* Por Marcelo Pimenta

Acredito que todo o mundo, literalmente, vêm acompanhando, de uma forma ou de outra, as primeiras aventuras do presidente americano Donald Trump. Entre frases e imagens de efeito para a mídia, Trump vem tomando decisões que afetam diretamente as melhores práticas das relações entre pessoas, atacando frontalmente aquilo que convencionou-se chamar de direitos humanos. As medidas de construção do muro entre os vizinhos EUA e México, assim como a proibição de estrangeiros de países muçulmanos entrarem na terra do Tio Sam, são os piores exemplos disso.

E o que isso tem a ver com este espaço de empreendedorismo e inovação? Na minha opinião é nesse momento que as empresas e as marcas podem revelar (ou não) o seu propósito. Pois um negócio precisa, antes de tudo, cumprir uma função social. É dessa contribuição que a empresa faz para sua comunidade que vem a admiração de seus clientes, empregados e acionistas. O lucro pode ser uma consequência desse posicionamento – e não apenas uma busca a qualquer preço. E a recente falta de habilidade (para ser discreto) do presidente americano na condução de suas políticas externas vem dando oportunidade para que as empresas mostrem um pouco do seu caráter e dos seus valores. E gostaria de ilustrar esse raciocínio com dois exemplos.

O primeiro deles vem do Uber, que vem perdendo milhares de clientes, principalmente nos Estados Unidos, depois de um tweet postado pela conta da companhia em Nova York, quando a companhia declarou que suspendeu a tarifa dinâmica na região do aeroporto JFK:

A questão é que os taxistas de Nova York, nessa mesma hora, tinham programado uma “paralisação” de uma hora nos serviços em protesto contra a decisão do presidente americano (como muitos sabem, milhares de taxistas nos EUA são imigrantes) e o Uber decidiu não apoiar de imediato a ação.  O tweet foi interpretado como um apoio às medidas do presidente americano, ainda mais que o CEO e fundador da empresa é um dos conselheiros do novo presidente americano.  Imediatamente a revolta tomou conta dos usuários nas redes sociais que criaram a hashtag #deleteuber, como forma de convidar os clientes a boicotarem a empresa.

A questão é polêmica, pois a empresa alega que não quis de nenhuma forma boicotar o protesto, apenas garantir o direito dos nova-iorquinos de se locomoverem, mesmo durante esse período. Uma das evidências de que a empresa não estaria apoiando a decisão do presidente americano é a carta publicada mais ou menos na mesma hora pelo CEO da companhia, Travis Kalanick, no seu Facebook, onde mostra a empresa preocupada com a situação das famílias de motoristas afetados pela medida, como pode ser visto no post que está aqui. Horas, depois, diante de tanta polêmica, a empresa decidiu anunciar que reservou até três milhões de dólares para ajudar as famílias de motoristas eventualmente prejudicados pela medida.

Já a mexicana Corona, quinta marca de cerveja mais vendida nos Estados Unidos,  optou por tomar partido de forma muito mais transparente. Em resposta a uma das frases símbolos do governo Trump desde sua posse – Make America Great Again – onde o magnata apela para o nacionalismo americano para justificar suas decisões, lançou a campanha “Somos Todos America”, onde prega um continente unido, que é rico por sua mistura e diversidade – e não pelo separatismo. A campanha é ainda mais evidente quando defende o “Desfronteirismo”, convocando publicamente a população a revoltar-se contra o muro.

Na antiguidade, os romanos costumavam dar nomes aos ventos. E um vento em especial era muito apreciado, “ob portus”, o vento que te leva ao porto. É daí que vem a palavra oportunidade, o vento que te possibilita chegar ao porto. Acredito que diante desse momento tão importante em que o mundo é obrigado a discutir valores, é a oportunidade das marcas e empresas ajustarem as velas, tomarem partido e aproveitar os ventos das mudanças para mostrarem a que propósito servem.


marcelo pimentaMenta (Marcelo Pimenta) é jornalista com formação em marketing. Um dos precursores do empreendedorismo digital no Brasil, professor de inovação da pós graduação da ESPM, sócio da Conectt e do Laboratorium e criador do blog www.mentalidades.com.br.