* Por Elber Mazaro

Este artigo dá continuidade a série que escrevo sobre um modelo de transição para executivos que buscam empreender, fruto da minha dissertação de mestrado em empreendedorismo, recentemente defendida e aprovada na FEA-USP.

O tema deste artigo explora a recomendação para que os executivos que avaliam a possibilidade de empreender e / ou ter uma função profissional independente, sem vínculos empregatícios, busquem fazê-lo em áreas que conhecem bem e que gostam, ou seja onde se sentem bem e têm prazer em trabalhar.

Este elemento do processo de transição, faz parte do bloco que indica para os executivos que façam uma avaliação sobre as diferenças de perfil do empreendedor típico e o resultado de seu próprio exercício de autoconhecimento, antes de partirem para a transição em si. Lembrando que o primeiro passo sugerido para esta avaliação é o entendimento das motivações e necessidades do executivo, para que compare com as características comuns encontradas nos empreendedores.

Este destaque identificado durante a pesquisa na teoria e na prática com dez empreendedores que deixaram a carreira executiva, sugere ao executivo empreender numa atividade com a qual tenha afinidade, num mercado conhecido e fazendo algo que lhe dê prazer.

Empreender em uma área conhecida e até dominada faz ser possível aproveitar os contatos feitos durante um período profissional anterior. Também facilita aos executivo em transição, a identificarem as oportunidades de negócio com maior facilidade, assim como a entender melhor os riscos relacionados ao novo empreendimento.

Atuar em uma área que se gosta, e que traz prazer e sentido ao profissional, ajuda o empreendedor na sua jornada a ter a motivação e a resiliência necessárias para superar os obstáculos e as adversidades muito comuns quando se inicia um novo negócio.

Lembrando que é a partir do exercício do autoconhecimento e do entendimento das motivações, que o executivo pode ter maior clareza sobre seus pontos fortes, o que lhe traz satisfação e sentimento de realização e assim permite priorizar algumas atividades, segmentos e oportunidades para empreender.

O autoconhecimento também pode trazer o entendimento dos pontos fracos do executivo e para quais competências será necessário buscar apoio e complementariedade, por intermédio de  sócios, parceiros, funcionários ou prestadores de serviços.

Muitos dos executivos entrevistados, que fizeram a transição para o empreendedorismo, reforçaram que vários, se não todos os seus primeiros clientes surgiram de contatos e relacionamentos estabelecidos durante sua carreira corporativa na mesma área em que se propuseram a empreender.  Além dos clientes, que podem ser antigos colegas de trabalho, pessoas com quem estudou ou atuou em projetos e até membros de associações de classe das quais o executivo fazia parte, também surgem potenciais sócios, parceiros e fornecedores desta rede de contatos.

No caso de tentar empreender em uma área totalmente diferente e nova para o executivo, haverá o desafio de buscar o desenvolvimento dos relacionamentos, e a construção do capital social do zero, o que em princípio seria uma desvantagem competitiva.

Também foi identificado que a reputação positiva do executivo, construída durante a carreira executiva pode ajudar muito nas negociações com clientes e fornecedores no início do empreendimento.

Na pesquisa existiram executivos que apontaram terem conseguido, crédito financeiro com fornecedores (prazo e valores), essenciais para a compra de produtos e desenvolvimento do negócio, graças ao relacionamento e à reputação construída durante a carreira executiva.

Já discutimos em outros artigos os três capitais a serem gerenciados no processo de planejamento da transição: o Capital Social, o Capital Intelectual e o Capital Financeiro. Sendo que tanto o Capital Social quanto o Intelectual estão diretamente relacionados com a vivência e experiência / atuação do profissional em um ou vários segmentos  específicos de negócios, portanto empreender onde se conhece, significa já iniciar com um “bom capital” nestas áreas e isto aumenta as chances de sucesso, principalmente nos tempos atuais, de tantas incertezas, com tanta volatilidade, complexidade e ambiguidade (VUCA).

Então a escolha de empreender onde conhece e gosta, também permitirá ao executivo empreendedor, aplicar com mais facilidade as suas experiências anteriores, tanto executivas quanto empreendedoras, além de fornecer uma base mais sólida para que o empreendedor desenvolva competências de flexibilidade e aprendizado contínuo, também identificadas como elementos fundamentais na avaliação do perfil empreendedor, para os executivos em transição. Estes elementos são a continuidade do processo ou modelo proposto na minha dissertação e resultado da pesquisa realizada, que serão temas dos próximos artigos desta série. Aguardem.


Elber Mazaro - Espaço do ExecutivoElber Mazaro é assessor/consultor, mentor e professor em Estratégia, Tecnologia, Marketing, Carreiras/Liderança e Inovação/Empreendedorismo. Atua há mais de 25 anos no mercado, liderando negócios no Brasil e na América Latina. Possui mestrado em Empreendedorismo pela FEA-USP, pós-graduação em Marketing e bacharelado em Ciências da Computação.