No Brasil observamos recentemente um movimento crescente em que grandes companhias estão cada vez mais trabalhando com startups. Esta conexão tem benefícios tanto para as companhias, que levam agilidade e inovação para dentro, quanto para as startups, que têm acesso a uma rede de clientes robusta e a expertise das companhias, levando disrupção a diversas indústrias.

Com a necessidade de caminhar a passos largos e acompanhar a chamada 4º Revolução Industrial, o que algumas das maiores empresas no País têm feito para contribuir com o ecossistema de inovação?

Renata Grande, coordenadora de mobilidade da Ford, diz que a companhia tem trabalhado desde o princípio com inovação. “Isso é um dos pilares dos seus processos e dos seus produtos, seja em novas features ou na criação de seus carros”. Para inovar, a montadora tem duas maneiras: uma delas é a inovação dentro da empresa, “então a gente promove, com todos os nossos colaboradores, de qualquer área, para que eles tragam novas ideias de como a gente pode entender melhor o nosso consumidor, e que tipo de demanda eles estão buscando. A outra forma é buscar parceiros para que a gente possa atender às novas demandas de mercado”, explica.

De acordo com ela, a relação que existe hoje dos clientes com um produto como o carro mudou. “Isso devido às novas tecnologias de comunicação, que fazem com que as pessoas busquem outros tipos de atributos e soluções que o carro traga para as suas vidas. Com isso, precisamos enxergar como podemos responder a esse consumidor, porque o ciclo de produção de um carro hoje é diferente da demanda desse consumidor”, diz. Pra que a montadora possa atender esta demanda, nessa velocidade que o consumidor espera, é necessário buscar parcerias com universidades e startups. Não é apenas um movimento da Ford, mas de todas as montadoras e indústrias ao redor do mundo.

Um dos focos atuais da Ford no Brasil é o programa de aceleração de curto prazo, chamado Ford Fund Lab: Inovação e Mobilidade, voltado para startups de impacto social com foco em mobilidade. Durante a 11ª edição da Campus Party Brasil, a montadora anunciou as três startups de destaque do programa. Ao todo, 150 empresas se inscreveram e 20 foram selecionadas para o processo. As vencedoras receberam US$6.600 em investimento-semente para desenvolverem seus projetos.

Fora do Brasil,os projetos de inovação não param. No início deste mês, a companhia anunciou que criou um grupo de pesquisa para desenvolver a integração entre os carros e os drones, explorando o potencial dessa tecnologia que vem crescendo rapidamente. O time, sediado no laboratório de inovação de Palo Alto, no Vale do Silício, EUA, criou uma plataforma de desenvolvimento customizável que permite testar diferentes configurações do equipamento, seja para uso como hobby ou ferramenta de trabalho. Também começou, em fevereiro, uma parceria com a administração pública de Miami, também nos EUA, para implantar um serviço completo de veículos autônomos na cidade. A iniciativa, composta de várias ações, é considerada um passo importante para pôr em prática o novo modelo de negócio da empresa focado em veículos autônomos

Para Renata, a relação entre a indústria e as startups é uma troca. “Procuramos parceiros que tragam visão e conhecimento atual e constante, que ele tem devido ao seu tamanho pequeno e a rapidez que ele consegue ter. Oferecemos todo o conhecimento e desenvolvimento de negócios que a gente pode para ajudar a alavancar a solução técnica que a startup oferece. Quando essa empresa vem falar com a Ford, é preciso de um pouco de preparo: não adianta vir apenas um sonho ou uma ideia. Já esperamos que a startup já tenha como poder executar o mínimo da sua solução, com maturidade suficiente para que se fale de termos práticos”, explica.

Em entrevista ao Startupi, Renata Decourt, da 3M, fala sobre os processos de inovação da companhia e o que a empresa aprendeu durante esta jornada. Confira:

Para a indústria da construção, a realidade não é diferente. Para Vinicius Scaramel, gerente de inovação da InterCement, o setor da construção é o que menos inova. “É um dos únicos setores da economia que, em vez de aumentar a produtividade, diminuiu, não só no Brasil, mas no mundo. Estamos investindo em startups e digitalização porque este é o melhor cenário para receber disrupção. A melhor maneira de quebrar com o nosso negócio é ‘disruptá-lo’, e é melhor a gente tentar fazer isso do que deixar alguém fazer, o que nos tornaria obsoletos.”

Ele acredita que a urgência do contato da indústria da construção civil com as startups vem do fato e que desde a forma que a forma como moramos, até como vivemos e nos transportamos, para mudar, precisará de construções. As cidades vão precisar ser mais inteligentes e mais produtivas, e a forma como a indústria fará estas coisas acontecerem vai mudar muito e radicalmente. “A gente precisa se apropriar de tecnologia para ser mais competitivo. E sozinho a gente não consegue fazer isso, a gente precisa olhar pra fora. A gente precisa se aliar às startups. Na InterCement, monitoramos aquelas que podem acabar com a forma como fazemos nosso mercado hoje.”

A companhia atua com startups de três formas: tornando-as fornecedoras, onde há um parceria com o Sebrae para realizar matchmaking entre a empresa e as startups, para a criação de projetos pilotos. “A gente tenta fazer um fast track para tirar as barreiras do local, de contrato, jurídico, compliance.” Outra forma é trabalhar com as startups, em esquema de parcerias. “A gente tem um ativo muito importante para as startups, que é o acesso a mercado, e elas têm velocidade. A gente não entende de tecnologia, por isso é ganho mútuo.” E, por último, o investimento em empresas, por meio do braço de Corporate da companhia. “Estamos dispostos a olhar e investir em coisas que podem acabar com o nosso negócio, seja um modelo de negócio, um canal ou forma de distribuição”, explica Vinicius.

A InterCement está atualmente com inscrições abertas para o Startup Challenge, programa de fomento da companhia. O programa é baseado em dois desafios: fidelização de clientes (inteligência sobre quem são os clientes e variações de consumo; melhorar relacionamento com os clientes para gerar fidelização e como selecionar brindes e descontos para os clientes, quando aplicável) e auxiliar no processo de compras de material (conhecimento sobre produtos versus necessidades; qual a melhor forma de calcular a relação quantidade x tipo de material necessário; como evitar desperdício de materiais e educação sobre os novos produtos e técnicas de escolha do produto mais adequado à necessidade do cliente). Não é necessário ter uma startup para participar do processo. Ao todo, cerca de 30 empreendedores serão selecionados para participar.

Alexandre Mosquim, consultor de arquitetura e soluções globais da Votorantim Cimentos, também falou sobre as ações da companhia para inovação interna. De acordo com ele, a companhia internalizou recentemente o produto de uma startup como parte dos processos da empresa. “É isso que a gente quer com todas as startups. O mais importante é que a propriedade intelectual do produto é 100% da startup desde o começo”, explica. “Este caso específico é de uma startup chamada GeoInova, que trabalha com inteligência visual e análise de imagens de satélite.”

No fim de 2017, a companhia anunciou uma parceria com a Empreendi na Rede para o programa The Digital Cement Open Innovation. Desenvolvido pela empresa, com o apoio da 100 Open Startups, o foco do programa eram projetos na área da construção com foco na indústria 4.0 e tem importante papel no desenvolvimento e prototipagem de soluções que contribuirão para inovação do processo produtivo da Votorantim Cimentos. Ao todo, foram escolhidas sete startups para participar do desafio, que durou até dezembro.

Alguns dos focos da Votorantim Cimentos, na parceria com startups, são: Eficiência energética – sistemas de gestão de energia elétrica; Realidade virtual + realidade aumentada para treinamentos de segurança, operação e manutenção; Automatização da mão de obra para aumentar a produtividade das unidades industriais; Visibilidade da entrega para o cliente; Gestão de almoxarifado centralizado / inventário digital; Gestão digital de territórios no desenvolvimento mineral e ambiental e Gestão de palete – alternativa de paletização.

Em parceria com a ABDI e a 100 Open Startups, a Votorantim Cimentos tem aberto programas de inovação com o intuito de aprimorar seus 85 anos de história na construção, trabalhando na digitalização de toda a cadeia de produção de seu material.

Ações

Uma das ações que mais ajuda neste elo, no Brasil, é a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. Rodrigo Rodrigues, coordenador de inovação da ABDI, órgão ligado ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, explica que a Associação tem a missão de ter ações que aumentem a competitividade da indústria nacional. “O nosso carro chefe no momento é o programa Conexão Startup Indústria, uma iniciativa que a agência trouxe em 2016, com um levantamento em cima da visão de que startups trabalhando com indústrias no país alavancavam a inovação das empresas. Não sabíamos se ia dar certo, então fomos a campo conversar com a indústria e as startups para saber como elas poderiam gerar cases de inovação para indústria”, diz.

Após validarem a ideia, era hora de começar a trabalhar com a arquitetura do programa. “Como, trabalhando com dinheiro público, poderíamos gerar competitividade e emprego na indústria? Definimos um edital que está rodando desde março de 2016 que seleciona indústria, startups e instituições de apoio (aceleradoras, fundos de investimento)” No primeiro edital, foram 49 indústrias, 20 instituições de apoio e as mais de 300 startups cadastradas.

Para o início, foram selecionadas 10 empresas early adopters para esse programa: 3M, BRF, Caterpillar, Dow, Embraco, Embraer, Ericsson, Libbs, Natura e Votorantim Cimentos. “Elas abriram suas demandas tecnológicas em um programa de caráter sigiloso para o que a gente chama de codesenvolvimento com startups. Exstem várias maneiras de se relacionar com startups, mas aquela que a gente trabalhava na visão é aquela que geralmente gere nota fiscal no final”, explica Rodrigo.

Kelly Galesi, da BRF, fala, em entrevista ao Startupi sobre como funcionam os processos de inovação dentro da companhia. Assista:

Um dos resultados obtidos pelo programa para a Ericsson foi a geração de valor. “Não vamos nos conectar com mais de uma startup por vez, por entender que estávamos pisando em um solo que não conhecíamos”, explica Henrique Leandro, supply manager da empresa. NearBe.

O programa gerou uma prova de conceito de uma startup com a Ericsson. “A Prova de conceito com a startup gerou um grande valor dentro da companhia em função de eles terem um conhecimento muito nobre em relação a como lidar com uma grande massa de dados e a maneira no qual a Ericsson executa os projetos. Com eles, aprendemos a fazer design thinking. Eles entenderam que o timing da Ericsson era outro, a ansiedade da companhia em executar a solução era maior”, explica.

“Estamos desenvolvendo, com a startup, um gerenciador de transporte para poder entender desde o primeiro momento onde tem o produto acabado até entregar ao cliente final. É impressionante a maturidade da startup para controlar o timing e ansiedade da Ericsson. Respeitar o tempo e a forma da startup também é importante, porque a solução tem a assinatura deles”, diz. A Ericsson está prestes a realizar a primeira prova real para testar todo o processo com a startup.

“A parte mais importe nisso tudo é podermos pegar pessoas de absolutamente todas as áreas da empresa e falar para eles ‘vem ver o que está acontecendo aqui, vem conversar com estas startups!’. Estas barreiras vão se quebrando e, em algum ponto, esta postura de buscar inovação realmente disruptiva começa a surgir de dentro para fora da indústria. Isso só é possível quando a equipe interna da empresa enxerga valor no que está sendo trabalhado”, finaliza Alexandre, da Votorantim Cimentos.