*Por Exame.com

Não é de hoje que o mercado de startups brasileiras já é considerado maduro. Apesar dos sentimentos de recuperação gradual quanto à situação econômica do país, negócios inovadores e tecnológicos têm se desenvolvido exponencialmente e, inclusive, se tornado cases internacionais.

É o caso da easySubsea: o negócio, criado no Rio de Janeiro, tem como objetivo trazer informações mais precisas ao monitoramento de poços de petróleo, aumentando a eficiência de exploradoras do combustível fóssil.

Hoje, a startup brasileira já se expandiu para um país que é referência no mercado de petróleo: a Noruega. Nacionalmente, a ideia conquistou a incubadora Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o programa de aceleração InovAtiva, do Governo Federal.

Desenvolvimento de tecnologia

A easySubsea foi criada em 2015, como um spin-off de uma empresa maior, chamada Transeletron. A companhia, fundada em 1999, é especializada em automação, controle e monitoramento de poços de petróleo submarinos e terrestres.

“A Transeletron trabalhava com produtos de outros fabricantes e percebeu que muitas experiências que ela tinha em campo poderiam ser usadas para melhorar tais produtos. Foi criado um grupo de inovação e P&D [pesquisa e desenvolvimento], desenvolvendo novos itens para esse mercado de petróleo”, conta Rhuan Barreto, sócio da easySubsea.

Em 2014, o grupo percebeu que já havia massa muscular suficiente para operar sozinho e focar ainda mais em sua premissa tecnológica. Assim, separou-se e foi batizado de easySubsea. Como o próprio nome diz, o negócio está focado em trazer automação, controle e monitoramento submarino – um mercado que será de 4 bilhões de dólares até 2020 no mundo todo, de acordo com o sócio.

Além de oferecer sensores para monitoramento dos poços de petróleo submarinos, a easySubsea passou a oferecer também a automação dos dados desses poços: por meio de um software de digitalização dos dados emitidos pelos sensores, a empresa automatiza a análise do que fazer com tais números.

“Para um operador de petróleo, é importante que ele tenha informações como corrosão, pressão, temperatura e vibração antes de fazer uma tomada de decisão”, explica Barreto.

“Além disso, saber remotamente como estão as estruturas e as produções dele salva um custo muito grande para as operadoras de petróleo, que não precisam enviar pessoal”. Segundo a easySubsea, a economia de custos de operação [Opex] chega a 30% em relação aos encargos tradicionais.

Além da redução de contas a pagar e do diferencial de análise de dados, a easySubsea também afirma cumprir legislações do setor, elaboradas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), e incluir matéria-prima nacional na elaboração de seus hardwares e softwares.

Os concorrentes não são empresas como Petrobras e Shell, focadas na exploração dos poços de petróleo. “O mercado possui vários segmentos. Para uma empresa dessas, por exemplo, não faz sentido querer abarcar todas as áreas e cuidar também do hardware de monitoramento, além da exploração do petróleo”, afirma Barreto.

A concorrência está em outras gigantes, como Halliburton e Siemens (que tem uma divisão apenas de produtos tecnológicos “subsea”).

A estratégia da easySubsea para se destacar é investir na inovação tecnológica. A startup pretende criar um produto de monitoramento wi-fi dos poços submarinos. Por meio do transmissor easyComm, os dados do poço de petróleo irão para a plataforma por meio de hidroacústica, sem usar fios.

“Essa tecnologia fará a empresa dar um grande salto. Já depositamos patente no Brasil”, diz Barreto. “No fim das contas, nossos produtos competem com empresas maiores do que nós. Esse desenvolvimento tecnológico representa para a gente um oceano azul, onde exploraremos a oportunidade primeiro. Esperamos que seja o carro-chefe da empresa.”

Rhuan Barreto, sócio da easySubsea (easySubsea//Startup brasileira leva inovação na área de petróleo à Noruega/Divulgação)

Para Barreto, um dos maiores obstáculos da easySubsea é comercializar em um mercado que está em baixa. “Nossa startup nasceu do início para o auge da crise do petróleo. É uma situação muito complicada, porque os tempos de execução de contratos são longos. Cotamos serviços que serão executados daqui a cinco anos. Ao mesmo tempo, mesmo saindo de uma grande empresa, as pessoas ainda precisam se acostumar com seu trabalho”, explica.

Hoje, a easySubsea possui apenas um contrato já operando no Brasil – e outros em negociação. O ticket médio depende do produto ou serviço do cliente, mas costuma girar em torno de 300 mil reais.

Acelerações e expansão para a Noruega

Desde sua concepção, a easySubsea foi aceita no programa de incubação da Coppe/UFRJ, do programa de pós-graduação e pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Estamos em nosso terceiro ano de incubação. O programa ajuda sua empresa a se desenvolver como um todo. Nossa pesquisa e desenvolvimento melhorou com o envolvimento da universidade, além de termos feito conexões com agentes do ecossistema, gerando negócios e investimento”, diz Barreto.

Ao mesmo tempo, a easySubsea também participou do InovAtiva Brasil, programa de aceleração realizado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A startup ficou em 13º lugar na turma de 2014, de 74 negócios selecionados.

“Essa participação forneceu consultoria, mentoria e treinamento. Além disso, permitiu que a empresa participasse de uma missão de duas semanas na Inglaterra, para conhecer o ecossistema de inovação e fazer networking com investidores e potenciais compradores locais”.

No mesmo ano, a easySubsea visitou a Noruega, referência no desenvolvimento tecnológico da exploração de petróleo no mar. Esse incentivo foi fundamental para que a empresa optasse por internacionalizar o negócio em junho deste ano, escolhendo a comuna de Odda como primeiro destino.

“Conseguimos investidores capitalistas noruegueses, que colocaram dinheiro da empresa por meio de um investimento-anjo de 450 mil coroas norueguesas [pela cotação atual, cerca de 180 mil reais]. Além disso, mais 100 mil coroas norueguesas [cerca de 40 mil reais] foram aportadas pelo governo local”, diz Barreto. “Também tivemos apoio do governo brasileiro por meio de consultorias da Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] e do Sebrae.”

O principal motivo do estabelecimento de uma companhia-irmã na Noruega é firmar relacionamento com as grandes operadoras de petróleo, que influenciam as decisões do setor, o que inclui empresas brasileiras. “Falar presencialmente é muito diferente do que conversar por meio de uma tela do Skype.”

Mas há também razões financeiras: o país está se recuperando bem da crise do petróleo, mesmo sendo muito dependente do combustível fóssil. Com menos de um semestre na Noruega, a easySubsea já conquistou um cliente local.

“Há sinais claros de otimismo no mercado e isso nos ajuda. No Brasil, ainda há muita incerteza”, afirma Barreto, que também diz que a startup continuará investindo forte na operação brasileira.

Para 2018, a easySubsea quer aumentar a base de clientes nos dois países e finalizar o desenvolvimento de sua tecnologia de monitoramento wi-fi – o que inclui conseguir um consumidor para testar a tecnologia de forma empírica.

O negócio não divulga números absolutos de faturamento, mas afirma que a meta é crescer entre 30 e 50% em 2018 – porcentagem que foi maior nos anos anteriores, por conta do tamanho reduzido da empresa. O planejamento do negócio é atingir o ponto de equilíbrio no ano de 2020, ainda que as projeções possam mudar de acordo com investimentos futuros.

*Por Mariana Fonseca para Exame.com