* Por Hiran Eduardo

Não lembro exatamente quando e como foi o meu primeiro contato com o conceito de startups. Deve fazer uns seis anos, provavelmente mais. E obviamente não foi a minha primeira experiência com empreendedorismo, na época eu estava terminando um projeto com proprietários de lan houses e antes eu tinha trabalhado alguns anos em um negócio familiar, além de acompanhar a trajetória empreendedora do meu pai desde minha pré-adolescência.

Exatamente por isso, encarei as startups como uma nova forma de empreender, de fazer tudo aquilo que a humanidade vinha fazendo desde a antiguidade, porém com mais “inteligência” e usando algumas estratégias bacanas. Por suas singularidades, elas encontraram um novo mercado cheio de oportunidades, novas ou recicladas. E como todo mercado novo, cada nova ideia, cada novo modelo de negócios era único, inovador, disruptivo.

Com isso surgiram as grandes empresas dos nossos dias. Google, Facebook, Kickstarter, Airbnb, Spotfy, Uber, todas elas não fizeram nada mais do que o óbvio – aos olhos de hoje – e reinventaram algo antigo. Porém elas foram as primeiras, ou as primeiras a fazerem bem feito.

Só que como todo mercado, principalmente aqueles com as melhores oportunidades, uma hora fica saturado. Assim, chegamos numa encruzilhada: como é possível um conceito que tem a inovação e a disruptura em seu DNA sobreviver quando quase tudo já foi feito?

O que vemos em muitos eventos, concursos, exposições ou grupos que envolvam startups são modelos de negócios repetidos e pouco inovadores – ou então muito nichados, regionais, para um público muito específico.

Com isso, vemos o que se pode chamar de um massacre. Mentores, investidores e inclusive outros empreendedores criticando e repetindo lugares comuns como “isso não é inovador”, “isso já foi feito”, “é apenas uma cópia”, “não tem escala”, “o público alvo é muito restrito”, “não me interessa”.

Só que tais atitudes acabam por ser mais prejudiciais do que inspiradoras. Além de acharmos que vivemos em um mundo onde ainda existe espaço de sobra para a disrupção, esquecemos de um dos principais motivos que levam as pessoas a empreender: ter uma fonte de renda.

Nem todo empreendedor quer uma um investimento de um milhão de reais, quer que seu negócio vá de 0 a 100 km/h em nove segundos nem quer virar o próximo Zuckerberg ou Besos. Muitos querem ter  um negócio próprio, que lhe dê prazer, naquela área que ele gosta e que, muitas vezes, apenas lhe dê o mesmo salário que ele tinha antes. Nada mais.

Então, da mesma forma que no meu bairro existem três padarias, quatro pet shops e diversos institutos de beleza, todos ele em funcionamento e – possivelmente – lucrativos, por que as startups não podem ir por esse caminho? O que impede um empreendedor de desenvolver uma empresa baseada em um modelo de negócio ultra-nichado, regionalíssimo ou mesmo já existente? Quem pode dizer que este, ao fazer aquilo que domina, lhe dá satisfação e consegue ter um rendimento que lhe seja suficiente é um fracasso como empreendedor?

Desta forma, antes de criticar uma ideia ou uma pessoa por fazer algo que você não considera inovador ou então é sem chances de escalar mundialmente, pergunte onde ela quer chegar com isso. Talvez seja hora de todos nós nesse ecossistema repensarmos a posição das startups na economia, e quem sabe percebermos que elas têm sim um papel importante nela, bem diferente daquele que acreditamos ter.


Hiran Murbach é advogado com MBA em Marketing, professor e palestrante, autor dos livros “Quebrando: aprendendo com os erros dos outros”, “O Grátis no Marketing Digital” e “O que é essa tal criatividade?” além de obras de ficção e, acima de tudo, defende o empreendedorismo com propósito como um meio para um mundo melhor.