Na última semana, um dos maiores apps de serviços de beleza do Brasil anunciou sua saída do mercado nacional. A empresa não quebrou, não fechou e muito menos foi vendida, apenas deixará de atuar por aqui a partir desta sexta-feira, dia 1º de setembro. O motivo é simples: com a instabilidade política e econômica do país, os investidores da empresa entenderam que não faz sentido continuar operando por aqui em plena fase de captação de um aporte Series B. O primeiro aporte da empresa, inclusive, foram notáveis 15 milhões de euros.

Hoje, no Brasil, gasta-se mais com serviços de beleza no Brasil (R$20 bi) do que com alimentação e educação básica (R$17 e R$19 bi), segundo a Fecomércio. Se por um lado uma startup pioneira está abrindo mão do mercado brasileiro – seu maior usuário – para se dedicar exclusivamente ao exterior, como veem outras empresas do segmento o cenário para startups de beleza em território brasileiro?

Mercado

De acordo com Fernanda Greggio, cofundadora da AVEC, empresa de tecnologia que fornece soluções em Softwares de Gestão, Aplicativos de Agendamento e Pagamento para salões de beleza e barbearias, o Brasil é um dos maiores mercados de beleza no mundo, por isso chama muita atenção não ter tantos avanços tecnológicos nesta área. “Além disso, grande parte dos estabelecimentos do segmento se encontram na informalidade, existindo muito espaço para desenvolvimentos na área”, diz.

“No entanto, o segmento de beleza no Brasil possui muitas peculiaridades – tanto com relação aos outros países quanto comparando com os diferentes estados. É possível encontrar muitas divergências na forma de trabalho, por isso é preciso se debruçar completamente sobre este mercado para conseguir atender as diferentes demandas”, explica Fernanda.

A AVEC foi criada no início de 2013 e seu objetivo é contribuir com a modernização desse mercado com novas tecnologias e ajudar na formalização do setor que sempre contou com grande parte dos seus micro e pequenos empreendedores na informalidade.

Fernanda Greggio, fundadora da AVEC

A cofundadora diz que a ideia de fundar a startup surgiu primeiro com o agendamento online para salões de beleza. Em 2013 já era possível agendar hotel, restaurantes e até médicos online, porém para ter seu horário em um salão de beleza ainda era preciso ligar por telefone, em horário comercial e ficar descobrindo quando seu profissional teria um espaço na agenda para atender.

“Para mim, era ainda mais difícil porque durante o trabalho não conseguia parar para fazer a ligação e achava desconfortável fazer isso na frente dos colegas, acabava tendo que colocar um alarme no celular para lembrar de ligar no salão, antes que ele fechasse! Depois do agendamento, veio as outras soluções de uma maneira muito natural. Hoje, além de salões atendemos barbearias, clínicas de estética e spas.” Atualmente, a AVEC tem mais de 20 mil salões cadastrados na plataforma, além de crescer em média 300% ao ano desde sua fundação.

Ainda sobre o cenário nacional destas empresas, Maytê Carvalho, fundadora da Beleza de Farmácia e da b.pass, concorda que o Brasil é um mercado expressivo para beleza. “Éramos o terceiro maior do mundo e agora estamos em quarto lugar, o que ainda é uma ótima posição. No que tange ao varejo de beleza, o mercado é mais maduro e digitalizado, porém quando falamos de serviços de beleza vemos ainda muita oportunidade devido à ineficiência de alguns processos e um mercado extremamente analógico, fragmentado e pulverizado que tende à consolidação. Onde existe ineficiência, existe oportunidade, por isso vejo o mercado de serviços de beleza abundante de oportunidades, sejam elas customer centric ou orientadas aos proprietários de salões de beleza, como a maioria que vemos hoje no ecossistema de startups”, diz.

Maytê se autoproclama uma entusiasta do poder transformador da beleza e autoestima. A empreendedora, também autora do The beauty book, já trabalhou em agências de Comunicação de marcas de beleza como O Boticário e Unilever durante 6 anos. Antes da Beleza de Farmácia, ela foi sócia-diretora de marketing de uma marca de hair care. Hoje, o app Beleza de Farmácia já tem mais de 20 mil downloads. “Agora empreendo com a b.pass (investida pela ACE e Camila Farani), um assistente pessoal de beleza que negocia pacotes de serviços de beleza em múltiplos salões com descontos para a consumidora final e aumenta o cross sell para os salões – um gympass da beleza”, explica.

Para Tallis Gomes, um dos empreendedores mais bem sucedidos do país, este segmento, na contramão do que muitos podem pensar, está tomando cada vez mais espaço. O Brasil movimenta mais de 46 bilhões por ano em serviços e mais de 100 em produtos. “Além disso, o mercado de consumo de produtos delivery cresce cerca de 20% ano a ano no Brasil e esse aumento é exponencial. Eu acredito que temos muito o que aproveitar deste mercado e segmento aqui no Brasil e o resultado disso é o crescimento que a Singu vem tendo mês a mês… claro, precisamos ter boas ideias, executar com precisão, ter um ótimo time e trabalhar duro”, explica.

Tallis é fundador do Easy Taxi (atualmente Easy), um dos maiores apps de transporte do país e do Singu, uma espécie de delivery de serviços de salão de beleza. Fundada em 2015, hoje a Singu está em São Paulo e no Rio de Janeiro, e já movimentou quase R$2 milhões para os profissionais cadastrados na plataforma. A empresa conta com 1,2 mil profissionais cadastrados e dezenas de milhares de pessoas atendidas por mês.

Desafios

Para Fernanda, os maiores desafios deste mercado que muitas vezes atrapalham a vida dos empreendedores acabam sendo a informalidade do setor e a falta de conhecimento específico na área. “Diferente de outros segmentos, o setor de beleza ainda é muito carente de informação e dados como um todo. Já a facilidade, acredito que seja a existência de um mercado realmente muito grande no Brasil, onde ainda há muito para ser conquistado. Outro ponto que ajuda muito é que o setor está percebendo que chegou a hora de se modernizar e se regularizar, o que facilita a entrada das soluções de tecnologia”, diz.

Já Maytê acredita que um dos maiores desafios do mercado é a digitalização dos serviços prestados, “o by-pass entre profissionais e os consumidores e a geração de recorrência nos serviços. Entre as facilidades, vejo a aderência B2C, acredito que boas opções que resolvam dores reais dos consumidores conseguem  boa tração– é um mercado onde o B2C escala rápido se tiver uma proposta de valor consistente”, explica.

Para a fundadora da b.pass, entre os serviços de tecnologia para a área de beleza, os que possuem maior demanda são os Serviços que facilitem a rotina da consumidora – ajudando-a a economizar tempo e dinheiro, serviços que facilitem a gestão dos donos dos salões e serviços que empoderem os profissionais autônomos.

Para Ferndanda, da AVEC, os serviços com mais demandas neste segmento são os sistemas de gestão e soluções de agendamento online. “Outra demanda que têm crescido muito é a emissão de notas fiscais de forma mais transparente para o cliente e de acordo com a nova Lei do Salão-Parceiro, que entrou em vigor este ano”, explica.

Futuro

Recentemente a b.pass, spin-off da startup Beleza de Farmácia, recebeu um aporte da investidora-anjo presidente da Gávea Angels Camila Farani e da ACE, uma das maiores aceleradoras da América Latina. Maytê diz que com o novo investimento, o objetivo é “oferecer uma experiência estado da arte para nossa persona, a mulher contemporânea que se divide entre múltiplas tarefas e funções. Vamos investir na evolução do produto v1 e contratação de time: Customer success, Marketing – Vendas e Operações, para que possamos escalar.”

Tallis Gomes, da Singu

Nas últimas semanas, Tallis foi eleito um dos jovens mais inovadores do mundo pelo MIT Technology Review, publicação ligada ao MIT (Massachusetts Institute of Technology), graças à Singu. “Ter um reconhecimento dessa magnitude em menos de dois anos depois de fundar a Singu me deixou muito feliz. Trabalhamos todos os dias com um propósito nas mãos, por isso estamos conseguindo resultados cada vez melhores e com uma dimensão maior. Eu não trabalho sozinho e todo o time da Singu merece este reconhecimento”, disse o fundador. Para um futuro próximo da empresa, o objetivo é ainda mais animador: Tallis quer levar a Singu para os maiores mercados de beleza do mundo nos próximos anos.

Um dos objetivos da AVEC para o futuro próximo é, de acordo com Fernanda, manter o ritmo de crescimento e atingir um faturamento de R$8 milhões em 2017, com mais de 40 mil estabelecimentos cadastrados na base. Além disso, a empresa pretende lançar novos produtos até o final de 2017 e ampliar as soluções de pagamento e aplicativos personalizados, lançados este ano.

Por fim, as empreendedoras deixaram algumas dicas para quem pretende empreender neste setor. “Apesar de ser um setor importantíssimo no Brasil, ele possui muitas peculiaridades. Acredito que é preciso ter uma solução focada neste segmento para realmente construir um diferencial na área.  Outro ponto importante é que o relacionamento é muito importante para os stakeholders desse segmento. Você consegue construir relações comerciais de longo prazo se você for além da relação ‘online’, mostrar que a empresa está disponível não só para vender produtos, mas também para fornecer dados e informações atualizadas do segmento que possam direcionar os esforços do mercado”, pontua Fernanda.

“Resolva uma dor real do seu cliente, seja ele proprietário de um salão, profissional autônomo da beleza ou consumidor final. Beleza é tudo menos superficial e as dores –e oportunidades- são reais e abundantes! Foque em uma dor e uma persona, não tente endereçar a resolução de todos os problemas de uma só vez –nail to scale (literalmente!) é uma máxima muito válida para o segmento”, completa Maytê.