Na última segunda-feira, aconteceu o primeiro acidente fatal envolvendo um carro autônomo nos Estados Unidos. O carro autônomo da Uber, da montadora Volvo, atropelou e matou uma mulher de 49 anos , identificada como Elaine Herzberg, em Tempe, no estado do Arizona, de acordo com a polícia local. Dentro do carro estava ainda um operador, que precisa ficar no interior do carro durante os testes, conforme exigência da lei, para assumir o controle do veículo em casos de emergência.

Após o acidente, a companhia anunciou, ainda na segunda-feira, a suspensão temporária do uso de veículos autônomos que estavam em teste em Tempe, Pittsburgh, Toronto e São Francisco. De acordo com a polícia, o carro estava na velocidade permitida, a 64 km/h, em uma via de 56 km/h. Nesta quarta-feira, a polícia de Tempe divulgou no Twitter o vídeo que mostra o momento da colisão, anunciando que continuará as investigações do caso. Assista abaixo:

O trágico acidente levantou algumas questões quanto à segurança dos carros autônomos. Afinal, o que deu errado neste caso? De acordo com Pablo Moreira, professor de Automação de Processos, do Ibmec/BH, os detalhes, somente o Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Uber, em Pittsburg, saberá. “Entretanto podemos fazer algumas suposições com alta probabilidade de acerto. O sistema empregado nesse veículo autônomo consiste em várias câmeras e um sensor conhecido como LIDAR (Light Detection And Ranging). Este sensor é o principal responsável pela detecção de obstáculos e quaisquer corpos que se movimentem ou estejam parados. Trata-se de um sensor que usa Laser para fazer uma nuvem de pontos espaciais e assim mapear tudo com seus respectivos tamanhos e velocidades. Podemos compará-lo a uma radas ou ultrasom, porém mais confiável e mais preciso”, explica.

Conforme o vídeo gravado pelo próprio carro da Uber, a vítima apareceu em frente ao carro de forma muito rápida, e em uma via com pouca luminosidade. “Posso supor que havia algum obstáculo que não permitiu a detecção dela pelo sensor e isso foi agravado pela velocidade da mulher ao entrar na frente do carro”, diz o professor. “Esse sistema é considerado mais seguro que o da Tesla, pois não é susceptível a interferência de luz.”

A chefe de polícia de Tempe, Sylvia Moir, declarou ao jornal “San Francisco Chronicle” que o acidente seria dificilmente evitado, até mesmo por um motorista. “Parece que a Uber provavelmente não cometeu um erro”, disse, explicando que a vítima estava atravessando fora da faixa de pedestres.

Em nota, a Uber do Brasil se posicionou: “nossa solidariedade e nossos sentimentos continuam voltados aos familiares e entes queridos da Elaine. Nossos carros permanecem parados e estamos cooperando ativamente com as autoridades locais de todas as maneiras que podemos.”

Em um caso como este, quem será responsabilizado pelo caso dependerá muito da legislação estadual. “Trata-se de algo tão novo que possivelmente não está previsto em lei. Mesmo assim, se provarem que houve algum nível de mal funcionamento ou recurso técnico não empregado, a justiça dos Estados Unidos pode tomar alguma decisão imprevisível”, diz Pablo.

Para o especialista, as probabilidades de um caso como este voltar a acontecer são poucas. “Essa foi uma situação peculiar, mas que com as informações disponíveis para os desenvolvedores, será possível projetar uma estratégia para evitá-la. Particularmente acredito que uma possível solução está no aumento na frequência de operação do LIDAR. Se usado pela Uber na frequência máxima (15Hz), o sensor cria 15 imagens da região em volta em 1 segundo. Parece muito, mas nem tanto, uma pessoa correndo a 20km/h, consegue andar cerca de 40 centímetros no intervalo de tempo entre uma imagem do sensor e outra.”

Carro da Uber envolvido no acidente fatal. Foto: National Transportation Safety Board/Reuters

Em setembro de 2017, um carro da Tesla, utilizado em sistema de piloto automático, também causou um acidente fatal. O Tesla Model S, com tecnologia semiautônoma, bateu em uma carreta que vinha no sentido contrário e tentava fazer uma conversão, nos Estados Unidos. O motorista do veículo morreu na hora.

Entretanto, neste caso, foi comprovada imprudência do motorista, Joshua Brown, de 40 anos, que dirigia o veículo. Um relatório do Conselho Nacional de Segurança do Transporte dos Estados Unidos (NTSB), contatou que Joshua não respondeu a sete avisos do sistema da Tesla para voltar ao modo ativo de direção.

Para Pablo, este tipo de acidente não reduzirá a confiança das pessoas nesta tecnologia. “Não tenho dúvida de que reduziremos a níveis baixíssimos os índices de acidentes quando tal tecnologia estiver madura”, explica. No mundo, morrem 1,25 milhão de pessoas por ano em acidentes com veículos. Só nos Estados Unidos são cerca de 32 mil. 94% destes acidentes são causados por falha humana. “Além disso, o tempo de reação de uma máquina sempre será menor que a do ser humano. Além de não se distrair no celular, não ter sono etc. Do ponto de vista do desenvolvimento de um projeto dessa magnitude, tal acidente é normal, mas obviamente choca.”

Acidente fatal da Tesla. Foto: Divulgação/NTSB

Na cidade de São Paulo, só em 2017, foram registrados 883 casos de atropelamento, sendo 400 deles fatais. Em 2016,  950 casos foram registrados na cidade, com 393 mortos. As mortes em acidentes envolvendo bicicletas subiram 48% entre 2016 e 2017. Fecharam o ano passado em 37 casos, e 25 em 2016. Em 2015, morreram 27 ciclistas por atropelamento.

E agora, como prevenir estes casos? “Além das correções que serão implementadas após a análise completa do acidente, podemos reduzir provisoriamente a velocidade dos carros e aumentar a frequência na qual os sensores (LIDAR) mapeiam o ambiente. Isso pode levar a um ganho muito expressivo no tempo para frenagem”, completa Pablo.