*Por Daniel Dahia

Empresas de tecnologia criaram o mito bem construído de serem “do bem”. O lema da Google é “não seja do mal”. O Facebook tem um líder carismático. A Apple foi durante 30 anos quase uma religião para algumas pessoas. Até as startups mais recentes passam essa mensagem: Netflix, Dropbox e Snapchat são todos amigáveis com a imprensa e com seus usuários. Não poderia ser diferente: monopólios que controlam a informação e privacidade precisam passar essa imagem.

Mas não a Uber.

A Uber não tem um líder que inspira, não tem uma cultura empresarial amistosa e não tem um bom relacionamento com a imprensa. Foi um preço que se pagou por crescer rápido demais: o CEO, Travis Kalanick, expandiu a empresa de forma tão veloz que não houve cuidado com essas questões. Lá, o costume era destruir tudo: taxistas, leis e regulamentos. Durante os últimos anos, o importante foi crescer e a missão era criar um monopólio de transporte mundial.

Isso ficou insustentável e a bomba explodiu. Foi um mês turbulento para a empresa: uma campanha #deleteUber viralizou no Twitter, uma engenheira fez denúncias gravíssimas de sexismo, um vídeo do CEO brigando com um motorista vazou, e um sistema de vigilância complexo foi divulgado pelo New York Times.


Travis Kalanick discute com motorista

E não é só isso acontece. Cresce a insatisfação dos motoristas com as taxas cobradas, o investimento levantado é queimado cada dia mais e os investidores estão fazendo críticas públicas. “Eles entraram num buraco muito profundo”, disse Freada Klein Kapor, sócio de uma venture capital chamada Kapor Capital, que investiu na startup. A Uber ainda subsidia 40% do preço da corrida e corre risco de perder bilhões de dólares com decisões judiciais que favorecem os motoristas como prestadores de serviço.

Susa Fowler, engenheira acusa empresa de sexismo

A startup está até tentando resolver essas questões. Contratou uma empresa de investigação liderada pelo ex-procurador geral americano para conduzir uma auditoria sobre as denúncias de sexismo. Houve ainda uma desculpa pública do CEO pela forma com que tratou o motorista no vídeo, admitindo que precisa de ajuda. Anteontem surgiu também a notícia que Travis Kalanick estava em busca de um COO para ajudá-lo a reconquistar a confiança do público.

Há rumores de que o diretor de operações globais e primeiro funcionário da empresa, Ryan Graves, será usado como bode expiatório, o que vai ocasionar em sua demissão. É exatamente esse um dos principais problemas de toda essa publicidade negativas: a dificuldade em obter e reter talentos. Quem vai querer trabalhar para uma empresa com uma imagem tão negativa? Fontes afirmam ainda que ex-funcionários da Uber estão tendo problemas para conseguir empregos fora da empresa por causa da má-fama.

Para se salvar, a Uber precisa, primeiro, mudar a opinião das pessoas. Isso é uma tarefa difícil, mas não impossível. Empresas de tecnologia tem uma relativa facilidade em fazer isso. E a memória das pessoas é curta. Ao mesmo tempo, balancear a transição para os carros autônomos, ajustando o modelo de negócios para garantir a lucratividade, e continuando a escalar de forma eficiente. Eu diria que os próximos meses são importantíssimos para a empresa. Uma mudança de gestão é extremamente necessária – e eu julgo já que está demorando pra acontecer.


Daniel Dahia acredita que a tecnologia é a principal forma de moldar o Universo. Estudante e cofundador do Spotshopp, startup de varejo que conecta lojas e clientes durante o momento da compra. Escreve sobre tecnologia e empreendedorismo desde pequeno e atualmente é colaborador do MacMagazine e Startupi.