento Cross-border (entre fronteiras). Assim, startups brasileiras terão a oportunidade de ter apoio para internacionalização através de investidores conectados pelo WBAF, bem como os investidores-anjo brasileiros terão acesso a startups internacionais que possam trazer inovações para o Brasil com o apoio da Anjos.

Fique ligado no Startupi e fique por dentro de mais novidades sobre o ecossistema de startups brasileiro.