Ontem o WTC estava repleto de investidores, empreendedores, executivos, grandes empresas e mais de 25 gigantes chinesas que planejam expandir suas operações para fora do seu país de origem e enxergam o Brasil como uma opção. Foi a primeira edição do Chinnovation, organizado pela Agência de Promoção de Negócios Digitais entre Brasil e China – CBIPA (China Brazil Internet Promotion Agency).

Segundo o presidente da CBIPA e Country Manager do Baidu, Yan Di, o evento foi uma oportunidade inédita de troca de informações e aprendizado entre os dois países. “A ascensão de inovações com origem na China, como os serviços de mobile payment, online to offline, utilitários móveis monetizados e a onda de inteligência artificial são novidades que devem beneficiar também a internet brasileira, além do conhecido apetite chinês por ativos brasileiros”.

Dados importantes sobre a China destacados durante o evento:

  • Maior mercado online do mundo: 700 milhões de usuários
  • Maior e-commerce do mundo: U$3.1 trilhões
  • Maior mercado de mobile payment: 200 milhões de usuários que movimentam U$235 bilhões
  • Maior fonte de Venture Funding do mundo: U$100 bilhões só em 2016
  • Sede de 4 das 10 maiores empresas de internet do mundo (capital aberto na NASDAQ)
  • Sede de 4 dos 10 maiores unicórnios do mundo

Janaína Camara da Silveira, pesquisadora de fintechs e fundadora do Radar China (empresa que visa discutir a relação sino-brasileira sob diferentes aspectos, com ênfase em política, economia e cultura) apresentou um panorama sobre as fintechs da China.

Às vezes nos prendemos tanto ao Vale do Silício que deixamos passar batido que a China é a grande líder no mercado das fintechs. O país concentra metades dos pagamentos digitais, é dominante dos serviços de empréstimos online e as empresas chinesas estão entre as mais inovadoras do Mundo. “A KPMG realiza há três anos um relatório global sobre as principais empresas de fintechs e se em 2014 não havia nenhuma delas na China, em 2016 apareceram 5 delas no relatório”, comenta.

Como comentado acima, a China também abriga os 4 maiores unicórnios de fintech do mundo: ANT Financial, JD Financial, Lufax e Qufenqui.com. “O fato interessante é que ambas empresas são comprometidas com excelência, experiência de consumidor superior ao que se vê na média global e que apresentam habilidade de fazer o serviço de uma forma melhor”.

O Banco Central Chinês também criou um comitê para estudar as fintechs, buscando principalmente entender quais regulações de tecnologias são necessárias para a nova economia, e também possui um fundo para fomentar pesquisas e trabalhar questões de seguranças.

Inovações na China

“O QR Code está basicamente em todos os lugares da China”, comentou Janaína e outros palestrantes. Sim, mais de uma vez foi destacado que na China a maioria das pessoas não precisam de cartão de crédito ou dinheiro, elas usam apenas seus smarthphones para fazer compras, comprar comidas em restaurantes, grandes redes estrangeiras como McDonald’s, KFC e também em pequenas barraquinhas de rua.

Os números apresentados durante o evento refletem o quanto os chineses acabaram abraçando essa tecnologia, o AliPay, por exemplo, possui mais de 400 milhões de usuários. Qualquer tipo de produto ou serviço também pode ser comprado através do WeChat Pay, recurso de pagamento do aplicativo de mensagens instantâneas mais usado no país que conta com mais de 500 milhões de usuários.

“Um dado bem interessante em relação ao ano passado é que as transações feitas através de fintechs pelos chineses são 50 vezes maiores do que nos EUA, somando US$5,5 trilhões no ano passado”, destaca Janaína.

Outro ponto destacado no evento é que a China possui uma geração enorme de jovens que pularam etapas, não tiveram PC e foram direto para o celular e muitos deles não chegaram a entrar em lojas físicas, foram acostumados a comprarem tudo online. Hoje 20% do mercado do varejo chinês está na internet e não no mundo físico, o que representa que esse número é maior que a Alemanha e, segundo números mais recentes, quase 5 vezes maior do que aqui no Brasil.

O evento também contou com a presença do Embaixador da China, Li Jinzhang, que afirmou que a China e o Brasil precisam aumentar a cooperação aumentando a representatividade e voz dos países emergentes. “Precisamos aumentar a cooperação nas áreas de desenvolvimento, estudo e comércio da estrutura da internet.”

Inteligência Artificial é o novo fator de produtividade

Yan Di, CEO do Baidu Brasil, falou sobre o mercado de Inteligência Artificial na China. Vocês sabiam que o país possui mais de 1000 startups focadas em AI e 50% delas já receberam investimento? Só em 2016, 284 startups receberam investimento nesse segmento. No Brasil, existem hoje cerca de 40 startups focadas nesse segmento.

“A Inteligência Artificial é o novo fator de produção e tem potencial de iniciar novas fontes de crescimento. Isso muda a maneira de trabalhar e reforça o papel das pessoas para impulsionar o crescimento comercial”, comenta Yan.

Uma pesquisa da Accenture sobre o impacto da Inteligência Artificial em 12 economias desenvolvidas, revela que ela poderá duplicar as taxas de crescimento econômico anual até 2035. Isso altera a natureza do trabalho e cria uma nova relação entre o homem e a máquina. A previsão é que o impacto das tecnologias de IA sobre o setor empresarial aumentará a produtividade da força de trabalho em até 40% e permitirá a otimização do tempo por parte das pessoas.

Aplicações da Inteligência Artificial na China

Reconhecimento Facial

Yan conta que na China todo ano 70 mil crianças são sequestradas e, através da tecnologia Baidu Facial Recognition, foi possível, por exemplo, reconhecer aos 33 anos uma criança raptada aos 6. O Baidu também fez um recorde mundial de reconhecimento de imagens com acerto de 99,77%. Foram 10 bilhões de comparações de imagens em menos 1 segundo.

Pedidos em restaurantes com robôs – Reconhecimento de voz

O Baidu fez uma parceria com a rede KFC e substitiu os atendentes por robôs, capazes de entender um pedido e até mesmo sugerir um menu para o cliente. “Quando um cliente entra no restaurante, o sistema pode, de acordo com seu rosto, adivinhar sua idade, se é homem ou mulher, e analisar sua personalidade: se é aberto, se é tímido. Desta maneira, pode recomendar um determinado menu para ele”. Segundo Yan, o reconhecimento de voz do Baidu registra acerto de 97%, superior à média humana de 95%.

Outra aplicação possível também é a da transcrição, Yan destaca que é possível transformar por exemplo, sua gravação de voz de 1 minuto para um texto em menos de 3 segundos.

O que brasileiros podem aprender com a China, segundo Yan, é que o mundo está indo na direção do AI-as a service, (AI-asS). Empreendedores não devem competir também com os grandes players como Google, Salesforce e Oracle que são capazes de desenvolver baseado em AI alguma aplicação em qualquer vertical. “O Brasil tem muitas oportunidades para crescer nesse mercado seja nas áreas de fintechs, agronegócio ou segurança cibernética”, destaca o CEO.

Yan também comentou sobre a criação da primeira Associação Brasileira de Inteligência Artificial, da qual é presidente junto com outras 16 empresas com atuação no setor de Inteligência Artificial no Brasil. Entre as primeiras atividades da ABRIA estão um mapa do setor de inteligência artificial no País, identificar startups em crescimento, empresa internacionais em ação no Brasil e projetos em estudo pela academia.

Um chinês empreendendo no Brasil

Zhen Zhang, fundador da Mobocity, conta que América Latina sempre o atraiu e quando teve a oportunidade de fazer um intercâmbio internacional a partir da faculdade, o Brasil foi a sua primeira opção, diferente do restante da turma de classe que preferiu instituições europeias ou nos Estados Unidos. “Quando acabei meus estudos decidi ficar aqui. Além de ter sido conquistado pela cultura e pelo povo, eu via muitas oportunidades de negócio no mercado brasileiro e desde então tenho desenvolvido soluções que facilitem o cotidiano do usuário de tecnologia”, comenta.

A Mobocity oferece soluções para o mercado de comunicação destinadas ao público de massa, e foi lançada com intuito de facilitar o dia a dia dos usuários de smartphones no Brasil. Focada em inovação e em entregar uma experiência diferenciada, a companhia possui em seu portfólio o Mobobox, app capaz, entre outras ações, de identificar a operadora de telefones fixo e celular, além do Mobonus, aplicativo que oferece aos usuários a possibilidade de ganhar prêmios em troca de visualização de anúncios publicitários, leitura de notícias, downloads de aplicativos e games.

“O mercado brasileiro, apesar de ter cerca de 7 vezes menos pessoas que meu país de origem, tem potencial para acolher dezenas de unicórnios que venham a surgir e nos mais diversos segmentos. Sendo assim, quem souber empreender no país oferecendo soluções que esse público precisa vai conseguir criar um negócio bilionário, seja ele da China, do Brasil, da Índia ou qualquer outra nacionalidade”, destaca o empreendedor.

De olho no mercado brasileiro

A Meitu tem como foco aplicativos de embelezamento facial em fotos, retocando ou até aplicando maquiagem virtualmente sobre os rostos dos usuários. A Meitu realizou a segunda maior oferta inicial de ações na Bolsa de Hong Kong, levantou US$ 629 milhões, o que fez seu valor de mercado chegar a US$4,5 bilhões.

No Brasil, a Meitu iniciou sua operação no primeiro semestre de 2016 com o AirBrush, que faz pequenos retoques nas imagens. Um investimento que se justificou após a companhia identificar um elevado pico no número de downloads de seus aplicativos, antes mesmo de eles serem oficialmente lançados por aqui. O crescimento orgânico do app AirBrush, conta Ludmilla Veloso, diretora de marketing da Meitu para a América Latina, chamou a atenção dos chineses.

Ludmilla conta que seu maior desafio foi fazer com que os chineses entendessem as diferenças do mercado brasileiro. “Eu precisava passar a minha visão em português para o inglês para que uma pessoa traduzisse para o chinês, ou seja, eram várias etapas, portanto foi fundamental a entrada de uma pessoa chinesa na equipe do Brasil para que ela entendesse todo o mercado daqui e tornasse a comunicação mais fácil”, conta Ludimilla.

99 recebe aporte da gigante chinesa DiDi

Outra companhia chinesa que investiu no Brasil foi a Didi Chuxing, líder absoluto de mercado de transporte urbano privado na China, que conseguiu fazer com que uma das empresas mais agressivas do mundo, o Uber, desistisse de competir por lá se tornando sócio da Didi.

A chinesa investiu US$100 milhões na startup brasileira 99 e passou a ter direito a um assento no conselho administrativo da startup. Segundo seu fundador, a estratégia mostra o seu interesse pelo mercado brasileiro. “A parceria com a 99, líder do mercado brasileiro, permitirá que a DiDi comece a compartilhar seus produtos e sua capacidade operacional com comunidades e inovadores mais diversos, criando assim uma estrutura própria para a inovação, como previsto por nossos líderes durante o G20 Summit de 2016,” destaca Gu Tao, Vice Presidente da Didi.

A Didi realiza hoje 20 milhões de corridas por dia, e possui 17.5 milhões donos de carros motoristas. Confira abaixo Gu Tao falando sobre o investimento na 99 e o mercado do Brasil.

O Brasil e a China estão entre os quatro maiores mercados de internet do mundo, ao lado da Índia e EUA, apesar disso, Andreas Blazoudikis, CEO of Delivery Center, afirma que ainda temos muito o que trabalhar. Ele conta que já viajou  para a China quatro vezes e que a última vez foi realmente impactante para sua vida. Ele contou que estava com um grupo de brasileiros visitando o Baidu e nessa época, o iFood estava recebendo 2 milhões de pedidos por mês, o que para eles era um ótimo resultado e decidiram contar esse case.

A resposta? O Baidu também atendia 2 milhões de pedidos, mas por dia. “Isso realmente impactou minha vida e andando pelas ruas eu estava sentindo algo diferente lá. Se você comparar o iFood e o Baidu, o Baidu é 30 vezes maior que o ifood, aí você pensa, mas é China né? Não! A China é apenas 7 vezes maior que o Brasil e não 30 vezes”, conta Andreas.

Segundo ele, a China se concentra para a construção e produção de um delivery rápido e barato. “Naquela época o delivery era algo em torno de R$4 e aqui, continuamos com a taxa de R$ 10. Tudo isso o que passei me inspirou para querer fazer a mesma coisa aqui no Brasil”.

Ou seja, a mensagem final que foi destacada por Dick Wei CSO do Baidu Delivery e por diversos palestrantes é a seguinte: Pense grande! É importante não se acomodar no mercado interno, por maior que ele seja. Para que isso não aconteça, é fundamental se capacitar, estudar os outros mercados e abrir os seus horizontes, pois as vezes, podemos nos surpreender e descobrir que somos mais parecidos com a China do que pensamos.

IN Hsieh, CEO e um dos fundadores da CBIPA, afirma que o objetivo da entidade é dar visibilidade e acesso às oportunidades de investimentos e negócios entre investidores, startups e grandes companhias digitais dos dois países. “Temos possibilidade de receber muitos recursos chineses que não chegam por desconhecimento dos dois lados e claro pelas dificuldades naturais dos respectivos mercados. O Chinnovation é apenas o primeiro evento de uma série que estamos organizando, vale a pena ficar de olho, pois existem muitas oportunidade não só para startups chinesas, como brasileiras.”