* Por Hiran Eduardo

Lembro alguns anos atrás, antes da popularização da IoT e da robótica, que a bola da vez das startups era a Economia Compartilhada. Em seu conceito originário, a Economia Compartilhada buscava permitir que as pessoas pudessem, como o próprio nome diz, compartilhar o excedente ou a vacância daquilo que elas possuíam.

O conceito era excelente e na época eu acreditava que isso iria mudar o capitalismo, fazendo uma transição entre o ter e o usufruir. Depois de décadas em que toda a publicidade e o marketing das empresas estimulavam o consumir, o comprar acima de qualquer coisa, as pessoas começavam a perceber que não precisavam de tudo aquilo. E mais, não só não precisavam quanto esta cultura de consumo acabava por gerar um acumulo de coisas que nos faziam precisar de alguns clones e diversas horas a mais por dia para aproveitarmos tudo o que comprávamos.

E era nesse ponto que a Economia Compartilhada dizia atuar: em permitir que, no tempo que não estivéssemos aproveitando algo que temos, poderíamos transferir o uso para outros, recebendo uma compensação financeira por isso. Assim, todos poderiam viver mais experiências com um custo menor. Ela era boa para os possuidores dos produtos, que poderiam ter uma renda extra, para os consumidores, que poderiam ter uma vivência, experiência ou resolver um problema pagando apenas pelo que necessitavam e também para o meio ambiente, pois menos dos seus recursos precisavam ser utilizados na produção desse monte de coisas.

Nesta esteira surgiram diversas startups, permitindo o acesso entre estas pontas. Fôssemos numerar todas aqui o espaço seria pequeno, mas as mais conhecidas foram o AirBnb, o Uber, o Lyft. Todas elas tinham, em seu conceito original, o objetivo de unir duas categorias de pessoas: aquelas que tinham algo em excesso ou sem uso e aquelas que tinham interesse em usufruir, por um certo período de tempo, este algo.

Porém, com o transcorrer do tempo, percebemos que o conceito se desvirtuou. No lugar de pessoas compartilhando encontramos pessoas transformando isso em um negócio. No AirBnb, de três vezes que eu utilizei, duas não diferenciavam muito de um hotel, onde praticamente um prédio todo era preparado para locação e você era recebido por uma pessoa que só fazia isso: checkin e checkout. No Uber, não precisamos nem falar: o que era para ser um compartilhamento de tempo vago virou uma profissão em tempo integral. E os casos se seguem.

O ponto aqui não é criticar as pessoas que isso fazem, longe de mim, apenas constatar que a Economia Compartilhada como se pensou fracassou. No lugar de pessoas compartilhando com pessoas vemos fornecedores tratando com clientes, o que é uma relação comercial e, principalmente, pessoal completamente diferente, nada diferente do que vem sendo feito há décadas e décadas.

Portanto, não é exagero dizer que das startups que nasceram como economia compartilhada, boa parte delas  – pelo menos as que mais cresceram – tiveram o seu modelo de negócios original desvirtuado, se transformando em apenas uma nova plataforma para o bom e velho capitalismo secular, com uma maquiagem mais moderninha.  E a Economia Compartilhada continua sendo o que sempre foi: algo nichado e quase insignificante no contexto econômico geral, o que é uma pena.


Hiran Murbach é advogado com MBA em Marketing, professor e palestrante, autor dos livros “Quebrando: aprendendo com os erros dos outros”, “O Grátis no Marketing Digital” e “O que é essa tal criatividade?” além de obras de ficção e, acima de tudo, defende o empreendedorismo com propósito como um meio para um mundo melhor.