*Por Fábio Gelbcke

Quando se fala de polos de empreendedorismo e startups no mundo, geralmente os lugares que vêm à mente são o Vale do Silício e São Francisco. Mas a verdade é que, com o boom do empreendedorismo nas últimas décadas, mais pontos em diferentes continentes têm se destacado. Entre eles estão Londres, famosa por suas Fintechs; Tel Aviv, berço do aplicativo de navegação Waze; Berlim, sede da poderosa Rocket Internet, e a França, onde o Gigloop, startup da qual sou fundador, está baseado, e que tem passado por uma grande transformação.

À primeira vista a França pode parecer um local hostil a startups. O país é popularmente dito o inventor da burocracia (e a palavra burocracia vem de bureau, escritório em francês). É um país que tradicionalmente preza pelos negócios tradicionais, como lojas e restaurantes, ao invés de startups digitais.

Além do mais, a semana de trabalho francesa é de apenas 35 horas. Apesar de tudo isso, nos últimos anos a França vive um cenário de plena revolução. O país, que em 2015 ocupava um distante terceiro lugar no ranking de investimento em capital de risco na Europa – com menos da metade da atividade da segunda colocada, a Alemanha -, em 2016 dobrou seu total desempenho e se tornou a segunda colocada, atrás apenas do Reino Unido. E há chances reais de os Franceses em breve ultrapassarem os britânicos, que estão sofrendo uma diminuição de investimentos no ano pós-Brexit.

Esse crescimento e infusão de capital já apresentam resultados, provando que as startups francesas têm potencial para competir com empresas de qualquer outro lugar no mundo. Os primeiros unicórnios – startups avaliadas em mais de US$ 1bi – franceses já começaram a surgir, entre eles estão Criteo , BlaBlaCar e Vente Privée, e algumas aquisições de centenas de milhões de dólares já foram concretizadas, como a da Withings e da La Fourchette (conhecida como The Fork no Brasil).

Esse boom dos últimos anos teve alguns atores fundamentais. Entre eles, o atual presidente Emmanuel Macron. Já quando atuava como ministro na administração do antigo presidente, François Hollande, Macron era grande proponente da La French Tech, braço do governo francês focado em acelerar o desenvolvimento da tecnologia na frança. Agora que assumiu a presidência, diz que quer “que a França atraia novos empreendedores, novos pesquisadores, e que se torne a nação da inovação e das startups”.

Outra pessoa que desempenha um papel crucial nesse crescimento é o empreendedor Xavier Niel. Fundador de uma das maiores empresas de telefonia da França, ele está usando o capital que acumulou em seus empreendimentos para ajudar a desenvolver a cena de tecnologia e empreendedorismo no país. Em 2010, fundou a Kima Ventures, que hoje é o fundo de investimento anjo mais atuante do mundo, com 2 a 3 investimentos por semana. Em 2013 estabeleceu a primeira faculdade sem professores do mundo, em Paris: a École 42, que ensina computação de maneira prática e voltada para o empreendedorismo. E recentemente inaugurou a Station F, maior incubadora de startups do mundo com espaços para 1000 startups e parceria com empresas como Facebook, Microsoft e BNP Paribas, que estabelecerão seus próprios programas lá dentro.

Com todos esses avanços, a França está se tornando uma opção muito atrativa para empresas Brasileiras que desejam expandir para fora do país, e dois programas idealizados pelo presidente Macron vão facilitar ainda mais a vinda de empreendedores estrangeiros. Um deles é o French Tech Ticket, da qual o Gigloop faz parte, que é uma competição do governo que traz 70 startups estrangeiras todos os anos para a França, e lhes dá uma vaga em uma incubadora e um aporte financeiro. O outro é o novo visto para empreendedores e investidores, lançado oficialmente pelo presidente na conferência VivaTech, duas semanas atrás, em conjunto com um fundo de 10 bilhões de euros para financiar empresas inovativas.

Fica assim um convite, e sugestão, para que as startups brasileiras que estejam considerando expandir internacionalmente pensem na França como opção. O Gigloop e outras cinco startups tupiniquins se mudaram para cá na última edição do programa French Tech Ticket, e posso dizer que com certeza tem valido muito a pena para todos nós.


Fábio Gelbcke é CTO e fundador do Gigloop, plataforma que facilita a contratação de DJs para clubs e festivais. É também cofundador do site e canal Direito Em Tela, que oferece cursos de direito online e tem mais de 60 mil inscritos no YouTube. Fábio começou seus estudos no Instituto Militar de Engenharia mas hoje frequenta a École 42 em Paris, primeira universidade do mundo sem professores.