* Por Marcos Barrosa

Certa vez, ao retirar meu carro de uma oficina mecânica, conheci Benjamin. Um rapaz simpático que, antes dos 30, deixou a Nigéria para fazer um curso de mecânica em São Paulo e por aqui ficou. Há menos de um ano no Brasil, Benjamin já aprendeu o português, sua terceira língua depois do inglês e do Urhobo, e uma profissão.

Será que no futuro haverá oportunidades para jovens talentosos e esforçados como Benjamin? A resposta a essa pergunta passa por uma questão bastante debatida ultimamente: o impacto do avanço da inteligência artificial (IA) e da robótica no mercado de trabalho.

Desde o início da revolução industrial, a força de trabalho humana vem sendo substituída por trabalhos mecanizados e, como resultado, acaba migrando para outros setores. Por exemplo, na Inglaterra do século XIX passou-se a utilizar tratores movidos a vapor para o arado das plantações, ao passo em que muitos trabalhadores agrícolas migraram do campo para as indústrias que estavam em franca expansão e carentes de mão de obra.

Atualmente, porém, a troca de profissão motivada pela substituição do homem pela máquina se torna muito mais complexa. No nosso exemplo do século XIX, o que estava sendo substituído, em última análise, era a energia muscular dos camponeses, que poderia ser facilmente empregada em outras tarefas nas indústrias. Já nos dias de hoje, os avanços da inteligência artificial ameaçam atividades cognitivas que demandam especialização e preparação das pessoas.

Em um recente estudo da Universidade de Chicago, o professor Michael Gibbs mostra que o avanço tecnológico vem alterando drasticamente o mercado de trabalho e redefinindo as qualidades que são mais valiosas em um empregado. O estudo aponta que os trabalhos rotineiros que não demandam capacidade analítica, criatividade ou competências sociais vêm sendo progressivamente automatizados, enquanto profissões que exigem tais capacidades continuam sendo ocupadas por pessoas.

Por exemplo, a interação com o paciente permanece sendo feita por enfermeiros e as cirurgias, embora utilizem equipamentos robotizados, continuam sendo feitas por cirurgiões. Entretanto, as análises de exames diagnósticos estão, cada vez mais, sendo realizadas por máquinas.

Essas alterações no mercado de trabalho são mínimas frente ao que está por vir. Se tentarmos fazer esse mesmo questionamento em relação o mercado de trabalho das próximas gerações a análise se torna ainda mais nebulosa.

Renomados pesquisadores e empreendedores de tecnologia destacam dois caminhos possíveis para o trabalho humano após o advento da inteligência artificial. No primeiro, haveria uma integração crescente entre homem e máquina de modo a melhorar as capacidades cognitivas e físicas das pessoas.

Parece coisa de ficção científica? Em Março 2017, Elon Musk anunciou o lançamento da empresa Neuralink, dedicada a melhorar a capacidade do cérebro humano com utilização de IA seguindo os passos de Bryan Johnson com a empresa Kernel.

Essa visão também é compartilhada pelo historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Sapiens – Uma breve história da humanidade. Para Harari é possível que a humanidade evolua para uma nova espécie, melhorada artificialmente. Outro caminho possível citado por Harari, seria ainda mais melancólico. A humanidade se resumiria a uma massa inútil de pessoas improdutivas.

O britânico, Nobel de física, Stephen Hawking vê no advento da Inteligência Artificial uma ameaça para a própria existência da humanidade: “Ela (IA) poderia decolar sozinha e se redesenhar em uma velocidade ainda maior. (…) Humanos, que são limitados pela lenta evolução biológica, não poderiam competir, e seriam suplantados.”

Teorias evolucionistas à parte, é notória a crescente e acelerada influência da evolução tecnológica no nosso cotidiano, na nossa sociedade e no mercado de trabalho. Para nos prepararmos para essas mudanças, é imperativo estar informado dos tais avanços e rumos que os mercados tomam, assim como estar capacitado para mudanças e em competências que mais dificilmente serão substituídas por máquinas. Em outras palavras, temos que ser, cada vez mais, humanos.

É, talvez o futuro reserve espaço para as próximas gerações como Benjamin…

Fontes:
https://newschicagobooth.uchicago.edu/newsroom/machines-and-modern-day-labor-market
http://www.economist.com/news/special-report/21700758-will-smarter-machines-cause-mass-unemployment-automation-and-anxiety
http://www.cnbc.com/2017/02/21/technology-ceos-back-basic-income-as-ai-job-losses-threaten-industry-backlash.html
http://nordic.businessinsider.com/elon-musk-says-the-future-of-humanity-depends-on-us-merging-with-machines-2017-2
https://www.theverge.com/2017/3/27/15077864/elon-musk-neuralink-brain-computer-interface-ai-cyborgs
Livro: Sapiens – Uma breve história da humanidade
Autor: Yuval Harari
Editora: Harper

Marcos Barrosa é um empreendedor de tecnologia brasileiro com formação em engenharia, gestão de projetos e business. Fundador da ScorePointer, a startup vencedora da Global New Venture Challenge na University of Chicago, e da Watermelon Tecnologia, empresa com 400% de crescimento anual auxiliando startups a saírem do papel. Marcos leciona empreendedorismo como instrutor convidado, mentor e avaliador de competições de startups na UFABC e UNICAMP.