PUBLIEDITORIAL

A SoulVox é uma startup cujo propósito é fazer com que pessoas que perderam a capacidade de falar possam acessar novamente a própria voz com agilidade. Isso é possível a partir de um software de comunicação assistiva que utiliza gravações antigas de voz da pessoa, quando elas existem, ou doações de vozes compatíveis com a dela.

A ideia de criar uma maneira de devolver a voz a quem não pode falar foi da arquiteta Marina Vaz. Em 2013, quando seu pai teve um câncer de língua e, conforme o tumor ia crescendo, ele ia perdendo a capacidade de falar, Marina gravava palavras do pai para que no futuro ele pudesse se comunicar com a própria voz. A ideia virou negócio quando Marina conheceu Thais Romanelli, fisioterapeuta com experiência de mais de 15 anos na área de reabilitação.

As duas viraram sócias, criaram o protótipo do software de comunicação e começaram a validá-lo com pacientes. “Fomos percebendo, cada vez mais, que era preciso ir além das tradicionais pranchas de comunicação. Conhecemos pessoas e famílias muito guerreiras que inventam a própria forma de se comunicar, mas isso ainda as restringe ao convívio familiar”, explica Marina. “A tecnologia deve muito para pessoas que estão encarceradas no próprio corpo. Mas estamos buscando uma que dê vazão a essas mentes, por meio da voz e com autonomia.”

Minha voz, minha alma

Artista plástica e arte-educadora Ana Amália Barbosa sempre soube o quanto a voz é poderosa para expressar o que queremos, pensamos, sentimos e quem somos. Mas a frase de sua autoria que dá título a essa matéria ganhou um sentido ainda mais profundo depois de uma terça-feira de julho de 2002, quando, aos 36 anos, no dia em que defenderia sua dissertação de mestrado na USP, ela sofreu um acidente vascular cerebral.

O AVC trouxe com ele a Síndrome de Locked In, ou Síndrome de Encarceramento. Desde então, Ana Amália movimenta apenas os olhos e levemente o queixo – e é assim que se comunica com o mundo, há 15 anos. Com suas capacidades intelectual, emocional e sensorial integralmente preservadas, Ana seguiu adiante. Ela dá aulas, defendeu tese de doutorado, escreveu um livro, mantém um blog, pinta quadros e hoje cursa o pós-doutorado. Tudo, no entanto, sem nunca mais ter usado a própria voz para se comunicar.

Isso mudou quando seu caminho cruzou o das fundadoras da SoulVox. Utilizando uma fita VHS de uma aula anterior ao AVC, o áudio foi recortado, tratado e inserido no software para que Ana pudesse, usando apenas o queixo, dizer com sua própria voz o que tinha achado da nova ferramenta: “Super interessante”. Ela e Ana Lia, sua filha que hoje tem 16 anos mas que na época do AVC era um bebê de um, caíram na risada ao ouvir aquilo. “Nossa, parece eu falando”, soltou Ana Lia, que até ali nunca tinha ouvido a voz da mãe. Uma prova de que, realmente, a voz devolve identidade e personalidade para quem está presa dentro do próprio corpo.

Minha voz, sua alma

A Soul Vox já ofereceu a 20 pessoas a possibilidade de voltar a usar a própria voz, e vai ampliar o uso do protótipo para outras dez, em junho. A startup, que em menos de um ano já ganhou quatro prêmios (Startup Weekend Saúde, Desafio Pfizer 2016, Prêmio Mulheres Tech in Sampa e Big Hackathon da ONU, na Campus Party), agora está em pré-campanha de crowdfunding para arrecadar dinheiro para o desenvolvimento de um software que garantirá ao usuário maior autonomia na comunicação, independente de prancha.

Em paralelo, a startup segue ampliando o acervo de vozes que são utilizadas quando o usuário não tem registros da dele. Durante o festival Path, em maio, uma cabine da SoulVox instalada em parceria com a rádio 89 FM coletou 402 vozes em apenas um final de semana. A compatibilidade é baseada em características pessoais, físicas e regionais, num pareamento entre doador e usuário.

“Foi muito bacana ver tanta gente querendo doar sua voz. Principalmente porque, quando conseguimos fazer com que uma pessoa seja capaz de se comunicar livremente e, mais ainda, usando a própria voz, estamos atendendo não só esta pessoa, mas toda a comunidade na qual ela está inserida”, diz Marina.

Acesse o site da SoulVox e conheça mais sobre o trabalho da startup.