*Por Marcos Barrosa

Startups de tecnologia passam por um duro processo de “seleção natural” antes mesmo de chegarem ao mercado. A formação da equipe de desenvolvimento figura como um dos seus principais desafios em virtude da complexidade na seleção de bons arquitetos de software e da oferta reduzida desses profissionais no mercado.

Tal dificuldade se agrava se a startup não conta com um cofundador programador e que muitas vezes conduzem essas empresas a um grande desperdício de recursos ou até mesmo a uma morte prematura.

Apesar da profunda crise econômica em que o País se encontra, o setor de tecnologia parece não acompanhar a tendência de desemprego. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de 2015 ter apresentado o pior índice de desemprego desde 1992, a área de Tecnologia da Informação caminhou na direção contrária empregando 1,3 milhão de pessoas.

Nesse cenário, para montar seus times de desenvolvimento, os empreendedores de tecnologia competem com grandes empresas que pagam, em média, salários anuais de R$190k para arquitetos de software sênior segundo a Sine.

Mas como iniciar uma startup de tecnologia sem um cofundador programador?

Um estudo realizado pela First Round com 300 startups do seu portfólio revela que a importância de um cofundador desenvolvedor para empresas corporativas de software não se aplica a consumer based startups. Em vista dessa desconstrução do dogma de que startups devem ter cofundadores desenvolvedores, as opções dos fundadores não-técnicos se expandem.

Em geral, empreendedores em estágio inicial são ricos em equity e pobres em cash, ou seja, a não ser que estejam apoiados por investidores institucionais, esses empreendedores financiam as operações das startups com seus próprios recursos, em forma de dinheiro ou suor.

Nesse caso, uma alternativa comum é incentivar parceiros em potencial cedendo parte da participação da empresa. Isso ajuda a viabilizar negócios com parceiros ideais sem comprometer muito investimento na fase inicial e ainda alinha os interesses desses parceiros com os do negócio. Eles ganham quando a startup ganha!

As principais considerações para buscar engenheiros de software para fundadores não técnicos são:

  • Capacidade de pagar menos – desembolsar menos dinheiro
  • Alinhamento de interesses – programadores incentivados pelo sucesso da startup.
  • Flexibilidade – ajustar o produto conforme a validação do negócio avança.
  • Diversidade de conhecimento – quantas linguagens e tecnologias o time de desenvolvimento domina.

Vamos entender isso um pouco mais a fundo. Enquanto o item 1 é bastante claro, o alinhamento de interesses entre fundador e parceiros não é tão trivial. Para exemplificar, imaginemos uma empresa de desenvolvimento de software que recebe por hora de desenvolvimento. Seus motivadores são a conclusão do escopo do trabalho no prazo e manter uma boa relação com o cliente visando trabalhos futuros. Independentemente do sucesso do produto que eles desenvolveram, eles têm seus lucros assegurados.

Em contrapartida, um cofundador técnico de uma startup está muito mais comprometido com o sucesso do produto porque sua participação na empresa só terá valor se a ela tiver êxito. Portanto, é muito importante que os parceiros de desenvolvimento e os empreendedores tenham interesses alinhados, sobretudo em uma startup early stage onde mudanças no escopo dos produtos são frequentes para melhor acomodá-los às necessidades do mercado.

Nesse sentido, chegamos ao item 3. A flexibilidade se refere à capacidade que uma relação próxima entre equipe de desenvolvimento e fundadores tem de fazer a comunicação sobre feedbacks e adaptações no produto fluírem. Mais objetivamente, isso se reflete na velocidade em adicionar ou remover funcionalidades dos produtos enquanto o produto e o mercado são testados e validados.

O item 4 se refere à diversidade de conhecimento tecnológico acumulado na equipe de desenvolvimento. Por exemplo, enquanto na contratação de um freelancer as capacidades técnicas estão restritas ao conhecimento de uma pessoa, em uma empresa de desenvolvimento de software você terá acesso a uma diversidade muito maior de conhecimento em um mesmo local.

Com a evolução da indústria de startups, há o surgimento de modelos de negócio criativos específicos para superar a dificuldade de se desenvolver o primeiro produto de tecnologia.

Um exemplo é um modelo no qual a empresa oferece desenvolvimento a preço de custo a startups selecionadas em troca de participação societária e garantem a operação do software entre as fases de desenvolvimento em troca de uma reduzida taxa de manutenção, combinando o custo reduzido, alinhamento de interesse e flexibilidade de um cofundador com a diversidade de conhecimento de uma empresa desenvolvedora de software.

Manejar uma startup desde um conceito até um produto escalável é uma tarefa para poucos e, sem dúvida, um trabalho em equipe. O sucesso das startups será definido pela escolha dos parceiros certos, então é importante começar a fazê-lo bem desde o dia 1.

Boa escolha!


Marcos Barrosa é empreendedor de tecnologia com formação em engenharia, gestão de projetos e business. Fundador da ScorePointer, a startup vencedora da Global New Venture Challenge na University of Chicago, e da Watermelon Tecnologia, empresa com 400% de crescimento anual auxiliando startups a saírem do papel. Marcos leciona empreendedorismo como instrutor convidado na UNICAMP e participa de mesas avaliadoras em competições de startups.