Aconteceu ontem, em São Paulo, a quinta edição do Congresso de Investimento Anjo, promovido pela Anjos do Brasil. O evento lotou o auditório da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, para debater os temas mais relevantes da atualidade para os investidores-anjo presentes.

O evento foi iniciado com a fala de Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae Nacional, uma das maiores entidades de apoio ao empreendedorismo do País. “É um prazer imenso poder participar deste congresso em um momento tão importante da vida nacional. O que estamos vivendo hoje é um choque entre a nação e o Estado, porque nos últimos anos a nação mudou muito, mas o Estado não. O País ainda é burocrático, corporativo e regulamentado por excesso, enquanto a nação quer liberdade para criar e fazer acontecer”, disse.

Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae Nacional

Cássio Spina, presidente da Anjos do Brasil, falou sobre as mudanças do mercado de investimento-anjo no País nos últimos seis anos, quando a organização foi criada. “Lá atrás, quando a Anjos nasceu, em um auditório lotado como este, apenas 70% dos presentes sabiam o que é investimento-anjo. Hoje nós vemos um auditório cheio de pessoas que convive com o tema diariamente e estão aqui para debater isto. Cada um de vocês é que faz este ecossistema acontecer, é isso que nós queremos: um ecossistema cada vez maior e mais colaborativo. Só assim nós poderemos ter cada vez mais impacto na economia e no crescimento do nosso País.”

Cenário

Cássio Spina apresentou também um estudo que mostra o cenário dos investimentos-anjo no Brasil no último ano. A boa notícia é que o valor dos investimentos ainda está em expansão. A má notícia, entretanto, é que a quantidade de investidores diminuiu do último ano para cá. Em 2016, R$851 milhões foram investidos em startups, o que representou um crescimento de 9% em relação ao período anterior apurado pela Anjos do Brasil. Na última pesquisa, o aumento em relação ao anterior foi de 14%.

“Basicamente, o número de investidores retraiu por questões de insegurança jurídica. Hoje já temos a Lei que pode nos dar um grande auxílio neste sentido, mas ano passado ela ainda não estava em vigor. Outro fator estrutural que a gente ainda sofre no Brasil é a taxa de juros. Agora, com a taxa de juros reduzida, esperamos que isto deixe de ser um fator desmotivador para os anjos”, explica Cássio.

Os HNWI (High-net-worth individual – pessoas de poder aquisitivo elevado e que são o perfil da maior parte dos investidores ou potenciais investidores) estão em queda por dois anos consecutivos. No último estudo, o número caiu 7%, chegando a 161 mil. No ano seguinte, o número caiu mais 8%. “Apesar da quantidade de HNWI estar diminuindo, o potencial para investidores ainda é muito grande. Temos hoje quase 150 mil pessoas nesta categoria, enquanto apenas 7 mil realizaram investimento anjo no último ano”, diz o presidente da Anjos.

Cássio Spina, presidente da Anjos do Brasil, realizadora do evento

O ticket médio por investimento, entretanto, subiu 11%. No último ano, cada investidor desembolsou em média de R$120 a R$300 por aporte. Ainda assim, os números brasileiros não são tão significativos se comparados ao resto do mundo. Nos EUA, foram investidos no último ano, US$21,3 bilhões, por 298 mil investidores. Na Europa, foram 6,1 bilhões, com 304 mil investidores. O mercado nacional representa 0,9% da média dos mercados europeu e norte-americano.

O PIB brasileiro representa cerca de 10% do norte-americano. Considerando esta relação, o Brasil tem potencial para investir, no mínimo, US$2,1 bilhões em startups anualmente, o que dá cerca de R$7 bilhões ao ano, diz o estudo.

Sobre o cenário de estímulo ao investimento-anjo, o estudo mostra que nos Estados Unidos, os investidores podem deduzir do imposto de renda de 10% a 100% do total investido, dependendo do estado. Na França, a dedução é de 25% do total investido. Na Inglaterra, a dedução é de 30% a 50% do total investido e isenção de imposto de renda sobre o ganho de capital.

Do que o ecossistema de investidores precisa, no Brasil, para chegar a um patamar como o do resto do mundo? “Comunicação direta com o Ministro da Fazenda e a Receita Federal para discussão sobre proposições de isenção de IR sobre ganho de capital e compensação de 50% dos investimentos em impostos devidos; disseminação para todos os congressistas para apoiarem projetos de lei para estímulo ao investimento-anjo, e atuação junto às escolas de magistratura e tribunais trabalhistas para entendimento da Lei Complementar 155/2016”, explica Cássio. “Não queremos renúncia fiscal. Na realidade, estas medidas aumentarão a arrecadação tributária e movimentarão a economia, com criação de postos de trabalho, entre outras coisas.”

Incentivos

Ainda neste tema, Paulo Funchal, da Grant Thornton Brasil, falou sobre o impacto dos impostos no investimento no País. De acordo com ele, os pontos de atenção para o fomento da atividade do anjo são: o acesso ao financiamento para startups é uma preocupação que cresce diariamente no Brasil; os bancos comerciais estão cada vez mais hesitantes em oferecer créditos a empresas sem ativos ou histórico bancário e, por isso, cada vez mais o capital próprio (equity) se torna mais importante para o desenvolvimento deste mercado.

É necessário, portanto, uma remoção urgente da barreira fiscal regulatória. “Este é um sistema complexo que cria desincentivo para empresas jovens, inovadoras e investidores para estes ativos. É necessária a criação de investimentos diretos por governos ou garantias para os anjos”, explica Paulo.

Para ele, os possíveis caminhos para fomentar o mercado anjo são a criação de um mercado financeiro que tenha regras adequadas para suportar o desenvolvimento das startups, concessões, criação de fundos de coinvestimento e incentivos fiscais. Este último, para ele, a parte mais importante.

Paulo Funchal, da Grant Thornton

Estes incentivos são particularmente importantes para anjos que investem em um portfólio, com um conhecimento prévio de que vários dos investimentos não terão sucesso e que essa perda deve ser coberta pelo sucesso de outra parte da carteira de sucesso. Para demonstrar como estes incentivos podem girar a economia de uma forma positiva, Paulo apresentou um estudo de caso de um anjo que aportou em 10 startups e vendeu as de sucesso após 5 anos, com os custos de salário de 50% das receitas líquidas e 12% de custos administrativos.

Com um aporte de R$400 mil em três empresas, tendo uma delas falido, outra não tendo dado lucro nenhum e uma terceira rendendo 10 vezes mais que o valor aportado, Paulo apresentou os seguintes números: a empresa que faliu arrecadou R$49.085 de impostos federais durante 5 anos. Com benefícios previdenciários e outras contribuições, o valor de impostos chega a R$96.605.

A empresa de retorno 0 gerou de impostos, durante o mesmo período, R$280.128, enquanto a que deu um retorno de 10 vezes o valor do investimento gerou R$3.927.039 em impostos federais, benefícios previdenciários e outras contribuições em 5 anos de atividade.

A avaliação de impostos do portfólio deste investidor-anjo, que aportou R$4 milhões em 10 startups e vendeu 100% do seu portfólio, mostrou que o total de impostos devidos chegou a R$7.940.391, entre impostos federais, imposto de renda e benefícios previdenciários arrecadados nos últimos 5 anos. “A taxa de retorno anual do portfólio para um investidor-anjo é de 31,7% com incentivos fiscais e de 14,2% sem os mesmos”, explica Paulo.

No prazo de cinco anos, a cada R$1 investido por um anjo gera R$2,21 em impostos e contribuições, R$2,89 em salários e R$0,73 em despesas. Ou seja, o poder multiplicador do anjo é de, a cada R$1, R$5,84 injetados na economia do País.

Premiação

Ao final do evento, aconteceu pela primeira vez a entrega do Prêmio Anjos do Brasil para Investidor Anjo 2017 e Empresa Investida 2017. Foram selecionados três premiados para cada categoria. “Este é um projeto que a gente já tem a algum tempo, e a gente entende que é muito importante reconhecermos o papel de cada protagonista para o ecossistema se fortalecer”, explica Cássio Spina. “Nós premiamos três investidores e três empresas, mas a premiação vai muito além disso. Significa que nós estamos conseguindo transformar uma realidade que era muito diferente até pouco tempo atrás.”

Segundo ele, os escolhidos foram selecionados a partir de critérios técnicos e objetivos quanto aos investimentos realizados, independente de serem ou não membros da Anjos do Brasil. “Queremos avaliar quem são os que, neste momento, estão muito ativos e contribuindo para o ecossistema. Por isso, nas inscrições, cada um deles proveu informações sobre o que tem feito no cenário da atividade nos últimos tempos”, concluiu.

Startups e investidores premiados no dia

Os investidores premiados na noite foram Claude Ricci, Guilherme Horn e Leonardo Teixeira. As startups vencedoras foram EasyCrédito, GeekHunter e Quero Quitar!.