*Por Luciano del Monaco

No mundo da tecnologia existem diversas personalidades “cultuadas” por suas realizações e inovações que trouxeram ao mercado. Porém, é curioso perceber que quando as pessoas falam desses empreendedores as primeiras pessoas que são mencionadas são “Steve Jobs”, “Mark Zuckerberg” e, só lá no final da lista a pessoa diz “Ah, e tem o Bill Gates também”.

De certa forma Bill Gates é colocado como um inovador “menor” a essas personalidades citadas, sendo muitas vezes contraposto à “genialidade” de Steve Jobs. O objetivo dessa postagem é exatamente mostrar a relevância de Bill Gates para o mercado e como ele utilizou licenças para tornar não só o Windows o principal sistema operacional do mundo, mas também contribuir para a popularização dos computadores pessoais (e sem isso não estaríamos onde estamos hoje).

Antes de mais nada, o que é um licença?

Criações técnicas e científicas são protegidas pela Propriedade Intelectual (em suas diversas formas). Essa legislação possui o objetivo de permitir ao criador explorar economicamente sua criação, a ideia é bastante simples, só existirá inovação se o inventor puder lucrar com isso, do contrário ninguém irá querer criar algo pelo simples prazer da coisa (existem pessoas assim, mas são a minoria).

Considerando isso, existem duas formas principais de você lucrar com a Propriedade Intelectual, você pode “vendê-la” ou “alugá-la”.

Ao licenciar o uso de uma Propriedade Intelectual, no caso da Microsoft, do seu sistema operacional, você está permitindo que certa pessoa (ou empresa) utilize essa criação durante um determinado período de tempo, que no final poderá ser encerrado ou renegociado (como se fosse um aluguel). A questão é que no final do contrato a empresa que licenciou a criação continua sendo a proprietária dele.

Qual foi a inovação?

A grande inovação de Bill Gates foi exatamente focar na importância do software em uma época que o hardware era o principal (inclusive o Steve Jobs também pensava assim, basta ver os produtos da Apple nos anos 80). Nesse período o desenvolvimento de software era algo incipiente e visto como um “acessório” do computador. Para isso ofereceu ao mercado a licença não-exclusiva de seu software, ou seja, ele poderia licenciar o sistema operacional da Microsoft (na época o DOS) para qualquer empresa, e com isso ganhava o tão importante Market Share.

Na época ninguém se atentou a isso, que era possível usar licenças para aumentar exponencialmente o Market Share de um software. Logo a Microsoft passou a licenciar seus softwares para IBM e Apple, para citar alguns dos concorrentes, e como o DOS se tornou tão comum a demanda por outros programas que rodassem nesse sistema operacional cresceu, e isso virou uma bola de neve (mais programas impulsionavam as pessoas a usar o DOS, em um círculo sucessivo). Tanto que até hoje a Microsoft domina de o Market Share de sistemas operacionais para PC.

Fonte: NetMarketShare

Pode parecer pouca coisa, mas foi uma inovação no modelo de negócios bastante disruptiva, que alterou o mercado de tecnologia de forma bastante profunda e permitiu uma grande unificação de sistemas operacionais, o que contribuiu para tornar a experiência de usuários mais próxima e criar “padrões na indústria”. Não por acaso que mesmo os sistemas operacionais menores, como o Mac OS e o Linux tendem a possuir um layout e toda uma usabilidade bastante similar à dos sistemas da Microsoft, porque já existe um certo padrão a ser observado.

Conclusão

Com o licenciamento a acesso aos sistemas operacionais se tornou algo acessível (em comparação à Apple, que sempre produziu produtos caros, até demais), os fabricantes de hardware tinham condições de trazer um sistema operacional já instalado, o que não só facilitava o uso, como contribuiu para a popularização do computador pessoal, o que, por sua vez, estimulou o mercado a criar novos programas e soluções. De certa forma a popularização do DOS (e depois do Windows) facilitou o acesso à computação, especialmente para leigos como eu, e criou as bases de mercado para o crescimento da web poucos anos depois.

É possível que você diga que uma inovação com essa não é significativa, mas embora pareça algo “pequeno” à primeira vista é impossível negar o impacto disruptivo desse novo modelo de negócios, o que mostra que mesmo no mercado de tecnologia não adianta ter um bom produto, mas é necessário saber como levar esse produto ao público.


foto-luciano Luciano Del Monaco é advogado associado do VilelaCoelho Propriedade Intelectual, escritório especializado em Propriedade Intelectual, trabalhou no SEBRAE e possui bastante experiência assessorando startups. Além disso, é mestrando em filosofia do Direito e jogador medíocre de CSGO.