* Por Hiran Eduardo

O que a chuvosa e fria Seattle – sim, a terra da Microsoft e Amazon – do final dos anos 80 tem a ver com o ensolarado Brasil nesta era pós Copa do Mundo e Jogos Olímpicos? Aparentemente nada, mas é possível sim encontrar um ponto comum em ambos.

Para compreender, precisamos de um pouco de história da cultura pop. Vamos voltar para 1986. Seattle não era um centro da música. Sim, o lendário Jimi Hendrix nasceu lá, mas, além dele, quem? Se olharmos com afinco, podemos encontrar a banda de heavy metal Queensrÿche que era dos subúrbios de Seattle, e nada mais. Mas, em 1986, a história começou a ser escrita.

Neste ano, uma gravadora chamada C / Z Records lançou um disco onde apareceram pela primeira vez bandas como The Melvins e Soundgarden. Durante os próximos anos, quase todos os garotos de Seattle começaram uma banda, os clubes começaram a proliferar, criando um ambiente estimulante e profícuo para novas bandas, e o resto quase todos sabemos: o grunge nasceu e Soundgarden, Alice in Chains, Pearl Jam e especialmente Nirvana mudaram a história da música para sempre.

Se você olhar mais de perto, você vai encontrar alguns pontos cruciais para entender por que uma cidade fora do circuito musical teve tanto impacto no rock como Seattle. A primeira foi a falta de oportunidades. Imagine-se em uma cidade que chove praticamente todo o tempo e com uma das temperaturas mais baixas do país. Você não tem as praias da Flórida e Califórnia, a vida cultural de Nova York, a vida noturna de Las Vegas nem o calor do Texas e Arizona. Então, se você é um adolescente em um mundo pré-internet neste lugar, você tem duas coisas para fazer: beber ou começar uma banda (ou ambos).

Então, nas garagens de Seattle, um grupo de jovens aprendeu a tocar seus instrumentos – ou nem aprenderam direito – e começaram a formar as suas bandas. E por que rock? Porque na época o rock era rebeldia e, graças ao punk rock, você só precisava saber tocar três acordes de uma só vez para fazer uma música.

Em segundo lugar: ninguém esperava nada deste ambiente, então não havia nenhuma pressão para assinar com uma gravadora, para vender um milhão de cópias do álbum, para aparecer na lista da Billboard. Isso aconteceu porque eles estavam longe dos artistas mainstream e das gravadoras.

E por último, mas não menos importante, quando você tem uma banda de rock que você quer tocar para uma multidão, mesmo em troca de algumas garrafas de cervejas – acredite, eu já toquei em bandas por mais de uma década, e é assim que funciona. Como consequência desse número crescente de bandas, clubes começaram a aparecer em cada esquina, também fãs, novas bandas, groupies e, no final, como um processo natural, executivos de gravadoras, MTV e dinheiro. Muito dinheiro.

E o que isso tem a ver com o ambiente de startups e, especialmente, com o Brasil? Podemos comparar facilmente o ambiente brasileiro de inicialização hoje em dia com a cena musical de Seattle em 1986: um ou dois quase-unicórnios surgiram e apenas isso, sem muita relevância no cenário global.

Mas havia mais. Você se lembra quando eu disse que a juventude de Seattle não tinha muitas perspectivas? Assim é como o brasileiro hoje em dia. Em vez da chuva e do tempo frio, fazendo um paralelo, temos instabilidade política e econômica, alto desemprego e baixas perspectivas de crescimento profissional. Então, em vez de começar uma banda, a juventude brasileira decidiu começar uma startup.

Então aqui estamos nós. Em um ambiente muito instável, meninos e meninas de todas as idades começaram a criar um ecossistema distante do mainstream, sem quase nenhuma ajuda, apenas copiando e colando do Vale do Silício. E que estes jovens são bons, pensam grande, mas ainda precisam de ajuda.

Podemos dizer neste momento as startups brasileiras ainda estão nas garagens, começando a aprender a tocar, compondo algumas canções e a fazendo alguns pequenos shows em troca de cerveja. Um ou dois conseguiram alguns contratos com gravadoras ou conseguiram um vídeo de baixo orçamento na MTV, mas ainda estão muito distantes das paradas de sucesso.

Como as bandas de Seattle escreveram seus nomes na história do rock, criando um novo subgênero de rock alternativo, lançando inúmeros hits e desenvolvendo um ambiente lucrativo, o ecossistema brasileiro de startups está procurando o mesmo. Temos bons músicos, algumas bandas e algumas produções criativas, mas ainda estamos procurando mais, pois acreditamos que podemos ir mais longe.

Em alguns anos, se não surgir um novo Nirvana aqui, pelo menos alguns Pearl Jams ou Soundgardens com certeza aparecerão. Então este é o momento de sair das garagens, começar a compor nossas próprias canções, fazer alguns concertos e, em seguida, os contratos se tornarão realidade. E também o dinheiro, a sucesso, a fama.


Hiran Hiran Eduardo Murbach é Advogado com MBA em Marketing na PUC-SP, vive o ambiente das startups há pelo menos cinco anos. Foi o responsável pelas relações com os investidores no Startup&Makers da Campus Party 2014, professor convidado do Laboratório de Startups, do Centro de Inovação e Criatividade – ESPM, e Autor dos livros “Quebrando: aprendendo com os erros dos outros”, “O Grátis no Marketing Digital” e “O que é essa tal criatividade?”. Atualmente é sócio e responsável pela área de startups e novos negócios na empresa SeuApoio.