* Por Luciano del Monaco

Quando falamos de tecnologia nós (os leigos) tendemos a ter dois tipos de atitudes diferentes, mas igualmente extremas. A primeira delas é rechaçar completamente a tecnologia, como algo “inútil”, “desnecessário”, até mesmo algo “ruim” e “maléfico”, e a segunda é coloca-la em um pedestal e adorá-la, como se estivéssemos diante da solução de todos os nossos problemas.

Então, nenhuma dessas atitudes é procedente, primeiro que sem a tecnologia não estaríamos aqui agora (eu não teria escrito este texto e você não estaria lendo-o). E, também, precisa ser dito que a tecnologia produz efeitos no mundo que não são “bons” e que muitas soluções para determinados problemas criam outros problemas a serem resolvidos.

Em síntese, como quase todas as criações humanas ela pode ser tanto útil e proveitosa quanto perigosa, mas não é culpa da tecnologia em si, mas dos seres humanos que a criaram (e que a usam).

De qualquer forma, um dos assuntos que mais assusta as pessoas é sobre a possibilidade de robotização do mercado de trabalho, especialmente no qual elas atuam, e acredito ser interessante colocar esse tópico em perspectiva.

Máquinas são boas no que?

Antes de mais nada, é preciso deixar claro quais são os tipos de competências que máquinas (atualmente) possuem e diferenciar isso das competências típicas de seres humanos, ignorar essas diferenças tornam a análise excessivamente simplista (e errada).

A primeira coisa a ser dita é que máquinas são ótimas em duas atividades diferentes:

  1. a) reconhecer um padrão pré-definido.
  2. b) aplicar uma ou mais ações quando determinado padrão é identificado.

Isso não significa que máquinas não possam “aprender”. Como os algoritmos evolutivos e a área de “Machine Learning” tem mostrado isso é possível.

A questão é que esse aprendizado ocorre em um cenário definido de forma cuidadosa para permitir esse aprendizado. Em outras palavras, os seres humanos ainda precisam “calibrar” o ambiente para auxiliar o aprendizado, isso sem contar que normalmente as máquinas aprendem uma atividade e não são capazes de correlaciona-la com outra atividade (ou seja, precisam reaprender do zero uma nova atividade, mesmo que próxima).

Obviamente tudo isso está sujeito a mudanças e existe muita pesquisa na área, o que posso dizer é que, no momento atual, esse é o quadro tecnológico acessível ao mercado em larga escala.

Enfim, o que significa isso? Significa que uma máquina é excelente para ações que variam pouco, depois que ela foi programada para reagir a certo estímulo ela irá simplesmente seguir a sua programação.

Nesse sentido máquinas são ótimas para atividades consideradas “repetivas” e “recorrentes”, e isso vai desde atividades muito físicas, como remover um parafuso até atividades de comunicação altamente padronizadas (já reparou como é crescente o uso de robôs, bots, para atividades de call centers?).

E o ser humano?

Como disse acima em tudo que se requer precisão, repetição e constância humanos são muito inferiores a máquinas, e é bastante simples, ao retirar um parafuso (ou atender alguém em um call center) uma pessoa se cansa, se distrai, perde o interesse. Já uma máquina não possui todos esses “problemas”.

No entanto, a área na qual os seres humanos são muito bons é no reconhecimento de padrões novos, na realização de referências entre coisas e conhecimentos diferentes. Enfim, em atividades “criativas” e, além disso, humanos são muito bons em lidar com outros seres humanos.

Quando falo em criatividade não estou falando em arte (especialmente por que existem muitas obras clichê que poderiam ser reproduzidas por um computador), mas sim em identificar problemas novos e propor soluções inovadoras para eles. Um investidor que vê uma nova possibilidade no mercado e age primeiro que a concorrência está sendo, dentro de sua atuação, criativo.

Pode parecer pouco, mas a capacidade humana de identificar padrões, de ver o que “não estava lá” é muito grande e talvez seja um dos principais motivos pela evolução da espécie como um todo.

No referente à comunicação com outros seres humanos acho que nem tem muita discussão, somos criados e rodeados por outros humanos desde o nascimento, logo possuímos muitas capacidade sociais (ou pelo menos deveríamos).

E aí, vou ser substituído por um robô?

Para variar, esse é o tipo de pergunta que depende, mas é possível criar uma avaliação bem simples, que você deveria fazer quando pensa na sua carreira presente (e quem sabe, futura), não que o resulta seja definitivo, mas é um bom indicativo.

Enfim, se você se identifica com as três frases abaixo está em uma atividade que corre um sério risco de ser robotizada:

a) Minha atividade é rotineira e recorrente, os problemas são sempre os mesmos, e as soluções também, com pouca variação e, quando existe variação, costuma ser mais o resultado de algo erro durante o trabalho do que do problema ser diferente do previsto.

b) Sou um aplicador de soluções e ferramentas a problemas, não crio o que aplico, minha função consiste em identificar a existência de uma situação e aplicar a solução prevista por outra pessoa para esse problema.

c) Sinto como se as minhas habilidades pessoais contassem pouco ou nada para o resultado final do meu trabalho, de tão padronizado que ele é, a minha individualidade não se mostra no meu trabalho, e tenho pouca ou nenhuma margem para divergir dos procedimentos definidos.

Uma coisa que precisa ser claro é que isso não se aplica apenas para serviços físicos, mas sim para atividades “intelectuais”, não importa sua função, mas sim quais são as competências necessárias para ela.  Ao concordar com as frases acima você está admitindo que as principais competências para esse trabalho são aquelas feitas melhores por máquinas do que por seres humanos, logo é de se esperar que alguém pense em robotizar esse setor.

Conclusão

Falar em robotização de profissões no futuro e todo e qualquer tipo de “futorologia” é algo bastante complicado, e que tende a ser um fiasco, por isso evitei fazer isso durante esse artigo.

Meu raciocínio foi o seguinte “considerando o quadro tecnológico que temos hoje, que tipos de trabalho poderiam ser robotizados?” e se um trabalho pode ser robotizado ele o será, pois a redução de custos é algo inegável e os ganhos de eficiência são muito significativos.

De qualquer forma, isso não significa que você deve se desesperar, mas é bom ficar atento e começar a se preparar para essas mudanças do mercado de trabalho, do contrário você (e todo mundo, para dizer a verdade) corre o risco de só perceber que sua profissão “morreu” quando já for tarde demais, e isso é algo que você não quer que aconteça.


foto-lucianoLuciano Del Monaco é advogado associado do VilelaCoelho Propriedade Intelectual, escritório especializado em Propriedade Intelectual, trabalhou no SEBRAE e possui bastante experiência assessorando startups. Além disso, é mestrando em filosofia do Direito e jogador medíocre de CSGO.