Israel: deserto, conflitos étnicos e militares, clima de tensão e uma população de cerca de 8 milhões de pessoas. Parece o cenário imperfeito para o desenvolvimento de um ecossistema forte de startups e tecnologia, não é mesmo? Mas o país tem mostrado completamente o contrário.

Israel é um dos líderes globais em alta tecnologia, atuando no desenvolvimento de softwares, comunicações e ciências da vida, o que provoca comparações com o Vale do Silício. As grandes empresas já perceberam o potencial do país e Intel e Microsoft, por exemplo, já construíram seus primeiros centros de pesquisa e desenvolvimento fora dos Estados Unidos na região e outras multinacionais de alta tecnologia como IBM, Cisco e Motorola, também abriram escritórios por lá.

A poucos metros de distância do centro de Tel Aviv, é possível trabalhar para o Google, Facebook, Paypal, Qualcomm, Intel, Microsoft, e centenas de outras gigantes. Ser incorporada a uma delas é meta para muitas startups em operação por lá. Outro sonho é abrir capital na bolsa americana Nasdaq. Depois dos EUA e da China, Israel é o terceiro país com mais empresas de tecnologias listadas.

E não é apenas a bolsa americana que o país atrai, mas o fator mais crítico e palpável da promessa tecnológica: capital de risco. Em 2016, empresas privadas de alta tecnologia israelenses levantaram um recorde de 4,8 bilhões de dólares, 11% a mais em relação a 2015, de acordo com um relatório do Centro de Pesquisa do Israel Venture Capital (IVC) e do escritório de advocacia ZAG.

Este mês apoiamos o evento SPIN Summit 2017, que tem como objetivo estimular o estabelecimento de negócios estruturados entre empresários e investidores brasileiros e israelenses. Com apoio fundamental dos governos israelense e brasileiro, o encontro contou com cerca de 1000 participantes de empresas, investidores, negociadores e empresários de ambos países.

Dori Goren, Cônsul de Israel no Brasil e Mario Fleck, Vice-Presidente da Câmara Brasil-Israel de comércio e Indústria, marcaram presença no evento e falaram sobre a cultura presente no ecossistema de startups e suas experiências no país.

Ambos destacaram que para entender o sucesso de Israel como capital da inovação, é preciso voltar a raiz dessa história, que segundo Mario, começou da combinação da escassez de recursos como água e petróleo, com a necessidade de sobrevivência. Dado a situação geopolítica e os problemas com os países vizinhos, Israel foi obrigado a buscar uma nova solução para a sobrevivência da população.

E qual foi a solução? A feliz combinação entre Governo, Exército e Educação

Nos anos 90, o programa liderado por Yigal Erlich, ex-superministro do empreendedorismo que criou o fundo de Venture Capital Yozma, injetou US$100 milhões em empresas de tecnologia. A lógica por trás desse investimento previa que, diante da participação direta do Estado por meio de injeção de recursos, os investidores locais e estrangeiros sentiriam firmeza no novo modelo e, como consequência, abririam a carteira.

Já o Exército costuma ser o local onde os jovens se conectam com tecnologia de ponta pela primeira vez. Em Israel, homens e mulheres são recrutados aos 18 anos para servir um período de dois anos e, diferente do que acontece no Brasil, a maioria dos jovens quer participar disso.

Segundo Mario, os heróis de Israel passam pelo exército e depois viram heróis da tecnologia. Segundo ele, esse processo influencia muito as crianças e os jovens, pois impacta fortemente no enfrentamento precoce de riscos. “Eu vi uma jovem de 18 anos tomando conta de uma fronteira no norte de Israel com licença para atirar, era uma decisão dela”, comenta. Esse enfrentamento de risco precoce cria uma atitude, aptidão e um apetite para você enfrentar os riscos quando sai do exército ainda muito jovem.

Mario contou um outro caso de um jovem que saiu do exército e foi fazer seus projetos de empreendedorismo e com 30 e poucos anos, já tinha aberto 15 empresas e 100% delas com fracasso total. Com duas filhas, ele decidiu voltar a morar com a família, mas não desistiu dos seus planos. Ele desenvolveu sua 16 empresa, que oferece infraestrutura para o desenvolvimento de apps e começou a dar certo, até que surgiu um comprador com um cheque de 15 milhões de dólares, o que muitos aceitariam na hora, mas ele recusou e hoje a empresa vale 1 bilhão.

Outro case de sucesso de Israel é a startup Mobileye, adquirida pela Intel por US$15,3 bilhões, a maior aquisição de uma empresa de tecnologia de Israel. E vocês acham que ele parou? Não! O CEO já está desenvolvendo outra empresa, a OrCam, que utiliza Inteligência Artificial para que deficientes visuais consigam entender textos e identificar objetos.

Exemplos de sucesso não são difíceis de se encontrar por lá, o serviço de mapas Waze, a plataforma de criação de sites Wix, as empresas de cibersegurança CheckPoint e Imperva, e a de telecomunicação Gilat, foram desenvolvidas no país.

Um diferencial de Israel e que ainda precisa ser muito trabalhado aqui no Brasil é a questão do fracasso. 90% das startups israelenses fracassam, então de cada 10 empreendedores, só um terá sucesso. Eles sabem disso e continuam tentando. Eles acreditam que um dia vão conseguir também.

“Essa combinação de hight tech com hight brains sempre foi, é, e sempre será uma questão de sobrevivência em Israel. E isso tem uma grande combinação com o Brasil. Aqui temos um mercado vasto e desenvolvimento precário de tecnologia, pois não temos apoio do governo, então por que não fazer o casamento perfeito entre desenvolvimento tecnológico de Israel e o enorme mercado demandante que existe no Brasil?”, finaliza Mario.

Ric Scheinkmain, Diretor-Presidente da Harpia Capital, Instituição organizadora do evento, destacou que é muito importante aprender e entender o que Israel tem para oferecer não só para o Brasil, mas para o mundo. Segundo ele, tecnologia e inovação são temas frequentes em eventos, por isso o objetivo do SPIN é engajar e estreitar as relações dos dois países que são polos por sua magnitude e conhecimento.

Segundo ele, a interface Brasil e Israel é oriunda do estreito laço de cooperação internacional e comercial e poderá ser expandida se aproveitarmos o quê de melhor a tecnologia de Israel tem a oferecer, implementando no Brasil, um país desbravador, em desenvolvimento, berço de uma população composta por 210 milhões de habitantes. Vale lembrar que Israel é considerado um dos cinco países mais tecnológicos do mundo e investe 4,4% do PIB em P&D.

“Os brasileiros precisam se capacitar para trabalhar com o que a tecnologia pode fazer. A tecnologia está e ainda vai gerar muitos empregos e inserir o Brasil no cenário global, por isso precisamos incentivar cada vez mais cooperação entre países, não só com Israel, mas EUA, China, Japão…”.