A Endeavor e o Insper anunciaram hoje, em São Paulo, uma cátedra que aborda os desafios de Empresas de Alto Crescimento no Brasil e os das chamadas scale-ups. O estudo é liderado por Guilherme Fowler, coordenador da Cátedra Endeavor no Instituto.

Com o título “Empresas de Alto Crescimento e o Desafio de Scale-Up: Onde estamos e para onde podemos ir”, o white paper publicado dá uma visão mais aprofundada sobre o crescimento destas empresas e propõe uma definição mais precisa sobre o que são as scale-ups.

Criação de Empregos

Definir uma EAC não é tarefa fácil. A definição comumente usada delimita que a empresa pode ser considerada de Alto Crescimento se ela cresce 20% ao ano por três anos consecutivos. “Esta definição basicamente indica pra gente que estamos olhando para a ponta da distribuição”.

Por que vale a pena estudar estas empresas? A primeira razão é que no Brasil existem aproximadamente 30 mil empresas de alto crescimento, que geram quase 50% dos novos empregos. A realidade ao redor do mundo não é muito diferente.

De acordo com a cátedra, um dos motivos fundamentais para falar sobre as EACs é que, após a crise de 2008, a criação de postos de trabalho tornou-se um problema no mundo inteiro. E, embora as Empresas de Alto Crescimento representem uma parte pequena da quantidade de empresas no País, elas são responsáveis pela maior parte dos empregos gerados. “De outro lado, mas não menos importante, existe um entendimento cada vez mais aceito que o principal desafio dos empreendedores não é simplesmente iniciar um negócio, mas sim fazê-lo crescer”, cita o documento.

Juliano Seabra, diretor da Endeavor, fala sobre a importância do estudo para os empreendedores:

Então, obviamente, emprego é uma razão para se estudar empresas de alto crescimento. Mas não é a única. Guilherme diz que, junto com emprego, existe uma relação muito forte entre o dinamismo desta distribuição de crescimento e o ganho de produtividade dentro da economia.

A empresa ser pequena, em geral, significa ser menos produtiva. Ganhar escala, logo, gera aumento de produtividade. O estudo mostra que a menor escala representa menos produtividade em diversos países. Muitos deles com muitas diferenças tecnológicas, mas principalmente com diferenças institucionais. “Quando a gente olha o ambiente de negócios, o Brasil está muito mal colocado”.

De acordo com o artigo, existe uma relação muito forte entre o ambiente de negócios melhor e o ganho de produtividade, ou seja, quanto capital um trabalhador consegue manipular. “O Brasil está mal colocado e eu acho, na verdade, que este é o grande desafio que se coloca na nossa frente. Entender muito bem esta relação e trabalhar para melhorar”, diz Guilherme.

As empresas

“Por trás deste movimento macro, no fundo só existe uma firma que está crescendo rápido e está tentando desesperadamente ganhar mercado e sobreviver. Então, na verdade, quando a gente olha para esta ideia de empresa de alto crescimento no nível macro, a gente não pode esquecer que no fim do dia é simplesmente uma empresa que abre as portas e tenta operar”, explica.

Esta é a trajetória típica de uma empresa de alto crescimento: começa em uma espécie de “vale da morte” e, em algum momento, ela se depara com um ponto de gatilho que é uma oportunidade para ela e um momento de transição para o empreendedor. Até que existe um ponto de virada, e ela começa a crescer rápido.

“O interessante sobre isso é que este crescimento não é empiricamente sustentável, ele não vai persistir pra sempre. E talvez o mais importante: ele vai ocorrer, em média, uma única vez na vida de uma empresa”, explica Guilherme.

Brasil

Das Empresas de Alto Crescimento existentes em 2011, apenas 8% delas continuaram operando em 2014. Para o estudo, isto indica dois pontos importantes: manter o alto crescimento é difícil, e ao mesmo tempo existe um elevado dinamismo. “E no fundo, é este dinamismo criativo que faz a economia rodar e a produtividade aumentar.”

O terceiro ponto importante e que deve ser levado em conta nas pesquisas que virão sobre o tema são os desafios de gestão. “Será que gerir uma empresa em alto crescimento não é em si mesmo um desafio tão grande que impede a continuidade e o crescimento?”, pergunta Guilherme.

Em 2016, a Endeavor realizou uma pesquisa sobre os desafios dos empreendedores brasileiros. Para as empresas em geral, naquela pesquisa, o maior desafio de empreender no Brasil são os aspectos jurídicos e de regulação. Basicamente contratos, processos e impostos. É o ambiente de negócios despontando como o maior desafio para os empreendedores no Brasil.

Entretanto, quando o foco é em empresas de alta performance, estes não são os maiores desafios. “Não necessariamente porque isso deixou de ser importante, mas talvez o segundo item, gestão de pessoas, se torna muito importante”, explica. O fato de a gestão de pessoas despontar como o maior desafio de uma empresa de alto crescimento, na verdade indica um terceiro nível de análise: não basta ter uma visão macro e nem basta olhar a firma individualmente. “É preciso ir mais a fundo e lembrar que, no fim do dia, por trás de uma EAC, tem um empreendedor e um gestor. Tem um indivíduo ali dentro, e um indivíduo que vive vários desafios.”

E este indivíduo, que vive um período de alto crescimento em sua empresa, tem um desafio ainda maior e pessoal: mudar a postura dentro do negócio e se adaptar às mudanças. “A partir do momento que existe uma fase de alto crescimento, ele vai ter que aperfeiçoar competências de marketing e financeiras, vai ter que desenvolver capital humano e, talvez o mais importante, ele vai ter que repensar o seu próprio papel na organização. Talvez não de forma não esperada, mas essa transição é absolutamente chave para o próprio alto crescimento da empresa”, explica o professor.

Scale-up

Agora, explicando o que são as scale-ups e como elas se diferem das demais Empresas de Alto Crescimento, o professor Guilherme Fowler exemplifica utilizando duas empresas.

A primeira delas é uma empresa de bebidas baseada no nordeste do Brasil. Ela foi fundada há alguns anos e é, de certa forma, uma das únicas na sua região. Até que a cidade onde esta empresa está baseada recebeu jogos da Copa do Mundo e, consequentemente, investimento e turistas. Isso fez com que a empresa crescesse.

Guilherme Fowler, coordenador da Cátedra no Insper, fala sobre a iniciativa inédita entre a instituição e a organização:

O segundo exemplo é o Uber. A empresa teve crescimento exponencial em dois momentos: quando ela lançou o UberX e o UberPool. Ambos os serviços aumentaram consideravelmente a demanda pelos serviços da empresa.

As duas empresas cresceram 20% ao ano durante três anos consecutivos. Portanto, as duas empresas, por definição, são Empresas de Alto Crescimento. Mas o que as diferencia?

Por trás deste crescimento acelerado, cria-se um ciclo virtuoso: crescimento da firma > riqueza > recursos.  Os recursos gerados pela riqueza serão alocados novamente no crescimento da firma. “Particularmente, para uma EAC, este ciclo é muito acelerado. Isso é bom, porque a gente pode trazer uma definição de Empresa de Alto Crescimento simplesmente olhando para uma taxa de crescimento de 20%”, explica.

Quando se olha, portanto, para a empresa de bebidas, o que está ligando o crescimento da empresa com a geração de riquezas é o posicionamento de mercado da empresa. Isso pode se dever ao fato de, por exemplo, esta distribuidora de bebidas ter o monopólio regional. Essa posição pode ter permitido a ela a geração de riqueza e assim por diante.

Quanto ao Uber, não foi a sua posição de mercado inicial, mas foi quanto ele, como empresa, conseguiu escalar o seu modelo de negócio. Isso define uma scale-up e a difere das outras EACs. “É aquela firma que tem um ciclo de geração de riqueza acelerado, mas que é baseado no seu modelo de negócio escalável”.

“Quando a gente analisa de forma estratégica o modelo de negócios, a gente pode olhar isso de duas formas: ele é um conjunto de atividades que o empreendedor tem que desenvolver e, ao mesmo tempo, estas atividades, para gerar valor, têm que estar conectadas por transações”. Ou seja, o modelo de negócios escalável é aquele no qual este conjunto de atividades e/ou ações consegue ser replicada de tal forma que o crescimento da receita fique mais rápido que o crescimento do custo.

Agenda de pesquisa

É a partir disto que a parceria entre a Endeavor e o Insper construirá uma agenda de pesquisa. O que poderá ser abordado nestas pesquisas? ” A primeira coisa que me chama atenção é que mensuração é um desafio. Toda literatura empírica está olhando para empresas de alto crescimento, mas a gente sabe que nesse conjunto tem muito ruído que visa desde a distribuidora de bebidas do exemplo até o Uber. Talvez, a gente deva separar melhor estas empresas para entender melhor”.

Guilherme Fowler cita também que, mundialmente, é necessário entender melhor os modelos de negócios escaláveis. Outro assunto a ser estudado é o crescimento positivo versus negativo. “Nós temos uma tendência de focar muito em um extremo da distribuição. A gente sempre gosta de falar muito e entender o sucesso, mas a gente precisa começar a entender um pouco o fracasso, porque é essa dinâmica que ajuda a economia ganhar produtividade no final das contas. A gente sabe muito pouco sobre o fracasso ainda.”

Outro ponto importante por onde a pesquisa pode caminhar é como o ecossistema empreendedor ajuda e suporta o crescimento. “Ele é absolutamente fundamental, porque em uma fase de alto crescimento a demanda de recursos pelo empreendedor é gigantesca e a gente precisa entender melhor como é que estes agentes se articulam para obter recursos e, por fim, a gente precisa também avançar na questão da política pública. Talvez parar de olhar tanto para o nascimento de empresas e começar a olhar um pouco mais para a qualidade de crescimento destas empresas”, completa Guilherme.

Para baixar o white paper completo, acesse aqui.