* Por Felipe Oliva

Quem me conhece sabe que não gosto muito de escrever sobre empreendedorismo, porque acredito ser uma experiência extremamente individual para cada empreendedor e também por não acreditar em fórmulas para replicar o sucesso.

Por isso, minha pretensão aqui é muito mais de compartilhar, de forma cômica, uma aventura na Patagônia, aproveitando para traçar alguns paralelos com o universo empreendedor. Espero que goste!

Depois de quase três anos empreendendo sem férias, achei que era hora de (e fui muito incentivado a) tirar férias. Pois bem, para onde?

Como sempre vi fotos lindas de paisagens, optamos pela Patagônia. Isso mesmo, sem planejamento, decidimos pela Patagônia – fazer as coisas sem planejamento não pode ser bom, aguarde.

Para não me prolongar muito, vou detalhar a experiência que tive no trekking de Torres Del Paine. É aqui que a história fica engraçada.

Estávamos em Puerto Natales (uma cidade bem pequena) e fomos à única agência aberta para comprar o passeio para visitar as Torres. Eis que a atendente me fala que é uma trilha de quase cinco horas para chegar lá. Aí eu pensei: “Poxa, cansativo, mas deve dar pra fazer um piquenique bem legal”.

Mal sabia o que estava por vir…

No dia seguinte, o transfer nos pegou no hostel às 6h da manhã. A temperatura estava abaixo de zero.

Depois de duas horas de viagem, começamos o trekking. O guia pergunta se todos já fizeram trekking e, para minha surpresa, somente eu e minha namorada não tínhamos experiência. Hum… será que isso vai ser um problema?

E lá vamos nós…

Lá estava eu de calça jeans, sapatênis (sim, o mesmo que uso para ir em reuniões) e uma jaqueta para o inverno paulistano. Totalmente despreparado.

Começamos o trajeto e vamos em frente. O ritmo me parece rápido, porque não conseguimos nem tirar fotos direito, mas tudo bem, avançamos tranquilos.

Não sou sedentário, mas também não sou fitness, contudo no auge dos meus 26 anos e depois de duas horas de caminhada com altos e baixos, já estou exausto. Primeira parada para comer.

Sete minutos de descanso? E o piquenique? Nós tínhamos cogitado levar um vinho (é sério!). Não podemos ficar mais, porque escurece cedo e é muito perigoso fazer a trilha no escuro.

Bom, vamos retomar, então. Afinal, faltam mais três horas para chegarmos às Torres. Aqui, começamos um trecho que sai dos 175 metros de altitude e acaba em 875 metros. Ou seja, uma bela subida.

Depois de duas horas, já não estou aguentando mais as pernas e eu e a Priscilla (minha namorada) somos os últimos do grupo. Quando encontramos os outros, fazemos uma parada de dois minutinhos para o guia anunciar: “Aqui começa o trecho mais difícil, ele é muito íngreme e acidentado com rochas. Deve demorar mais uma hora”.

A primeira coisa que eu penso: “uma hora minha ou uma hora sua? Esse cara deve estar de sacanagem”.

Nos primeiros 10 metros da subida já não aguento mais e pergunto para Priscilla: “Será que o Ubercoptero chega aqui?”.

E então, começamos a subir. Vamos indo mais devagar, quase não apreciamos a paisagem direito, pois estamos com dores, cansados, os ventos chegam à 100km/h e eu com uma jaqueta para o inverno paulistano.

O guia olha minha cara de dor e pergunta: “Estás bien?”. Para não perder o senso de humor, respondo: “Estoy moriendo. Me gusta mi escritorio”.

Foi mais ou menos na metade da subida que pensei em escrever esse artigo (acho que foi o meu jeito de não pensar em parar). Pensei que seria engraçado contar como nunca estamos preparados para empreender, mas se é isso que queremos, não podemos desistir.

Nunca estive preparado para empreender, quiçá gerir uma equipe de mais de 20 pessoas, mas sempre gostei de tudo isso. Várias pessoas falaram pra eu seguir uma carreira e ter sucesso nela. O próprio guia comentou para desistir e começar a voltar no meu ritmo (afinal, a volta iria demorar mais cinco horas de caminhada).

Na Squid, criamos um rito que sempre que alguém viaja, precisa tirar uma bela foto com nossa camisa. Aqui, encontrei mais uma motivação para seguir até o topo.

Não sinto mais as pernas, não sinto mais o nariz, nem as orelhas, mas cheguei. Cumpri a missão.

15 minutos de descanso e começamos a descer.

Com cerca de oito horas de caminhada, uma mulher do grupo está apertada e precisa fazer o número dois no mato, mas está incomodada com o cenário. Uma suíça com muita experiência em trekking apenas olha pra ela diz: “Não pense, apenas vá ali e faça, se pensar muito, vai desistir”.

Enfim, retornamos ao transfer e voltamos.

E o que eu aprendi de tudo isso?

– Aproveite a caminhada. Às vezes estamos tão focados com metas e KPI’s que esquecemos de aproveitar a experiência.

– Esteja preparado. Você vai fechar grandes contratos, vai perder clientes e vai ouvir muito não. Comemore quando for preciso e não desanime quando o ruim acontecer.

– Persista. Muitas pessoas vão falar para você desistir. Mas, se empreender é o que te motiva, não se contente com menos. Vá atrás de pessoas que tenham a mesma vontade.

– Planeje sempre que possível. Ninguém tinha me contado que seria uma trilha dos infernos e iria ventar pra caramba, mas se estivesse equipado, sentiria menos as adversidades.

– Suje as mãos (e os pés). Quando não souber o que fazer, faça, erre e corrija rápido. Não fique teorizando muito.

Próxima viagem: Caribe!

Ficamos 15 minutos no topo, depois descemos. O “sucesso” durou pouco. Por isso, antes de sair por aí querendo escalar montanhas, pense direitinho o que é sucesso pra você =)

P.s: quem quiser ajuda com um roteiro para a Patagônia, é só chamar!

* Felipe Oliva é cofundador e CEO da Squid