Aconteceu neste fim de semana, 10 e 11 de junho, a sétima edição da Virada Empreendedora em São Paulo. O evento é realizado pela Rede Mulher Empreendedora, e contou com mais de 100 palestras, 11 arenas de conteúdo e um público de mais de duas mil pessoas.

“A Virada deste ano recebeu conteúdos e atividades para homens e mulheres de todas as idades. A arena Tech For Teens contou com palestras e workshops para jovens de 11 a 17 anos, estimulando a veia empreendedora nos mais jovens. E a arena de Empreendedorismo Social apresentou discussões com temas como “Mais e melhores negócios para terceira idade: oportunidades em um mercado em rápido crescimento”, além de falar sobre os desafios de ter o próprio negócio na terceira idade, exercitando o espírito empreendedor nos mais experientes”, explicou a curadora do evento Ana Fontes, também fundadora da RME.

Ana Fontes, curadora da Virada

Na área de exposições, alguns dos destaques foram os projetos de impacto social que puderam apresentar gratuitamente seus trabalhos ao público do evento. Foram selecionadas dez iniciativas que solucionam problemas em suas comunidades e cumprem o critério de transformação, promoção e desenvolvimento de parcelas da população em situação de vulnerabilidade e/ou desigualdade social. Entre os projetos, estavam ações para refugiados, soluções ambientais, mídia negra e afroempreendedorismo. A startup SoulVox, por exemplo, levou para o evento uma cabine onde voluntários puderam doar suas vozes para a comunicação de pessoas que perderam a fala.

Diversidade

Na Arena Startups, o primeiro painel abordou a diversidade nas equipes das startups. Juliana Assunção (RankMyApp), Mariana Dias (Gupy), Rodrigo Scotti (Nama), Claudio Ferreira (Fhinck) e Danilo Picucci (Google Campus), discutiram a necessidade do debate da diversidade de gênero, religião, sexualidade e classe social dentro do ambiente de trabalho.

“Antes de tudo, para nós, foi necessário encontrar pessoas que suprissem a necessidade da startup. Nosso time inicialmente era composto apenas por homens, e acreditamos que trazer uma mulher para a equipe acrescentaria novas visões”, explica Rodrigo. Hoje a Nama tem três mulheres na equipe, que foi fundada apenas por homens.

Painelistas

Juliana, cofundadora do RankMyApp, conta que entrou para a empresa quando os outros sócios, três homens, fizeram questão que a próxima pessoa a integrar a equipe fundadora fosse uma mulher. “Fundadores e CTOs quase sempre são homens. Acontece com frequência de eu ser a única mulher em uma posição como esta. Infelizmente, ainda há poucas mulheres desenvolvedoras nas empresas, mas aos poucos, este cenário está mudando no mundo das startups”, diz.

Para Cláudio, da Fhinck, a necessidade de ter mulheres na equipe não foi tão explícita desde o início. “Entrevistamos pessoas interessadas para os nossos cargos independente de gênero. Nem sempre utilizamos profissão de formação como um filtro para contratação, acreditamos que o melhor é levarmos para dentro da empresa pessoas que tenham a ver conosco. Mas, claro, diversidade traz para dentro de casa visões de fora que você pode nunca ter imaginado”, completa.

Diversidade de gênero é importante, mas não é a única coisa que deve ser levada em conta na hora de desenvolver uma equipe estruturada onde um valores mais importantes é o respeito mútuo. “Muitas empresas não falam sobre e não se importam em discutir sexualidade com seus funcionários. E eu acredito que não falar é tão ruim quanto se omitir. É necessário que as pessoas gays da sua empresa saibam que ali ela será aceita e acolhida”, diz Mariana. “Hoje, para tornarmos mais natural o processo de aceitação de diversidade dentro da startup, falamos abertamente sobre sexualidade, religião e gênero”.

“É uma questão de cultura da empresa como ela lida com esse tipo de assunto. Se a pessoa se sente feliz e confortável para ser quem ela é no ambiente de trabalho, isso reflete na produtividade dela e no clima de todos os colaboradores ao redor. Se um funcionário não assume sua sexualidade no trabalho porque tem medo, isso é tóxico para todo mundo”, diz Rodrigo. “E não só sobre esse tema. Quando falamos sobre religião e classe social, também. É necessário darmos feedbacks e nos policiarmos o tempo todo para não falarmos algo que pode soar ofensivo a quem tem uma realidade diferente da sua. Dentro de uma empresa convivemos com pessoas diferentes de nós em todos os âmbitos, e o convívio só dá certo e a empresa só progride quando todos nós estamos à vontade ali dentro”, completa o empreendedor.

Investidores

Na Arena Investidores, Maria Rita Spina, fundadora da Anjos do Brasil, falou sobre o que os investidores procuram em uma startup na hora de investir. Em termos práticos, a investidora disse que proposição de valor; perfil dos empreendedores; potencial de mercado e escala; capacidade de entrega; modelo de negócios; inovação e diferencial em relação à concorrência e chance de sucesso do negócio são os tópicos que devem ser observados pelo empreendedor quando for a hora de se reunir com o anjo.

De acordo com Maria Rita, a cada 100 startups que buscam investimento, cerca de 2 conseguem. “A sua chance de fazer parte desta pequena porcentagem aumenta consideravelmente quando você está preparado para falar tudo o que o investidor precisa ouvir no seu pitch“, explica.

Maria Rita Spina

Na proposição de valor, é preciso deixar claro quais serão os benefícios entregues para solucionar o problema do seu cliente. “Soluções ‘nice to have’ são super bacanas e todo mundo gosta, mas é uma ideia arriscada porque a moda pode pegar ou não. Soluções reais para problemas reais são o que todo investidor, no fundo, procura”, diz.

A dica dela é perguntar-se, sobre o seu produto, antes de apresentar o pitch: existe um problema real? A solução proposta resolve o problema? Os benefícios oferecidos são relevantes para o cliente? O público está disposto a pagar pela solução? A oferta para o mercado está definida e é relevante? O que o produto oferece é único no mercado? “Esta última pergunta pode parecer meio óbvia, mas é muito frequente o empreendedor não conhecer seus concorrentes e acreditar que sua solução é única e revolucionária no mercado”, explica.

Sobre este assunto, a inovação/diferencial do produto a ser ofertado na hora da busca do aporte pelo investidor-anjo é um tópico que merece atenção especial. De fato, existe inovação no produto? Se sim, qual? É importante atentar-se também se a inovação é incremental ou disruptiva, se é relevante para o mercado proposto e se há alguma barreira de entrada no mercado, por exemplo, com patenteação. Para saber mais sobre o pitch ideal acesse aqui.

Patentes

Para falar sobre este tema que tira o sono de muitos empreendedores, a advogada do Baptista Luz Advogados, Fernanda Foizier, palestrou na Arena Startups sobre propriedade intelectual para startups. O Acordo TRIPs (Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights) é, em tradução literal, um acordo sobre os aspectos dos direitos de propriedade intelectual relacionados ao comércio. É um tratado internacional que integra o conjunto de acordos assinados em 1994 durante a criação da Organização Mundial do Comércio.

Neste acordo, dentro da legislação nacional, há três tipos de proteção de propriedade intelectual: a Lei de Propriedade Industrial; a Lei dos Direitos Autorais e a Lei de Software. Dentro da primeira, estão protegidos os desenhos industriais, patentes e marcas. No segundo, objetos intelectuais e software. Protegidos como Segredo de Negócio estão know-how e técnicas. Os nomes de domínio não estão especificados em nenhuma das leis, podendo ser protegidos ora como propriedade industrial, ora como direito autoral.

A Virada Empreendedora aconteceu no prédio da FGV, em São Paulo

Ideias podem ser protegidas como direito autoral? Não. Só se encaixa nesta categoria uma obra que é materializada, tornando-se tangível. “Se eu falo a minha ideia, ela não é protegida por direito autoral porque não está materializada”, explica a especialista. Isso não significa, entretanto, que não existam formas legais de proteger uma ideia antes de torná-la um projeto real.

Dentro do direito autoral, são regulados dois tipos: o direito moral e o patrimonial. “O direito moral é o direito do próprio autor da obra. Este não pode ser cedido para ninguém. Uma vez que você cria, a obra é sua. Já o patrimonial é o direito de explorar esta obra comercialmente. Este, sim, pode ser cedido”, diz Fernanda. Estas cessões devem ser feitas por meio de contratos firmados que regulem todas as questões relacionadas a esta exploração, como por quanto tempo ela vai acontecer e como vai, por exemplo.

“Se na sua empresa alguém está te ajudando a desenvolver um software, por exemplo, aquilo é protegido. É importante ter em mente que o funcionário precisa ceder o que ele produziu para a empresa, porque no futuro ele pode reclamar direito patrimonial sobre o software e pedir a divisão dos lucros ou até, por ser autor da obra, abrir outro negócio e se tornar concorrente da sua empresa”, diz. Saiba mais sobre o tema aqui.

Marketing

Na Arena Casa das Empreendedoras, um dos assuntos foi “como atrair novos clientes com pouco (ou zero) orçamento?”. A resposta? Marketing digital. Quem falou sobre isso foram Janaina Ramos (Porto Seguro), Nara Ianchan (Cuponeria) e Barbara Almeida (Dress and Go).

“É essencial utilizar ferramentas para saber a satisfação do seu cliente e quantos deles recomendariam sua marca para terceiros. Um cliente satisfeito que teve uma boa jornada de compra dentro do seu site pode trazer dois, que trarão mais quatro, e assim por diante”, explica Janaina. “Existem ferramentas online gratuitas para te ajudar com estas métricas”, diz.

Outra dica da head de Crescimento da Porto Seguro foi encontrar parceiros que tenham a ver com a sua marca. “Segmente seu público-alvo e encontre parceiros que tenham sinergia com a sua startup. Assim, vocês se ajudam e o poder de alcance da sua marca aumenta bastante”. Entretanto, ela diz que não existe “bala de prata” no segmento do marketing digital. “São pequenas atitudes. Você testa algo novo, mede a satisfação do usuário, tenta de novo, mede de novo…São estas métricas que vão ajudar seu negócio a crescer.”

Para ela, investimento em adwords é importante, mas não é tudo. Investir dinheiro em mídia paga deve ser um suporte para outras ações que ajudem a converter as vendas. “Nem sempre investir todo o dinheiro em ads vai te ajudar nesta conversão. A aquisição orgânica também é fundamental, porque ela vai te mostrar quais são os seus erros e acertos no marketing”, diz.

Painelistas

Nara Ianchan, fundadora da Cuponeria, diz que algo que funciona muito bem na sua startup é estudar a estratégia de marketing que outras grandes empresas de sucesso tiveram. “Nós sempre incentivamos nossos colaboradores a lerem sobre marketing, apps, cupons ou qualquer coisa relacionada ao nosso segmento. Se toda a equipe estiver alinhada neste sentido, fica muito mais fácil falarmos todos a mesma língua e atingirmos o propósito comum”.

Para Barbara, ouvir toda a equipe da empresa é fundamental. “Nós convidamos a equipe da Dress and Go para sugerirem ações e sempre o autor da melhor ideia é convidado para uma reunião mensal da diretoria no Google Campus. Não são só os CEOs e diretores que têm grandes ideias. É ouvindo quem lida diretamente com o seu cliente que você vai entender as necessidades não só do público, mas da equipe também”, finaliza.

Ana Fontes, fundadora da RME e curadora do evento, finaliza a VII Virada Empreendedora:

Para saber mais sobre as próximas ações como esta, acompanhe o Startupi.