* Por Eliza Tannus

A tecnologia e automação dos processos industriais se insere, com frequência, na continuidade e perpetuidade de determinadas profissões no futuro.

Determinados cargos administrativos, mas com atividades preponderantemente operacionais, já sentiram esse impacto, como é o exemplo dos operadores dos SACs (Serviço ao Atendimento ao Consumidor) que foram substituídos pelos chatbots treinados e monitorados por inteligência artificial.

Esse tipo de substituição profissional nos faz questionar: “será que a minha profissão também será substituível por um robô? ”

Se essa pergunta for feita por advogados no acessado site willrobotstakemyjob.com o percentual é de apenas 3,5%, ou seja, estamos protegidos e podemos comemorar a nossa perpetuidade sem grandes preocupações ou inovações! Uhul!

Não, não é bem assim.

Em virtude de sua natureza altamente humana, a advocacia é uma profissão que pode se considerar blindada pela invasão da inteligência artificial até certo ponto, no entanto, muitos de seus procedimentos burocráticos e elaboração documental já podem ser substituídos com serventia por softwares e plataformas digitais.

Diante disso, as lawtechs (ou legaltechs como alguns preferem chamar) são plataformas de soluções na área jurídica, que surgiram para injetar inovação no meio forense, até então acostumado com burocracias, formalidades, gravatas e latim para todos os lados.

As lawtechs circulam tanto na área consultiva, com negociação de contratos e assinatura digital de documentos eliminando a fricção deixada pela burocracia das impressoras e validações demoradas, como na área litigiosa, envolvendo mediação digital e negociações de acordos em fase pré-processual.

Além dessas novas atuações, algumas lawtechs vieram aprimorar o conhecido push judicial, antecipando ao usuário determinadas citações antes mesmo de sua publicação no diário oficial, ou até otimizando os softwares de gestão de processos ao integrar dados fornecidos pelo usuário com os dados coletados na internet, e ainda aqueles já existentes de outros clientes e, por sua vez, parametrizados no servidor, evitando duplicidade de informações.

Há soluções ainda que facilitam a solicitação de documentos para uma due dilligence envolvendo diversos estados, municípios e segmentos pode ser resolvida por soluções tecnológicas.

Ou seja, o que antes nós advogados pensávamos que era maçante – como por exemplo buscar incessantemente a redação de determinada cláusula que foi feita ao cliente X há anos, na versão xpto – com a automação de documentos, a partir das informações fornecidas irá, além de gerir os dados criados por nós, otimizar a utilização dos mesmos.

Diante desse novo panorama de, literalmente, soluções para o mundo jurídico, é possível vislumbrar que a profissão do advogado não se esgota, uma vez que o nosso know how sobre experiências de vida tanto não pode ser substituído por plataformas digitais, quanto dá todo o suporte à inteligência artificial por trás dessas soluções.

Porém, a utilização da capacidade cognitiva do advogado será muito mais utilizada, dado que não haverá que se preocupar com burocracias, trabalhos repetitivos e gestão de dados da maneira manual como vem sendo feito até o momento.


Eliza Tannus é advogada na área de Direito Societário e Fusões e Aquisições no escritório FTCS Advogados. Graduada pela Unifaj e pós-graduanda pela Fundação Getúlio Vargas, frequentou cursos de extensão na The London School of Economics and Political Science e no Insper, além de ser uma entusiasta das lawtechs e soluções tecnológicas para o meio jurídico.