* Por Camila Florentino

1 – Hackear a vida sem cometer crimes

vamos começar com verdades: A sua ideia mirabolante não vai dar dinheiro no primeiro mês, nem no primeiro ano. E – se você demorar tanto entre validar um problema e começar a vender, assim como eu demorei – pode ser que somente depois de cinco anos após a ideia você receba seu primeiro salário. E mais: pode ser também que você escreva um livro, plante uma árvore e demore exatos dois anos e oito meses desde a abertura do CNPJ até o primeiro mês fechado no positivo. Por isso, meus amigos, é necessário hackear a vida.

Existem muitos jeitos para hackear o sistema sem se tornar um fora da lei, os meus três preferidos são: dividir (a casa, a carona, a marmita e até os streamings de vídeo e música), escambar (trocar o que você tem por coisas que precisa) e fazer aquelas pesquisas de cliente oculto online (para comer na faixa naqueles restaurantes bonitos ou pagar a gasolina para ir ver o mar).

Viu só? Dá para viver cinco anos sem assinar a sua carteira de trabalho, sem poupança, sem investidor, sem salário, sem estabilidade, sem ajudas. O que você mais precisa é de propósito. Propósito é o que nos leva ao meu segundo aprendizado.

2 – Coragem significa agir com o coração

Foi em 2005, aos 15 anos, quando fiz o primeiro “freela” em um evento na minha vida. Eu não imaginava que um dia eu iria perder a conta deles. O encanto com possibilidade de transformação, o brilho nos olhos dos envolvidos e a adrenalina de ser responsável por eternizar poucas horas na memória das pessoas presentes fizeram com que eu me apaixonasse completamente pelo mercado de eventos.

Fui recreadora, bartender, aprendi a cuspir fogo e jogar garrafas para o alto, fiz animação de pista, brinquei de ser DJ com um mixer e CDJ, montei box truss, coloquei muito balcão, som e iluminação em pé. Depois de tantas aventuras, fui desbravar a produção. Produzi casamentos, aniversários, corporativos, formaturas, grandes festivais e todo tipo de evento que você possa imaginar. Daí, percebi que havia muitos problemas no mercado que eu amava. Os problemas me incomodavam, confundia tantos sintomas com as causas raízes, mas tinha a certeza de que poderia resolvê-los com um pouco de criatividade.

Você não precisa ser nenhum gênio para agir com o coração. Agir com o coração naquilo que você faz (ou se propõe a fazer) é o segredo para viver essa montanha russa de incertezas com um sorriso de quem tem muita certeza de onde está indo – sabendo que pode ser que seja para lugar nenhum. É por isso que eu levanto cedo todos os dias com o coração batendo a mil. Nunca foi pelo salário.

3 – A vida escolar foi uma grande piada

Estudei em ótimas escolas e fui bastante privilegiada durante meu desenvolvimento escolar. Apesar de ser uma criança terrorista, levava a sério o conteúdo e sempre tirava notas incríveis. Sabia os anos das revoluções coloniais do Brasil, a tabela periódica de ponta cabeça, era a rainha de Bhaskara e explicava ligações de Carbono como ninguém. Recebi bolsas de estudo integrais e medalhas de honra ao mérito por ser a melhor aluna do ensino fundamental. Na escola nos diziam que precisávamos saber sobre tudo. Eu acreditei.

Entre os estímulos para seguirmos as profissões mais tradicionais, também nos ensinavam a operar como máquinas. Sintonias de repetição e memorização colocando em jogo a nossa criatividade. Ninguém nos disse que poderíamos empreender. Ninguém nos contou que seria preciso construir um mundo novo pois o mundo que nossos avós construíram, um dia, entraria em crise. Ninguém nos ensinou a gerir um negócio, liderar um time, pensar fora da caixa.

Quando você empreende, você percebe que todas as suas notas máximas e aulas longas na escola foram, na verdade, uma grande piada. Empreender é muito mais difícil do que passar na Fuvest ou zerar a prova do Enem. Porque ninguém nos ensinou isso.

Todo dia será preciso fazer algo queo se faz a menor ideia de como fazer.

4 – O potencial do coletivo é o nosso próprio potencial

Se você realmente quiser mudar o mundo, faça parte de um time incrível. Sem time, sem chances. Ninguém muda o mundo sozinho e ninguém consegue saber tudo.

A evolução só vem com a diversidade e densidade, quanto mais você se doar, mais oportunidade terá de crescer e se tornar alguém melhor. Quanto maior as diferenças que você se obrigar a lidar, maior a chance de entender as necessidades e desejos do mundo. Quanto mais você se importar em ouvir os problemas das pessoas, mais fácil encontrará respostas para os problemas do mundo. O segredo são as pessoas.

Aqui em São Paulo, existe a Comunidade Zero Onze Startups, que hoje possui esse nome mas existe a tempos como um grupo de malucos tentando mudar as coisas erradas do mundo e sabem que só é possível mudar o mundo se estivermos juntos. A gente se abraça, se ajuda, brindamos conquistas e erros, colaboramos com tudo o que sabemos, pedimos ajuda, aceitamos ajuda e oferecemos ajuda.

É como na mágica do encontro: cada um leva um pouco e deixa um pouco. Provando que a vida só existe através das nossas relações.


 Camila Florentino é formada em Lazer e Turismo na USP (Universidade de São Paulo), CEO e cofundadora da startup de eventos Celebrar.