Na última quinta-feira (18), o Startupi e o Cubo reuniram executivos de inovação e CEOs de grandes empresas para discutir o tema “Grandes empresas e startups: Qual o melhor caminho?”. O objetivo do encontro foi debater as várias formas de aproximação e investimentos pelas corporações no ecossistema de startups. Marcou também o primeiro de vários eventos que o Startupi volta a realizar este ano. Segundo Flavio Pripas, Diretor do Cubo, o evento com o Startupi, focado em Corporate Venture, foi o pontapé inicial de uma série de Programas que irão segmentar e estruturar a grade de eventos realizados na instituição.

Entre os palestrantes e painelistas estiveram presentes executivos do Itaú, BMG, Grupo Positivo, Bossa Nova Investimentos, Altivia Ventures, além de consultores de inovação e empreendedorismo.

O próprio Cubo é um grande exemplo de iniciativa de uma grande empresa para se aproximar do ecossistema. O Itaú percebeu que devido às inovações, as transformações estavam acontecendo cada vez mais rápido, e pelo tamanho da sua estrutura, não conseguira se aproximar das startups, por isso, durante uma conversa com a Redpoint e.ventures, decidiu criar uma iniciativa de fomento ao ecossistema. “Desenhamos o Cubo para ser a plataforma mais aberta de fomento ao empreendedorismo para que pudéssemos preencher uma lacuna de densidade onde tivéssemos um local com 600 pessoas se conectando todos os dias para falar sobre empreendedorismo, novos modelos de negócios, tecnologia, novas formas de trabalhar e inovação”, destaca Flavio Pripas.

Flavio Pripas, Diretor do CUBO

Hoje, com 1 ano e oito meses de atuação, o espaço conta com 56 startups residentes e apoio de 11 grandes empresas: Accenture Digital, Cisco, Foresee, Gerdau, Iugu, Mastercard, Microsoft, Rede, Saint Gobain, AES e Tim.

As grandes empresas realmente acordaram para o momento que está acontecendo e estão buscando meios de se aproximar das startups. A inovação também passou a ser um tema recorrente e sua aderência está cada vez mais presente nas empresas. Apesar disso, Marcelo Nakagawa, Consultor de Empreendedorismo do MDIC e Bradesco, conta que diversas vezes em conversas com grandes empresas a maioria dos executivos não fazem ideia do que está acontecendo na quarta revolução industrial e não sabem qual será a grande disrupção no seu mercado nos próximos 4 a 5 anos.

“Todas as mudanças que estão acontecendo no mundo da tecnologia está causando ou vai causar um impacto absurdo em todas as empresas e por isso, as principais companhias estão se movimentando e não só as digitais, mas também as tradicionais”, comenta o Consultor.

Marcelo Nakagawa, Consultor de Empreendedorismo MDIC e Bradesco

Marcelo e Cassio Spina, CEO da Altivia Ventures, são instrutores especialistas do Startupi Education para treinamentos focados no mercado corporativo, com o objetivo de ajudar as grandes empresas a desenvolverem projetos de inovação com startups e até mesmo criar Corporate Ventures, movimento que, desde a década de 60 existe nos EUA e que está chegando ao Brasil mais recentemente. Eles usam referências e modelos internacionais adaptados para a realidade do Brasil e já ajudaram empresas como Cyrela, Positivo e Bradesco a criarem programas efetivos com startups, com foco em resultados.

Eventos, Mentoria, Hackathon, Aceleradora, Incubadora, Coworking, por onde começar?

Cassio Spina afirma que o Corporate Venture é uma forma poderosa para criar inovação para uma empresa, mas não é algo simples e existem diversos casos que não foram bem sucedidos. Antes de qualquer coisa é preciso entender qual a necessidade da sua empresa e lembrar que cada grande empresa tem uma necessidade diferente, por isso é preciso pensar em metas e estatísticas para só depois pensar nas iniciativas/ferramentas que podem ser utilizadas. “Empresas que decidem fazer um Hackathon, por exemplo, só porque está na moda, achando que é a melhor forma de interagir com as startups tem grande chance de dar errado. Não queremos isso, queremos iniciativas bem sucedidas, pois só assim o ecossistema irá se fortalecer”, destaca Cassio.”É preciso pensar, planejar e compreender que existe um grande trabalho por trás do Corporate Venture, não é da noite para o dia que isso acontece.”

Cassio Spina, CEO da Altivia Ventures

Quais as barreiras para inovação em uma grande empresa?

Segundo Marcelo, em pesquisas de mercado, inovação aparece como a quinta prioridade da empresa, mas no dia a dia a inovação não está entre as principais prioridades da companhia e você percebe isso na rotina dos funcionário. Quase todas as grandes empresas também se enrolam com a pergunta mais básica: O que é inovação? “É preciso definir inovação, colocar objetivos e metas para todos dentro das corporações para que existam resultados efetivos”, afirma Marcelo.

Muitas empresas querem criar programas para startups, mas esquecem de olhar para dentro também. É importante lembrar que são mundos totalmente distintos, complementares, mas que vivem realidades totalmente diferentes. A grande empresa, por exemplo, precisa de processos e a startup é ao contrário, vai mudando diariamente, por isso a grande empresa precisa pensar em não matar a inovação. “Adaptação é a palavra para qualquer empresa hoje em dia”, enfatiza Cassio.

Para Cassio, “Grande empresa tem aversão a risco e startup é risco! Assim como no investimento-anjo, de 10 startups que você investir é possível que apenas uma dê certo. A startup vai falhar, e as empresas precisam estar preparadas para isso, aliás, todos os níveis hierárquicos. Também é preciso aprender com o erro para acertar e acompanhar a velocidade startup. E não é só a grande empresa que precisa se adaptar, a startup também precisa estar pronta para interagir com a grande empresa, alinhar as expectativas com a companhia e entender quais valores podem ser transmitidos, ou seja, é uma combinação de coisas. As altas demandas de capital para inovação tradicional, cultura organizacional e a falta de talentos são fatores que impedem o desenvolvimento de inovação nas grandes corporações. Por isso o C-level precisa ser o grande sponsor desse negócio, para impactar tanto externamente quanto internamente”, conclui Cassio.

Grandes empresas que criaram programas para se aproximar das startups

Grupo BMG e Bossa Nova Investimentos

Um dos destaques do encontro foi o Painel com grandes empresas, moderado por Geraldo Santos, Diretor geral do Startupi. Rodolfo Santos, Diretor do Grupo BMGUpTech, contou detalhes sobre as iniciativas do grupo. Por incrível que pareça, a ideia e o interesse por iniciativas voltadas para esse mercado partiu de Doutor Flávio, filho do fundador do BMG, que hoje está com 89 anos. Segundo Rodolfo, o patriarca é um interessado prospector de novas oportunidades e se motivou no negócio ao ouvir o pitch de uma jovem. Para iniciar, o Banco fez uma parceria com a Rocket Internet, fundo alemão, e trouxe para o Brasil a Lendico, plataforma 100% online de empréstimos. O BMG também investe em agronegócio energia, resíduos e logística, e então criou o BMG UpTech para investir em startups de base tecnológica para conectar com essas áreas que já atua ou com parceiros do banco. O grupo possui também o BMG Digital Lab, plataforma de conexão entre startups e o banco. Rodolfo conta que um dia levaram 8 startups e colocaram todo o board do banco para assistir e conhecer as soluções. O resultado foi que 6 startups farão um piloto com o banco.

E não para por aí! Em março deste ano o Grupo anunciou um aporte de R$100 milhões na Bossa Nova Investimentos com o intuito de investir em 1000 startups. Foi a primeira vez que um “banco” entrou de sócio e investiu recursos próprios em uma Micro Venture Capital Brasileira para pulverizar aportes no estágio pre-seed e Seed Money na LATAM e USA.

João Kepler, Sócio da Bossa Nova Investimentos, também participou do encontro e contou que já tinham recebido outras propostas, pois as grandes empresas estão olhando para esse mercado, mas para tomar a decisão, levaram em conta outros pontos além do dinheiro, como por exemplo, o espírito empreendedor do Dr. Flávio que deu vários insights do desejo de ser pioneiro em algo voltado para startups e seu filho, Ricardo, que possui grande experiência em investir em jovens jogadores de futebol, o que, segundo Kepler, tem uma relação muito grande com o universo das startups pois o investimento-anjo é feito no estágio inicial do negócio visando o crescimento da startup.

“Ficamos muito felizes com a decisão, continuamos com a liberdade de fazer investimentos, o BMG é um banco tradicional, mas com mentalidade moderna de ação e nos dá liberdade de operação. Nossa meta é investir em mil startups em 5 anos “, comenta João Kepler.

Grupo Positivo Tecnologia

Jacques Benain, Diretor de Novos Negócios do Grupo Positivo, contou que a companhia há 4 anos dependia 100% do mercado de PC. Em 2013 foram vendidas 15 milhões de unidades de PC e no ano passado, apenas 4 milhões e meio, ou seja, houve uma queda de 70% nesse mercado. A Positivo percebeu a necessidade de se posicionar em outros mercados e conseguiu entrar na onda dos smartphones. As vendas de celulares que cresceram 149% em termos de receita em 2016 representaram cerca de um terço do faturamento da companhia no período.

Assim como o Dr. Flávio para o BMG, a Positivo conta com Hélio Bruck Rotenberg, que fundou a companhia aos 27 anos, e carrega a alma empreendedora dentro da empresa. Jacques, que está na empresa há dois anos e meio, conta que a ideia da Positivo era estar em outras áreas de negócio e uma forma que encontraram foi se aproximar das startups.

A companhia conta com duas empresas investidas, uma na área de tecnologia médica e outra agrícola e Jacques contou em primeira mão durante o evento do Startupi sobre o lançamento do Programa Inova Positivo, que será anunciado para o mercado em breve. O que podemos adiantar é que a ideia é fazer mais investimentos em startups para que os negócios possam crescer e virar áreas de domínio da Positivo.

“Percebemos que precisávamos estar mais ativos nesse mercado e não apenas ficar recebendo sugestão de startups do mercado, por isso decidimos criar o programa que foi elaborado junto com a Altivia Ventures. Entendemos que essa integração nos fará abrir mão de controles e assumir riscos, o que muitas vezes não é algo simples, mas necessário”, destaca o executivo.

Itaú

Reynaldo Gama, Country Manager do Itaú, responsável pela gestão dos negócios com startups no Cubo, conta que a ideia inicial do projeto era abrigar apenas fintechs, mas perceberam que ao ampliar o leque de mercado ajudaria a mudar processos internos do banco, principalmente nas áreas de compras, jurídicas e segurança da informação. Ele conta que já chegaram a fazer 40, 50 reuniões para falar sobre as startups, mas nada ia para frente, pois o banco é extremamente hierárquico, quer mitigar riscos e sabemos que um banco com mais de 90 anos, com cerca de 900 funcionários não muda da noite para o dia.

“A principal diferença que temos feito com o Cubo é a mudança de cultura e de processos dentro do banco”. Reynaldo conta que a primeira startup que contrataram para o banco levou quatro meses, o que é tempo demais e muitas vezes pode até matar a startup, por isso hoje isso acontece de 10 a 15 dias úteis. Outra mudança que também ocorreu foi que agora toda startup que entra no Cubo, já nasce homologada no banco. “Só em 2016 fizemos mais de 20 projetos com startups do Cubo, ainda é uma iniciativa nova, mas aprendemos bastante o que fazer e o que não fazer”.

Lembrando que para entrar no Cubo a startup precisa ter um produto desenvolvido, modelo de negócio testado, clientes, resolver um problema real e potencial de escala, ou seja, uma startup pronta para oferecer serviços para uma grande empresa.

Startupi

Geraldo Santos , Diretor Geral do Startupi, foi quem conduziu o encontro e moderou o painel com as grandes empresas. Ele enfatizou que, para gerar resultados, é extremamente importante criar uma cultura startup e mudar o mindset tanto do empreendedor quanto dos executivos das grandes empresas, em todas as áreas de negócios. “Se o empreendedor não estiver preparado e não souber relacionar-se com clientes corporativos, não adianta ter uma solução disruptiva. A grande empresa precisa entender que o risco existe, mas se ela quer inovar de forma ágil, é preciso quebrar paradigmas e processos e se planejar mito bem antes de dar o primeiro passo ou executar qualquer ação que envolva os dois mundos”, afirma.

Geraldo Santos, Diretor Geral do STARTUPI

Geraldo também destaca que esse movimento de startups com grandes empresas não tem mais volta. Ele conta que em 2012 estava participando de um grande evento no Vale do Silício e ficou impressionado, pois metade das 40 startups que estavam apresentando um pitch tinham no time uma pessoa mais senior. Desde então ele vem fomentando este tema no Brasil todo em palestras e eventos. “No palco junto com o time haviam muitos ex-executivos que tinham saído de grandes corporações ou de grandes empresas de tecnologia e que traziam uma super bagagem de experiência de negócios, em determinados setores como financeiro, varejo, saúde, entre outros, o que os empreendedores muitas vezes precisam. Isso mostra que existe um caminho muito claro para o CIO e para startup, enxerguem isso como uma oportunidade de negócio ou até mesmo de continuidade de carreira para o CIO, neste caso, uma nova carreira empreendedora”, destaca Geraldo.

Segundo ele, unir o conhecimento e experiência, muitas vezes segmentado, focado em um mercado específico, com a velocidade e tecnologia inovadora de uma startup é o casamento perfeito e é para isso que precisamos abrir os olhos aqui no Brasil e entender que apenas aproximar-se das startups não é mais suficiente, é necessário planejamento, diagnóstico, definição das expectativas internas, gerar um plano de ação customizado e daí sim partir para ações como Hackathons, desafios startups, aceleração entre outros diversos caminhos existentes.

Esse foi apenas um dos encontros que o Startupi realizará para debater o tema e a integração entre startups e grandes empresas. Quer participar? Fique ligado aqui e nas nossas redes sociais para ficar por dentro dos próximos temas e datas. Quer conhecer os treinamentos e workshops do Startupi Education para grandes empresas? Clique aqui.