*Por Marcos Barrosa

É abissal a diferença entre os recursos humanos e financeiros presentes em grandes corporações em relação aos das startups, mas não menos desproporcional é a capacidade dessas pequenas empresas em produzir inovação se comparadas aos estabelecidos conglomerados.

O que parece uma contradição à primeira vista, se torna quase intuitivo quando lançamos luz sobre as diferenças estruturais e os fatores humanos que diferenciam esses dois grupos de empresas e seus respectivos enquadramentos aos processos de inovação.

Estruturas Organizacionais

As grandes corporações não são arquitetadas para inovar. Os sistemas de gestão, as estruturas organizacionais e os métodos de bonificação de executivos são estruturados de forma a orientar os recursos da corporação ao seu fim: gerar lucro.

Essas características são fundamentais para continuamente melhorar as operações das empresas e gerar retorno aos acionistas no curto e médio prazo. Mas onde estará o espaço para inovação em um sistema que está totalmente orientado a se aperfeiçoar em fazer a mesma coisa ao invés de fazer coisas novas? Isso não é trivial.

Seria como esperar que o corredor jamaicano Usain Bolt passasse a correr maratonas. Ele passou a vida se aperfeiçoando em ser veloz, o que lhe proporcionou capacidades físicas extraordinárias para determinado fim, mas que teriam pouca utilidade ou seriam até um obstáculo a iniciar uma carreira de maratonista.

Fatores humanos

Além das questões estruturais, os incentivos e até aspectos cognitivos dos profissionais das corporações impõem barreiras à implementação de novas ideias.

Existe uma enorme assimetria de ganhos e perdas ao se inovar em uma organização. Por exemplo, um executivo pode aumentar o seu bônus ou, no limite, ser até promovido caso implemente uma inovação com sucesso, no entanto uma falha pode lhe custar seu emprego. Tendo em vista que as probabilidades de sucesso de grandes inovações são baixas, tal assimetria gera um grande desincentivo à inovação aos colaboradores e tomadores de decisões das grandes empresas.

Por outro lado, essa assimetria é invertida para um empreendedor de startup, uma vez que o sucesso poderia render-lhe milhões ou até bilhões enquanto a falha lhe custaria apenas alguns anos de uma carreira profissional.

O baixo incentivo à inovação retroalimenta uma característica cognitiva humana do viés ao status quo (status quo bias).  Essa característica se refere à tendência irracional e instintiva que um tomador de decisão tem em não realizar uma mudança, como que se a mudança em si já contivesse um valor negativo nas ponderações da tomada de decisão.

Afora as características e incentivos pessoais dos indivíduos das corporações, barreiras à inovação podem decorrer de ameaças que as próprias novidades representam ao core das grandes empresas.

É muito difícil para o CEO de uma empresa madura e consolidada decidir canibalizar o seu negócio atual em prol de uma novidade promissora, mas que envolve riscos.

Vejamos o exemplo da Blockbuster, empresa que foi muito bem sucedida na locação e distribuição de filmes em DVDs até o surgimento do modelo de streaming que, melhor e mais barato, foi fatal para a locadora de vídeos. Não seria fácil para os executivos da Blockbuster decidirem o momento de abandonar o modelo saudável de locação de DVD para apostar em streaming, por mais que eles soubessem que isso seria um caminho inevitável.

Enquanto isso a Netflix, uma startup criada no final dos anos 90, amargou diversos anos no vermelho para ocupar esse espaço até que finalmente, no momento em que a banda larga começou a entregar sinal suficiente para distribuir filmes, eles estouraram.

Processo de inovação

Ao contrário do que muitos pensam, a inovação é um processo, não uma fagulha. Existe um longo caminho a ser percorrido entre a idealização, implementação e escalada do resultado da inovação.

Processos e métodos como ideation e design thinking são aplicados tanto nos ambientes corporativos quanto empreendedores. Entretanto, conflitos de interesses entre departamentos, políticas internas e falta de motivação, podem dificultar a cooperação em equipes multidisciplinares e suprimir a vantagem que as grandes empresas têm em reunir talento.

Uma grande diferença no processo de inovação em startups em reação a grandes empresas é a aplicação do conceito de effectuation, no qual empreendedores utilizam princípios de tomada de decisão que os permitem navegar em cenários de extrema incerteza na busca de oportunidades pela experimentação. Nessa busca, o caminho adotado se baseia nos recursos que se dispõe e nas formas de controle ao invés de adotar um Norte previsível e mensurável.

A aplicação de tal conceito é completamente impensável em corporações nas quais os projetos devem ter estudos financeiros detalhados e objetivos tangíveis para serem aprovados. Em outras palavras, a inovação por pura experimentação ocorre quase que exclusivamente fora das grandes corporações.

Não é à toa que as grandes empresas do setor de tecnologia lideram as aquisições de startups. Sendo elas mesmas ex-startups, empresas como Google, Paypal, Facebook, Buscapé e tantas outras conhecem a fundo o processo e a dificuldade de se inovar. Em empresas mais conservadoras, no entanto, é muito comum os tomadores de decisões optarem por um desenvolvimento “in house” à compra de startups, o que em muitos casos pode ser desastroso: em seu ápice, a Blockbuster rejeitou a compra do Netflix por 50 milhões de dólares, valor correspondente a menos de 0,2% do valor de mercado atual.

Fontes:
https://hbr.org/2012/09/why-big-companies-cant-innovate
https://hbr.org/2016/08/the-barriers-big-companies-face-when-they-try-to-act-like-lean-startups
https://www.youtube.com/watch?v=hSTyGVM2PoY
Livro: The Innovator’s Solution
Autores: Clayton M. Christensen e Michael E Raynor.
Editora: Harvard Business Review Press

Marcos Barrosa é um empreendedor de tecnologia brasileiro com formação em engenharia, gestão de projetos e business. Fundador da ScorePointer, a startup vencedora da Global New Venture Challenge na University of Chicago, e da Watermelon Tecnologia, empresa com 400% de crescimento anual auxiliando startups a saírem do papel. Marcos leciona empreendedorismo como instrutor convidado, mentor e avaliador de competições de startups na UFABC e UNICAMP.