A Startup Farm entrevistou Said Hassan, Gerente da Gaza Sky Geeks, primeira e única aceleradora da Faixa de Gaza, região palestina autônoma que sofre com sanções de Israel. O depoimento deles sobre as dificuldades para empreender nessas condições é inspirador. Confira abaixo:

Startup Farm: Os programas de aceleração de vocês têm uma das mais altas participações de mulheres empreendedoras do mundo. Conte-nos um pouco mais sobre isso.

Said H.: Realmente incentivamos muito a participação de mulheres em nossos programas. Temos alguns específicos para mulheres e temos uma participação feminina média de 50%. O Technovation, que aplicamos aqui, é um programa que ajuda meninas de 10 a 17 anos aprenderem códigos para se tornarem desenvolvedoras. Após esta idade temos o Code Club, voltado para mulheres com mais de 18 anos. Além disso, já realizamos o primeiro Hackaton apenas de mulheres. A nossa ideia é que elas entrem aqui novas e consigam ficar até uma idade onde possam se desenvolver e se consolidar na profissão ou em seu próprio negócio.

Startup Farm: Imaginamos que com apenas 6 horas de energia elétrica diária vocês precisam tirar o máximo de proveito deste tempo. Como é a rotina diária dos empreendedores com esse racionamento de energia?

Said H.: Temos hoje uma média de 60 pessoas que vão trabalhar no coworking da GSG, entre staff e empreendedores. A maioria delas quer trabalhar em suas startups e manter o contato com o seu time. Quase todos têm uma bateria externa e vão ao escritório principalmente para carregar seus laptops. O problema é que não se sabe quando a eletricidade ficará disponível. Não há um período especifico para as 6 horas de energia por dia e, portanto, não é possível programar o dia de acordo com isso. O segundo problema é que ainda que se tenha eletricidade quando a energia elétrica vai embora, a internet também se vai. Temos que adaptar nossa vida à esta situação.

Startup Farm: Como é o ecossistema na região? Existem outras aceleradoras? Já existem startups ou vocês acabam formando pessoas que construíram novas empresas?

Said H.: O ecossistema é bastante pequeno ainda. Somos a única aceleradora da região. Existem também algumas incubadoras e espaços de coworking que estão iniciando suas operações. Existem startups na região sim, ainda que poucas. Ano passado tivemos 60 aplicações para o nosso programa, e hoje temos 11 startups sendo aceleradas.

Startup Farm: Como funcionam os investimentos? Existem investidores-anjo e empresas de Venture Capital em Gaza?

Said H.: Não existem empresas de Venture Capital em Gaza. Vivemos basicamente de doações e temos o apoio de algumas grandes empresas e investidores locais. Entre eles estão Coca-Cola Foundation, Google for Entrepreneurs, Bank of Palestine, Bayt.com, entre outros.

Startup Farm: Assim como vem acontecendo no Brasil, você acha que a alta taxa de desemprego ajuda a aumentar o interesse pelo empreendedorismo?

Said H.: Com certeza. Isso não resolve o problema, mas certamente ajuda a minimizá-lo. Mesmo que alguém que venha até nós não tenha ainda uma startup, nossos cursos ajudam a formar pessoas e agregam um conhecimento que os permitem conseguir empregos ou trabalhos como freelancers.

Startup Farm: Qual o maior desafio da Gaza Sky Geeks?

Said H.: Felizmente conseguimos bater as nossas primeiras metas para amenizar o problema da energia elétrica. O maior desafio, porém, é levar as pessoas de Gaza para fora da região, para que assim possam chegar a outros países. A fronteira é o nosso maior desafio.

Startup Farm: E qual a maior meta?

Said H.: O nosso maior objetivo é conseguir que uma das nossas startups tenha um investimento de 1 a 2 milhões de dólares. Isso impulsionaria todo ecossistema da região trazendo mais atenção para a questão toda. Além disso, queremos ajudar mais pessoas e startups de Gaza a se desenvolver. Outro grande objetivo é ajudar mais mulheres de Gaza a se envolver com tecnologia e empreendedorismo.

Startup Farm: Como é o mercado da região? As startups visam o mercado local ou um nível internacional?

Said H.: O foco das startups é o mercado regional, e por regional quero dizer o Oriente Médio e países árabes. Todo o ecossistema e soluções inovadoras aqui ainda está muito no início e não há muitas startups na região, portanto encorajamos nossos empreendedores que busquem esse mercado.

Startup Farm: Pode compartilhar uma história de sucesso, pessoal ou profissional?

Said H.: Temos uma ótima história de sucesso de uma empresa de games sobre o mundo árabe, a Baskalet. Os fundadores tinham um grande sonho de poder trabalhar com o que gostavam e de poder empreender. Começaram com muito pouco e em seu primeiro ano de atuação conseguiram quase 1 milhão de downloads, se tornando um dos Top 5 games da região. Ficamos muito orgulhosos do trabalho deles.