*Por Cassio Spina

Atualmente já é consenso que o Corporate Venture é estratégico para todas as organizações, não importando em qual mercado atuem, pois com a aceleração do desenvolvimento tecnológico, todos setores vão sofrer disrupções e a solução para acelerar a inovação dos seus negócios passa obrigatoriamente por se conectar ao universo das startups.

Entretanto, a questão que ainda não está totalmente disseminada são quais as melhores práticas para desenvolvimento de iniciativas de Corporate Venture. Ainda são cometidos muitos erros que levam ao fracasso e desilusão sobre o CV, por fim comprometendo a capacidade de inovar seus negócios. Já existem inúmeros casos documentados na literatura de iniciativas de CV fracassadas e listamos abaixo os principais erros cometidos:

Iniciar ações sem um bom planejamento específico – É fundamental antes de se começar a prospectar startups, fazer eventos e investir que se estruture um planejamento especifico para o Corporate Venture. Sem isto, as iniciativas ficam desconexas entre si e desalinhadas com os objetivos estratégicos da corporação não trazendo os resultados esperados.

Esperar resultados de curto prazo – É natural ao se pensar em startups, tudo pareça simples, rápido e ágil, entretanto, a realidade é bem diferente do cenário colorido que é apresentado em revistas e artigos: a maior parte das startups falha, tendo grandes dificuldades de provar seu modelo de negócio, desconhecem completamente o mundo corporativo e ainda tem receio ou simplesmente ignoram as iniciativas das grandes empresas. Assim para ter sucesso, é fundamental o comprometimento de longo prazo e isto se traduz em investimentos relevantes de recursos humanos e financeiros. É claro que os resultados compensarão esta dedicação, mas se subestimar os mesmos, o fracasso será certo. Qualquer iniciativa de CV deve ter um horizonte mínimo inicial de 5 anos, com previsão de se estender de forma continua; basta lembrar que os tradicionais fundos de Venture Capital tem um ciclo de vida mínimo de 10 anos. Esperar grandes resultados imediatos é frustração certa.

Gestão por não “insiders” – É fundamental entender que apesar do fundamento das startups ser a inovação tecnológica, os negócios com elas são efetivados por relacionamento pessoal. É consagrado no Vale do Silício que os negócios mais relevantes são fechados com base na relação de confiança dos envolvidos, assim, pensar que apenas por ser uma empresa de renome no mercado irá ter efeito imediato de conquistar as melhores oportunidades é um grande erro. O que faz a real diferença é a relação do gestor com o ecossistema de investidores, empreendedores e agentes.

Tentar aplicar políticas corporativas para o CV – As grandes empresas tem naturalmente a tendência de se precaverem contra quaisquer potenciais falhas, pois pelo seu tamanho, um pequeno erro pode ter um impacto gigantesco, entretanto, a metodologia básica de inovação das startups é justamente através de tentativa e erro descobrir qual é modelo com maior tração. Uma grande empresa normalmente não vai querer fazer “testes” com seus clientes, pois só isto poderia gerar um risco de reputação/imagem, enquanto que uma startup desconhecida não tem esta limitação. Assim é inviável tentar estabelecer as regras e processos corporativos na relação com as startups, por isto é essencial construir modelos que ao mesmo tempo deem o conforto necessário para a corporação e a flexibilidade necessária para a startup desenvolver seu negócio. Outra questão fundamental deste tópico é sobre a remuneração dos gestores das iniciativas de CV: um dos grandes motivos de fracasso é o alto turnover dos gestores contratados para cuidarem do CV, pois caso os mesmos demonstrem ter competência, serão rapidamente absorvidos pela indústria de Venture Capital pelo atrativo da remuneração das taxas de performance que recebem, assim, é importante que a forma de compensação dos gestores de CV sejam alinhadas com o que o mercado de VC pratica.

Comprometer a execução do CV por necessidades imediatas – A velha questão do “urgente versus o importante” não pode existir em iniciativas de CV, assim, um dos grandes erros é utilizar times que tenham atribuições que não sejam exclusivamente ligadas ao CV, pois estes serão demandados para resolver questões mais imediatas, deixando em segundo plano as ações estratégicas para desenvolvimento da inovação, que levará mais tempo para gerar resultados para o negócio.

Assim, sumariamente para evitar estes erros, as iniciativas de Corporate Venture deverão no mínimo cumprir os seguintes requisitos:

  • Ter um planejamento estruturado, alinhado aos objetivos estratégicos e a realidade do mercado de startups.
  • Ter junto aos responsáveis corporativos “insiders” com bom relacionamento com o ecossistema, autonomia e flexibilidade para tomar decisões, não sendo penalizados pelos fracassos individuais que irão certamente ocorrer e sendo recompensados de acordo com os padrões de mercado de Venture Capital para que tenham engajamento de longo prazo.
  • Estar preparado para flexibilizar as políticas corporativas para a nova realidade do universo de startups.

Tenho a certeza que os leitores deverão neste ponto estar pensando: vale a pena todo este esforço? Realmente faz sentido termos de nos adaptar a tudo isto? Pois bem, respondo com a seguinte questão: seu negócio é imune a revolução tecnológica que está ocorrendo? E mesmo que acredite seja, seus concorrentes estão totalmente parados com relação as iniciativas de CV? Por fim, se ainda assim não estiver convencido: que oportunidades pode estar perdendo por não estar se engajando nesta iniciativa? E lembre-se que provavelmente você já está atrasado para começar a se adaptar a esta nova realidade.


Cassio foi empreendedor por 25 anos, atualmente exercendo a atividade de advisor em M&A e Corporate Venture, atuando ainda como investidor anjo e conselheiro de empresas É o fundador da Anjos do Brasil (www.anjosdobrasil.net) e autor dos livros “Investidor-Anjo – Como Conseguir Investimento para seu Negócio” e “Dicas e Segredos para Empreendedores”. Maiores informações em http://cassio.familiaspina.com.br