Certamente muitos homens e provavelmente muitas mulheres, há 100 anos, jamais poderiam imaginar que mulheres assumiriam cargos de liderança em grandes empresas, que mães abririam mão de uma carreira estável para abrir o seu próprio negócio e que diversas mulheres se jogariam de cabeça no mercado de investimentos apostando em um negócio chamado de startups.

Então, bem-vindo a 2018! Embora ainda falte muito a conquistar, essa já é uma realidade no nosso dia a dia, as mulheres estão cada vez mais ganhando espaço pela sua competência e mostrando seu potencial em diversas áreas. Conheça abaixo alguns exemplos.

Mulheres na liderança sim!

Monica Herrero é CEO da Stefanini no Brasil. A companhia, nascida há 30 anos, é uma das maiores empresas de prestação de serviços de TI e possui mais de 24 mil colaboradores ao redor do mundo.

Formada em Matemática e com especialização em Administração de Empresas, ela começou a atuar na área de tecnologia da informação ainda jovem, quando iniciou sua carreira no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Monica também trabalhou em pequenos bancos de investimentos até migrar de vez para o setor de TI ao ingressar na Stefanini há 20. “Assumir a presidência da Stefanini certamente foi um dos maiores desafios e um dos mais prazerosos”, destaca.

Atualmente Monica está focada no processo de transformação digital da companhia e na busca pela inovação que possa auxiliar seus clientes. A Stefanini surgiu de uma consultoria na casa do fundador e CEO global, Marco Stefanini, e se transformou num negócio gigantesco. O que chama a atenção dentro da companhia é que em alguns países como a Romênia, por exemplo, a quantidade de mulheres e homens é meio a meio, porém 60% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. No Brasil, quase metade dos diretores e VPs são mulheres. Nos Estados Unidos, elas estão em 2/3 das posições de liderança.

“O Brasil convive com um problema estrutural na área de Educação, em que as mulheres se formam menos em Exatas. O desafio é estimular que elas invistam em profissões dessa área para contribuir, cada vez mais, em empresas de tecnologia como a nossa. Algo que defendo e que estimulamos na Stefanini é o empoderamento feminino. Queremos que as mulheres se valorizem, se sintam representadas e que corram atrás de oportunidades para que possam disputar, em condições de igualdade com os homens, os processos seletivos para cargos de liderança”.

A Ernst & Young (EY) divulgou um estudo que traz um panorama da liderança global em vários aspectos (diversidade, transformação digital, propósito, cultura, entre outros). Após analisar dados de 2,4 mil empresas de 54 países, a EY constatou que as corporações que tiveram 30% de diversidade de gênero – e mais de 20% no nível sênior – apresentaram melhores resultados financeiros em comparação às demais. Onde há diversidade significativa, a chance de crescimento sustentado e lucrativo é 1,4 maior.

Mulheres em TI

Trata-se de um setor que ainda é ocupado majoritariamente pela presença masculina, mas vale ressaltar que uma das personagens mais importantes da história da tecnologia era do sexo feminino, Ada Lovelace ficou reconhecida internacionalmente como a primeira programadora da história e ainda hoje serve como inspiração para algumas mulheres.

Emanuela Ramos, Diretora Executiva de Negócios para o setor de Financial Services da Resource, é a única mulher à frente de um cargo de liderança na área de TI. A companhia é uma das principais e mais bem-sucedidas multinacionais brasileiras de serviços de TI e Integração Digital.

Aos 12 anos ela já trabalhava em um negócio da família e no ensino médio optou por cursar Processamento de Dados. Aos 15 anos iniciou no grupo B2W como estagiária de processamento de dados, passando pelas áreas de atendimento, backoffice e aos 18 foi promovida à Supervisora, responsável por uma das principais equipes de ativo e chat/e-mail de uma das empresas do grupo.

Emanuela está há oito anos na Resource IT, e hoje está focada na geração de novos negócios e em projetos de Transformação Digital com foco no negócio, com participação ativa das iniciativas de Digital na empresa. “É gratificante e maravilhoso estar à frente da liderança e acho que as mulheres têm que ocupar mais cargos assim. Sempre ajudo quando posso. São inúmeros os desafios, mas eles estão em si mesmo, fazer diferente e fazer as coisas acontecerem é o meu lema”, comenta.

Barreiras

O tema machismo está em alta, temos visto diversas iniciativas e movimento de mulheres contra tais atos tomando proporções gigantescas nas redes sociais e até nas mídias convencionais. Infelizmente o mundo da tecnologia não está imune a isso. Segundo Emanuela, “muitos ainda creem que a presença da mulher seja apenas mais um rosto bonito na reunião ou projeto; existem aqueles que interrompem facilmente uma mulher quando ela ainda não finalizou seu posicionamento  e também os que pensam que mulheres que ocupam altos cargos só chegaram lá porque foram “indicadas” ou “peixinhos de alguém”’.

Para driblar tudo isso Emanuela precisou se superar ainda mais, conhecer mais e mais dos temas, se aprofundar e assim, conseguir uma posição em que se destacasse pelo que realmente deveria ser: sua competência e experiência profissional.

“Acredito que o maior desafio da mulher, seja em qualquer área de atuação, é ela mesma. É não dar atenção aos machismos ainda presentes em pleno século 21. É não abrir mão de seus valores em troca de nada, é se igualar de igual para igual com o outro gênero. Acredito que muitas vezes somos nós os responsáveis por também colocar nossas próprias barreiras. Tudo bem, teremos o desafio, ele existe e é uma verdade em nosso meio, mas se concentrarmos nossos esforços em nossos trabalhos, se focarmos nas entregas, na qualidade, nos prazos e pensarmos de forma estratégica e colaborativa, tenho certeza que o sucesso será inevitável. No mundo machista e de sabe tudo, vive melhor quem se adapta e faz do desafio uma escada para seu sucesso. É importante concentrar seus esforços no que realmente faça sentido para a empresa que você trabalha, para seus clientes e para você mesma”.

Outro desafio que pode ser levado em consideração é conciliar a vida pessoal com o trabalho, ainda mais quando envolve um filho. De acordo com pesquisa da Robert Half, feita com 1.775 companhias de 13 países, inclusive o Brasil, em 85% das empresas brasileiras metade das mulheres deixam o emprego após o nascimento do filho. Essa taxa é bem mais alta que a média global – 52% das companhias ouvidas em todo o mundo relataram o mesmo problema.

Mães empreendedoras no ecossistema de inovação

Formada em Farmácia, mas sempre trabalhando com Marketing, a Empreendedora Dani Junco, fazia parte do programa global promovido pela Fundação Getúlio Vargas, o 10000 Mulheres, onde conheceu de perto as dificuldades que as mulheres enfrentavam para ter e manter seus próprios negócios. Nesse programa, além da proximidade com outras mulheres empreendedoras, ela começou a sentir na pele as delícias e desafios da maternidade quando descobriu que estava grávida de seu filho Lucas, hoje com 3 anos.

“Enquanto ele se desenvolvia em minha barriga, aumentava também a necessidade de um propósito maior na vida, a vontade de deixar um legado. Em um determinado momento eu percebi que só estava trabalhando e ganhando dinheiro. Eu precisava devolver algo para o mundo.  Eu precisava de propósito, de algo que fosse maior do que eu mesma”.

Dani resolveu compartilhar a angústia de equilibrar sua vida profissional e a maternidade no Facebook e pediu para conversar com algumas mulheres. Para sua surpresa, apareceram 80 mães com a mesma dor. Em busca desse propósito, nasceu a B2Mamy, aceleradora que conecta mães empreendedoras ao ecossistema de inovação.

O programa dura 12 meses desde a apresentação de uma ideia, aceleração e incubação em um espaço localizado na Vila Mariana e utiliza a metodologia híbrida, com técnicas usadas no mundo tradicional junto das metodologias ágeis de lançamento e gerenciamento das startups. A Goplan, fundada por Tatiana Flores e Izabela Corrêa é um case da B2Mamy. A startup ajuda o cliente a resolver seus problemas com um serviço de assistência pessoal remota. Eles entraram para o programa apenas com uma ideia e hoje já atenderam 5 mil solicitações.

Case de sucesso

Recém passada pela maternidade e que pode ser citada como um grande case de empreendedorismo feminino do Brasil é Luciana Caletti, cofundadora da startup LoveMondays, a maior comunidade de carreiras onde você descobre vagas de emprego, salários e satisfação de funcionários em diversas empresas.

Luciana conseguiu levantar investimento da Kaszek ventures, participou do programa Google LauchPad Accelerator e alcançou o exit ao vender sua startup para a americana Glassdoor.

Formada em Direito, Luciana conta que sempre teve o sonho de empreender e ter o seu próprio negócio, mas hoje ela destaca que não é algo fácil e nem para qualquer um, pois existem desafios diários. Quando questiona sobre o que mudou na sua rotina empreendedora depois do nascimento do seu filho, ela brinca que é mais fácil falar o que não mudou. “Ter um filho te ‘força’ a ter mais qualidade de vida, você tem uma pessoa que depende de você; você quer passar mais tempo com essa pessoa; o número de horas que eu trabalho hoje depois de ser mãe diminuiu em comparação ao que trabalhava antes”. Ela ressalta a importância de priorizar e delegar cada vez mais certas tarefas, o que pode parecer uma coisa normal para o empreendedor, mas segundo ela, depois de ser mãe você precisa escolher realmente o que você quer fazer, pois é uma experiência intensa e que demanda muito tanto da mulher quanto do marido, mas na maioria dos casos, da mulher.

Segundo estudo recente da Rede Mulher Empreendedora (RME), entidade de apoio ao empreendedorismo feminino, a cada 100 empresas abertas no Brasil, 52 são lideradas por mulheres. A pesquisa, realizada em agosto e setembro de 2017, indica que 79% delas possuem nível superior ou mais, 55% têm filhos, 44% são chefes de família, 61% são casadas e a idade média ao empreender era 38,7 anos. A ABStartups – Associação Brasileira de Startups – possui 715 startups associadas e dessas, cerca de 13% das startups são comandadas por mulheres (aproximadamente 91).

Bons exemplos servem de inspiração e motivam outras mulheres a irem em busca dos seus sonhos, desenvolverem seus negócios e encontrarem o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

A Agrosmart, por exemplo, startup focada em agricultura digital no campo, fundada por Mariana Vasconcelos em 2014, quando tinha apenas 23 anos, também é outro exemplo. Hoje ela já coleciona diversos prêmios e homenagens, incluindo uma bolsa em universidade da Nasa. “Todos esses reconhecimentos são consequência de um trabalho árduo feito com muito amor e dedicação, o nosso propósito de revolucionar um setor deu muito certo e os prêmios que recebemos até hoje nos mostraram isso. Estamos em uma área que apresenta desafios relevantes, com temas como a crise hídrica, mudanças climáticas, necessidades de aumento de produção por conta do crescimento populacional. O mundo inteiro está olhando para essas questões e trouxemos uma solução viável para esses problemas. Isso atraiu a atenção e hoje somos considerados expert em agricultura digital”.

Mas para chegar até aí, a filha de produtor rural e que sempre acompanhou de perto a dificuldade de tomada de decisão no campo, uma área que demanda tecnologia, conta que precisou comprovar  que realmente valia o investimento na solução. “Por sermos jovens e trazermos algo novo para o mercado, enfrentamos resistência e tivemos que lidar com o “ver para crer”. Nossa estratégia foi entrar na plantação, fazer um piloto e demonstrar a eficiência. Mas isso retarda a implantação final da tecnologia. Encontrei também uma certa resistência por ser mulher, mas percebo que esse cenário está mudando, hoje já podemos ver muitas mulheres empreendendo e liderando várias corporações. Temos que ser persistentes e mostrar na prática que fazemos as coisas acontecerem. Dessa forma conseguiremos conquistar nosso setor e atrair pessoas que acreditam no nosso propósito”.

Mariana acredita que o aumento da presença feminina no ecossistema é resultado das mulheres que entraram no ecossistema de startups no passado, persistiram e se tornaram líderes e exemplos para as outras mulheres seguiram. “Bons exemplos de mulheres que entraram no passado são Tatiana Pezoa da Trustvox; Camila Achutti; Roberta Vasconcellos do BeerorCoffee e a Fabiany Lima, da Timokids. Acho que teve vários casos de mulheres que sofreram bastante no começo desse ecossistema, mas que persistiram e agora vemos um engajamento muito maior de mulheres começando suas próprias empresas e participando do ecossistema”.

Roberta Vasconcellos, Cofundadora e CEO do BeerOrCoffe, está acompanhando o ecossistema desde 2013. Ela já pivotou sua startup que hoje é a maior plataforma de espaços de coworking do Brasil, com mais de 400 espaços em de 94 cidades. Eles atuam ajudando desde profissionais até grandes empresas a encontrarem melhores soluções de espaço de trabalho para viver essa nova forma de trabalho que é mais colaborativa. Roberta também já foi escolhida para representar o Brasil no #GoogleDemoDay Womens Edition no Vale do Silício, que tem como objetivo apresentar startups em fase de crescimento para investidores dos EUA em 2016. Durante esses anos, Roberta afirma que seus maiores aprendizados foram “se rodear de boas pessoas, engajadas e que acreditam no mesmo propósito que você; ser resiliente, não desistir fácil; olhar mais suas métricas e saber ouvir”.

Mulheres investidoras

E se a presença das mulheres empreendedoras tem crescido, no mercado de investimentos em startups não é diferente. Estudos, como o do setor de Wealth Management do banco britânico Barclays, revelam que elas possuem mais cautela para analisar e decidir e definem estratégias financeiras de longo prazo para investir, na comparação com os homens e, portanto, correm menos riscos.

Para falar sobre o assunto, conversamos com Claudia Rosa, influenciadora da Rede Mulher, curadora da Arena Melhores Mentores e que participa como jurada em bancas de avaliação de programas de aceleradoras e empresas corporativas. No início de 2016, ela se tornou membro da Anjos do Brasil, para conhecer os modelos de investimentos e orientar melhor as Startups durante a mentoria ou avaliação. Hoje, além de investir em Startups, ela contribui com orientações mais assertivas para os empreendedores.

“O mercado de investimento em startups claramente vem crescendo nos últimos anos. Há mais facilidades para captação de recursos por parte dos empreendedores e também mais investidores nas redes devido ao amadurecimento do ecossistema. O interesse de redes de investidores internacionais também vem ampliando as oportunidades de internacionalizações de Startups brasileiras”, comenta.

Claudia conta que os maiores desafios como mulher investidora é conhecer a fundo o perfil e modelos de investimentos no Brasil e no mundo e entender os diversos estágios de investimentos (Anjo, Seed, VC, Private Equity) e também se atualizar da transformação no ecossistema empreendedor, seja no mercado ou questões legais.Para pular essas barreiras ela participa de reuniões de trabalho, encontros com investidores e eventos voltados ao mercado investidor.

Este ano Claudia também será conselheira do S.Match, para ajudar na inclusão das mulheres investidoras e executivas no ecossistema de startups. “Estou muito feliz, é uma ação bem desafiadora. O S.Match tem um foco especial em conectar as empresas corporativas no ecossistema empreendedor, seja para identificar novos produtos ou serviços para a empresa, seja para apoiar o empreendedor com oportunidades de go to market. Minha expectativa é conectar cada vez mais estes dois mundos e contribuir com ações e projetos específicos para atrair mais mulheres para o ecossistema”.

Para aquelas mulheres que desejam entrar para o universo do investimento em startups, Claudia deixa algumas dicas: participe de alguma rede de investimento; Estude business model e cases de Startups de sucesso; Seja mentor de empreendedores, pode ser no segmento que tem mais conhecimento ou domínio de alguma área específica; Faça coinvestimento com outros investidores. A dinâmica de troca de experiência e dividir riscos, ajuda muito.

Essa é uma prática bastante utilizada no mundo e que consiste em criar um grupo de investidores para realizar um aporte em conjunto. A operação costuma ter um investidor líder, que fica responsável em fazer a maioria dos contatos com o empreendedor e a análise inicial. Ele também é responsável por acompanhar a evolução da startup para compartilhar com os demais investidores.

E sabe o que todas essas mulheres citadas nessa matéria tem em comum? Elas têm uma rotina frenética de reuniões, trabalho e tentam conciliar com a vida pessoal, família, amigos e ainda praticam esportes. Além disso, nenhuma delas se intimidou com alguma atitude machista ou com os “nãos” que elas receberam. Luciana comenta que “muitas vezes nós mulheres, e até mesmo os homens, ficamos esperando pela situação ideal para fazer alguma coisa, mas basicamente, as condições ideias nunca vão aparecer, sempre terá algo para te impedir, por isso é preciso se planejar e meio que fazer do jeito que dá”.

É importante que as mulheres saibam que elas não estão sozinha, elas podem e devem buscar outras pessoas que possam acompanhá-las nessa jornada até ter certa segurança. Mariana gosta muito de uma frase que diz “Se tá com medo, vai com medo mesmo”, segundo a empreendedora “nunca vai ter um cenário em que a gente vai ter segurança e 100% certeza daquilo que a gente faz. A vida é um risco por si só e tudo pode acontecer”.