Uma startup que começou há quatro anos como um hobby em Campinas, interior de São Paulo, acaba de receber aporte de um fundo de capital de risco para ingressar no mercado mundial de simuladores de voo. Este setor de alta tecnologia, no mundo, movimenta anualmente mais de R$24 bilhões e atualmente é dominado por companhias de países desenvolvidos.

A Virtual Avionics (VA) recebeu um investimento do Fundo Aeroespacial para fabricar e comercializar cockpits para treinamento de pilotos. Conhecidos como FTDs (Flight Training Devices, ou dispositivos de treinamento de voo), esses equipamentos são muito mais baratos de construir e operar do que os chamados simuladores completos com movimento (FFS), todos feitos hoje por empresas estrangeiras. Os FTDs vêm sendo cada vez mais utilizados por empresas aéreas para a formação inicial dos pilotos.

A startup foi acelerada pelo Startup Brasil, o que fez com que os sócios começassem a se dedicar em tempo integral na empresa. Eles receberam aporte semente em 2014, de R$1,2 milhão. O investimento do Fundo não teve o valor divulgado, mas Amauri Sousa, fundador e CEO da VA, garante que foi superior a R$3 milhões.

A empresa de Campinas foi uma das duas únicas startups selecionadas pela Embraer em 2017 para receber aporte do fundo,  que tem capital de R$ 131 milhões e participação ativa da fabricante brasileira de aeronaves. A Embraer está de olho em simuladores para seus jatos E-195, usados no Brasil sobretudo pela Azul Linhas Aéreas e por empresas do mundo inteiro em voos regionais.

Com os FTDs, a Virtual Avionics espera ganhar clientes atuando inicialmente num nicho que as grandes empresas, como a canadense CAE – que detém mais de 50% do mercado global de simuladores – vêm deixando desocupado: o de equipamentos que proporcionam experiência de voo com realismo e confiabilidade, mas sem a necessidade de movimento como o das cabines de FFS.

Segundo Amauri, dispositivos desse tipo serão cada vez mais necessários, num momento em que as empresas aéreas se esforçam para reduzir custos ao mesmo tempo em que a aviação se expande de forma acelerada, em especial nos países emergentes. “O principal diferencial da VA é o custo reduzido com alta qualidade. Isto é possível graças a abordagem vertical de desenvolvimento com práticas modernas em engenharia”, diz Amauri.

“A previsão é de que 500 mil pilotos profissionais precisem entrar no mercado nos próximos 20 anos no mundo todo para atender à demanda por transporte aéreo. Uma hora de treinamento num FFS custa US$500, estima-se que no mínimo são US$ 35 mil gastos com simulador na formação de um piloto”, afirma Sousa. “Como parte desse treinamento dispensa a complexidade do FFS, faz sentido para as empresas, especialmente em expansão, incorporar FTDs”, prossegue. O preço de venda de um FTD varia de U$500 mil até U$1,5 milhões, contra US$15 milhões de um FFS.

A startup espera apresentar o produto ao mercado a partir de 2018, atendendo primeiro a companhias aéreas nacionais e depois a empresas americanas que usam os aviões da série E1, da Embraer, como o E175 e o E195.

“Fizemos uma análise de todas as empresas brasileiras do setor de simuladores e escolhemos a VA porque é a melhor”, afirma João Lopes Filho, diretor da Portcapital, gestora do Fundo Aeroespacial. “O produto tem um grande potencial de exportação.”