“No Brasil falta incentivo do Governo, investimentos, startups que pensam global e unicórnios”. “Ah, empreender não é fácil, muito menos no Brasil”. Com certeza você já ouviu alguma dessas frases sobre o nosso país, não é mesmo? É que certas pessoas insistem em viver e disseminar o “complexo de vira-lata”, a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

Apesar disso, existem muitas pessoas que estão lutando para tornar o país um ambiente propício para novos negócios e investimentos. Nima Kazerooni é um deles, que apesar de ter nascido no Irã, criado no Canadá, ele está há cinco anos ajudando a construir o nosso ecossistema de startups.

Trajetória

Se mudar do Irã para o Canadá provocou um impacto muito grande tanto pessoal quanto profissional na vida de Nima e sua família. Sua mãe, por exemplo, nunca pode fazer faculdade por ser da religião Baha’i, mas ao chegar no Canadá, sem nem saber falar inglês, ela se matriculou na faculdade e conseguiu 2 diplomas: business e computação. Ela ainda ganhou o prêmio de “honra do primeiro ministro do Canadá” poucos anos depois.

“Ela virou empreendedora, o que deixou eu e meus irmãos sem desculpas para alcançar cada vez mais o crescimento. Ela faleceu em 2005, depois de três anos de batalha contra o câncer, e foi neste momento que decidi seguir o que estava no meu DNA, o empreendedorismo”, diz.

Nima cursou ciências da computação, economia e – acredite se quiser! – medicina, mas acabou não concluindo nenhum dos cursos, apesar de ter o número de créditos e as notas altas suficientes. Em entrevista ao Startupi, ele conta que não lida muito bem com burocracias e descobriu que o aprendizado acontece para  quem é preparado para aprender, não importa se for dentro ou fora da faculdade. Nima já foi artista (pintor), matemático, programador/hacker, gamer, vendedor (energia, roupas, carros, serviços), consultor de gestão (energia, M&A, serviços imobiliários e financeiros), lutador de artes marciais (Systema de Spetsnaz – Russian Martial Art), ativista ambientalista/social, servindo no board de duas ONGs (cooperativa de inventores & org de energia limpa e comunitária), no Canadá, EUA e outros países.


“Desde muito pequeno eu já empreendia até nas situações mais simples, por isso acredito que nasci empreendedor e isso se reflete na minha atitude de sempre tentar evitar as hierarquias, autoridades e zonas de conforto. É importante esclarecer que, enquanto algumas pessoas acreditam que ser empreendedor é se arriscar, eu acredito que estou evitando riscos através do empreendedorismo e existem sim formas de controlar esses riscos. Estou aprendendo como fazer isso melhor cada vez que inicio uma startup ou novo projeto.”

E foi em 2010/11 que Nima encerrou sua participação social na ultima empresa que estava montando no Canadá e decidiu se internacionalizar, deixando de lado toda estabilidade, apoio, e redes de contato que tinha para alavancar novos negócios em outros lugares do mundo. Esse era mais um passo rumo ao crescimento exponencial como o que seus pais tiveram no passado.

Ele foi chamado de crazy

Há alguns anos Nima estava de olho no Brasil e em outros países do BRICS, pois haviam surgido diversas oportunidades nessas regiões. Ele também acabou conhecendo muitos brasileiros no Canadá e logo percebeu que, como ele mesmo diz, “esse povo era diferenciado, muito empreendedor mesmo”. Mas como tudo tem dois lados, Nima também descobriu que o Brasil não aproveitava todo seu potencial, o que fazia com que muitas pessoas deixassem o país.

“Decidido a provar o contrário desse ‘brain drain’ que eu estava vendo, resolvi me mudar para o Brasil e tentar montar o maior empreendimento da minha carreira. Pedi demissão do meu emprego e nunca mais voltei. Mesmo com tantos desafios que o empreendedorismo continua apresentando na minha vida, serei sempre um empreendedor”, explica.

Sem conhecer o idioma e a cultura do Brasil, Nima passou um bom tempo tentando se “formalizar” como residente permanente, o que envolveu uma burocracia absurda e demorou alguns anos. Com tudo resolvido, Nima escolheu morar em Curitiba pois lhe pareceu um lugar mais gerenciável para iniciar sua jornada de testes no país.

Trabalhos desenvolvidos

Uma das suas primeiras ações no país foi desembarcar uma filial do CodeForAmerica e CodeForAll, organização “grass roots” de tecnologia cívica, open data e governo aberto, feito pelos cidadãos para melhoria da sociedade. OpenBrazil e seu capítulo curitibano, CodeForCuritiba nasceu em 2014 e desde então, existem grupos preocupados, dedicados e talentosos que organizam hacknights e hackdays semanais para levantar e discutir os problemas da cidade e sociedade. Muitas vezes ainda são desenvolvidas soluções para resolver esses problemas da forma ágil e com baixo custo. A organização também promove, organiza e participa de uma série de hackathons focados no tema.

Desde 2014 Nima também faz parte do Founder Institute, programa que ajuda empreendedores a criarem negócios, com o apoio de quem já passou por situações parecidas.

“Sou Diretor executivo do Instituto no Brasil, e tenho o prazer de trabalhar com algumas das mentes mais brilhantes do país, incluindo codiretores, associados, gestores, voluntários, mentores, parceiros e empreendedores que fazem parte da nossa rede presente em mais de oito cidades brasileiras. Nossa missão é ajudar na criação de 100 mil empregos de alto nível por meio das startups lançadas através do nosso programa”, comenta.

Nima também é cofundador da JUPTER, onde junto de um time de peso, investidores e parceiros visionários, eles oferecem soluções para alguns dos problemas dos players do ecossistema do “SDLC” – Startup Development Life Cycle. “Desenvolvemos produtos e serviços para melhorar o processo de descoberta, “Find”, aporte, “Fund” e lançamento, “Launch”, das tecnologias do futuro, que serão feitos aqui no Brasil para o mundo. Estamos bem no início do desenvolvimento de um “multi-accelerator cluster” que envolve diferentes unidades gerando o empoderamento do ecossistema”.

Além disso, Nima faz parte do Instituto Seasteading Institute desde 2008 onde atua como embaixador líder desde 2013 para desenvolver tecnologias para cidades e estados autônomos com maioria sendo plataformas flutuantes no mar internacional.

Brasil X Canadá

Nima conta que até alguns anos atrás não existia no Canadá um lugar onde você pudesse ir para conhecer pessoas e entidades que pudessem te ajudar no desenvolvimento da sua startup e hoje o cenário é completamente diferente, existem muitas iniciativas em Ottawa, Toronto e Waterloo. Ele conta que hoje o país é considerado um dos maiores polos de tecnologia no mundo, mas demorou décadas para o ecossistema do Canadá sair do “buraco negro” que já foi. Ele também acredita que o Brasil pode levar menos tempo para conseguir alcançar esse nível e pode chegar até a ultrapassá-lo, pois o mundo hoje está mais conectado e tudo está avançando em um ritmo acelerado.

“O ecossistema do Brasil e seus empreendedores são os verdadeiros “reis e rainhas”, construtores do ecossistema de startups e os players de apoio como investidores, fundos, aceleradoras e incubadoras, ainda darão um salto quântico em termos de execução de sucesso nas próximas duas décadas. Isso na verdade já esta começando pela criação de uma bola de neve, quando empreendedores de ontem estão realizando bons exits, eventos de liquidez e até vendas de startups que geram riqueza e novos investimentos por meio do “give back” nas startups que criarão o futuro que fazem parte de um ciclo virtuoso de crescimento de todo ecossistema”.

Nima também destaca que os empreendedores brasileiros possuem um nível de criatividade bem mais alto do que encontrou em outros lugares do mundo, porém, infelizmente, raramente essa criatividade é vista efetivamente na prática, provavelmente porque os empreendedores enfrentam tantas “normas sociais” e julgamentos enquanto estão tentando lançar suas startups que acabam optando para ideias e estratégias que agradam todos ao seu redor.

“É preciso um certo nível de coragem para ousar e lançar ideias que são boas mas que parecem ser péssimas, elas chegam até a ser ridicularizadas por alguns especialmente no início, mas como o Peter Thiel, um dos maiores empreendedores “contrarian” fala: todas as empresas boas são baseadas em secretos – as verdades que pouca gente concorda ou entende”.

E o Brasil?

Para Nima, a burocracia precisa ser drasticamente reduzida no Brasil e na sua opinião, o que poderia ajudar na aceleração do desenvolvimento das startups no país seria a participação efetiva do setor público no ecossistema de startups. Não criando programas de aceleração ou espaços de empreendedorismo, pois isso o setor privado sempre fará melhor, mas sim por meio da introdução de legislação e regimes tributários que favoreçam as startups:

  • Menos ou zero burocracia – ajudando também empreendedores estrangeiros a criarem valor pelas startups no país
  • Enquadramento especial para modalidade “startup” no sistema tributário (diferente das outras PMEs)
  • Legislação que incentiva e apoia investimento-anjo nas startups selecionadas pelos players no setor privado

Para ele, o investidor brasileiro em geral está cada vez mais evoluindo e aprimorando sua atuação no ecossistema, mas ainda faltam mais ciclos de “give back loop”, onde empreendedores e colaboradores de startups com sucesso e exits financeiros se tornam investidores-anjo das próximas startups do país.

“Eu acho que nem a vontade, nem o capital ou a quantidade de investidores anjos e LPs em VCs está em falta no Brasil. Ao contrário, o que está acontecendo (e isso será ainda maior no futuro breve) é a falta de oportunidade, chamado de “deal flow” para alocação desse capital pelos investidores”. Nima também destaca que está lançando um fundo de coinvestimento anjo para investir em até 80 startups do mercado desde fase de originação.”

Nima pretende continuar fazendo a sua parte para desenvolver e ajudar no crescimento do ecossistema de startups no Brasil trabalhando na expansão do Founder Institute para que suas startups de várias cidades brasileiras criem 100 mil empregos de alto nível e geram negócios significativos e duradouras para o benefício do país e sua população e continuar trabalhando na sua startup para empoderar muitas startups.

Quando questionado sobre o que espera do ecossistema de startups do Brasil nos próximos três anos, Nima responde:

  • Support will be plenty: Muitas iniciativas, algumas melhores e com mais valor que outras, nascerão em apoio ao ecossistemas de empreendedorismo do país com a maioria ajudando o crescimento.
  • Deal Flow will be key: Muitas boas startups serão lançadas. Fundos de investimentos e investidores-anjo vão correr atrás das startups e empreendedores ao contrário do que acontece hoje.
  • Women in power: Muitas empreendedoras femininas estarão na liderança das startups brasileiras.
  • Diversity: Haverá muito mais internacionalização e diversidade nas equipes das startups brasileiras.
  • Courageous Startups: Muitas ideias ousadas serão desenvolvidas com base em tecnologias únicas resolvendo grandes problemas do Brasil e do mundo.

Para finalizar, Nima deixou seu recado para o ecossistema de startups que o acolheu durante esses cinco anos. “Neste meu #Brasiversario de 5 anos eu gostaria apenas de agradecer o Brasil e todas as pessoas que me aceitaram desde quando cheguei aqui e que me apoiam e ajudam até hoje. Obrigado a todos vocês que fazem parte da minha trajetória proporcionando cada vez mais aprendizados e crescimento exponencial para mim e os empreendimentos nos quais eu faço parte. Eu fico eternamente grato por ter conhecido vocês e até os que não conheci ainda mas que vou conhecer ao longo dos próximos anos, especialmente os empreendedores, fundadores e investidores das startups que estão solucionando grandes problemas do mundo a partir do Brasil. Vamos juntar nossas forças para acelerar a realização da nossa missão em comum: #MakingBrazilHappen”.