É nítido o aumento da sensibilidade das instituições financeiras no Brasil quanto à importância crescente em desenvolver soluções para esse segmento. Cada vez mais o mercado financeiro leva em conta a experiência do cliente ao se relacionar ou utilizar os serviços das instituições, com oferta de soluções diferenciadas que requerem método, disciplina e boa execução. Estas capacidades já são responsáveis por inúmeros sucessos em outras indústrias, como os casos do Netflix, Spotify e Uber.

Devido a esse movimento, temos visto cada vez mais a aproximação das grandes instituições financeiras com as chamadas Fintechs – startups que usam a tecnologia para transformar os serviços financeiros mais eficientes, que refletem em melhores jornadas de utilização de produtos e serviços e que trazem melhores experiências de uso, gerando inteligência a partir de volumes inimagináveis de dados e do conhecimento coletivo para otimizar as decisões.

O FintechLab, plataforma de negócios focada no desenvolvimento do ecossistema de fintechs brasileiro, acompanhou mais de 200 fintechs e, de acordo com o último Report, duas em cada três startups já estão em fase operacional, ou seja, já possuem clientes pagantes e já passaram pelas fases de ideação e de validação dos seus modelos de negócios. Da mesma forma, a indústria financeira tradicional também está desenvolvendo várias iniciativas inovadoras, seja por meio das fintechs ou dos incumbentes.

Foto: Divulgação

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“O ecossistema de fintech está evoluindo de forma consistente. Segundo a pesquisa que divulgamos no último Report FintechLab, 50% das fintechs faturam R$1 milhão ou mais. Em 2016, os investimentos em fintechs devem superar os R$450 milhões. Ainda são dados que podem parecer tímidos quando comparados com outros ecossistemas mais maduros, mas eu prefiro o ponto de vista de quem acompanha ano-a-ano um grande crescimento dos participantes. A cada ano, o número de negócios tem crescido, acompanhado também por maior apetite de investidores”, destaca Axandre Lara, cofundador do FintechLab.

Pensando no fortalecimento das fintechs, a aproximação com o governo e outras associações, este ano também foi lançada a Associação Brasileira das Empresas de Fintech, uma iniciativa que impulsiona e apoia as inovações para o desenvolvimento e avanço das startups.

“A iniciativa surgiu da demanda de um organismo para organizar e endereçar as necessidades e pontos de discussão entre as startups do setor, os órgãos reguladores e a sociedade. Como surgiram movimentos em paralelo, fazia muito mais sentido convergir para uma única associação do setor”, afirma Rafael Sasso, um dos organizadores da Associação.

Atualização! A partir do dia 25 de outubro de 2016, a Associação passou a se chamar ABFintechs. Segundo José Prado, um dos responsáveis pelo movimento, o Brazil Fintech foi lançado por um grupo pequeno de startups fintechs, só que ao mesmo tempo, um outro grupo já estava trabalhando para lançar uma associação. “Juntamos estes dois grupos e fizemos uma chamada para todas as startups fintechs se juntarem em lançarem uma única iniciativa”, destacou João em uma conversa com o Startupi. Recentemente foi eleito um novo grupo para dar continuidade aos trabalhos e Rafael Sasso, continua como conselheiro da Associação. Hoje a iniciativa é liderada pelos executivos Rodrigo Soeiro Ubaldo (Allgoo), Paulo Deitos (Urbe.me), Bernardo Pascowitch (Yubb), José Prado (Conexão Fintech), Mathias Fischer (Meu Câmbio) e Ricardo Motta (Cariocas).

De acordo com um dos especialistas em programas de inovação com startups, Marcelo Nakagawa, Diretor de Empreendedorismo da FIAP, Professor de Empreendedorsimo e Inovação do Insper e um dos formuladores do InovaBRA, ainda há um grande espaço para inovações mais disruptivas no mercado financeiro/bancário e novas tecnologias que serão adotadas em maior escala e novos modelos de negócio que substituirão soluções que já estão defasadas.

“Há um grande espaço para novas soluções que repensem o papel de um banco, uma financeira, uma empresa de seguros, até do próprio papel e significado do dinheiro como unidade de conta, reserva de valor e meio de troca. Além disso, as próprias instituições financeiras estão mais atentas às startups, seja concorrendo diretamente ou por meio de parcerias. Tudo isto cria um cenário muito atraente para investidores”, destaca Marcelo. Para ele, os empreendedores atuais e futuros interessados em atuar no mercado de fintech precisam se atentar à vários aspectos. Algumas dicas podem ser úteis:

1) Defina e valide uma dor muito relevante e imediata do cliente (pessoa física ou jurídica). Como, em geral, as pessoas e empresas não são tão bem atendidas pelas empresas do setor financeiro, esta etapa não chega a representar um grande desafio. Mas é importante entender claramente quais são as dores do cliente naquilo que se refere ao uso de um serviço financeiro.

2) Entenda todos os aspectos jurídicos e regulatórios das soluções atuais que estejam resolvendo esta dor do cliente: Não raro, soluções, principalmente as oferecidas por bancos, seguradoras e fundos, seguem rígidos parâmetros legais. Fintech não é um jogo para amadores e ingênuos. É preciso ter forte apoio jurídico para entrar nesta arena.

3) Analise a cadeia de valor dos tomadores de decisões das soluções atuais: Algumas fintechs, como por exemplo as de cartões, exigem parcerias (no caso de cartões, com adquirentes, subadquirentes etc.) É preciso entender previamente todos os pontos de fricção que podem dificultar o desenvolvimento dos negócios.

4) Aprenda com protótipos: É preciso criar protótipos da solução imaginada para validar se a experiência imaginada é a mesma realmente percebida pelo potencial cliente.

5) É óbvio que precisa ter um time multidisciplinar de competências: Uma fintech demanda diferentes habilidades, conhecimentos técnicos e rede de relacionamento. Terceirizar desenvolvimento tecnológico, por exemplo, é quase sempre um erro que pode sair muito caro, demorado e arriscado.

6) Considere parcerias com grandes empresas: As principais instituições financeiras estão criando iniciativas com startups. Dependendo da atuação da startup, isto pode trazer um crescimento acelerado do negócio além da chancela de uma grande instituição.

Um exemplo de instituição financeira que está se aproximando cada vez mais das startups é o Bradesco, que criou o INOVAbra, programa voltado a descobrir projetos inovadores de startups que tenham soluções aplicáveis ou com possibilidade de adaptação no setor de produtos e serviços financeiros.

Instituições Financeiras

Em entrevista ao Startupi, o Bradesco informou que está acompanhando o movimento das fintechs não só no Brasil, mas em todo o mundo e que de certa forma, parece uma tendência sem volta. Segundo eles, a transformação digital que está ocorrendo está melhorando a usabilidade do cliente, conseguindo colocá-lo em primeiro plano e fazendo com que novas soluções cheguem no mercado de forma muito mais rápida do que as grandes corporações conseguiriam executar.

Fernando Moraes de Freitas, Gerente do Departamento de Inovação e Tecnologia do Bradesco, contou que perceberam uma mudança rápida do consumidor, toda a questão da geração Millenium e a forma como ela atua dentro do seu processo de tomada decisão de valores, junto com uma camada de tecnologia muito forte. E tal combinação está trazendo novos modelos de negócios muito interessantes para essa camada e para as próximas como o Peer-to-peer lending, gestão de ativo automatizado e Crowdfunding.

“Tudo isso já é uma realidade fora do Brasil, tem países que você já vê de 30% a 40% dos serviços financeiros acontecendo fora dos bancos. Em países Asiáticos, essa é uma tendência e nos países mais ocidentais, ainda não com essa velocidade, mas de 15% a 20% é servido por essas fintechs e no Brasil não será diferente. Acreditamos que esse movimento já está chegando no Brasil, já temos muitas empresas interessantes trabalhando dentro do nosso ecossistema e de uma forma geral, encaramos isso com tranquilidade, pois é muito bom para o consumidor final. Não chamamos de competição, mas sim de coopetição, acreditamos que no Brasil será um movimento de muita colaboração entre as startups e os bancos. O Bradesco faz parte desse movimento, acreditamos na colaboração entre esses dois ecossistemas”, destaca Fernando.

Nos últimos quatro anos, o Bradesco mudou seu processo de inovação fechada, o banco se reestruturou, pois entendeu que a sociedade tinha mudado e que a nova geração, que hoje já representa 50% da força de trabalho e nos próximos 15 anos irá representar 75% da força de trabalho, era uma geração com valores diferentes e que precisavam da tecnologia que estava surgindo em uma velocidade cada vez mais rápida.

“Nós reorganizamos nosso processo de inovação, onde criamos processos, metodologia e conceito onde a inovação se dá na área de negócios, e não mais dentro de um centro de P&D. O primeiro movimento foi reestruturar a inovação fechada, criamos um comitê executivo de inovação que se encontra a cada trinta dias para deliberar sobre as inovações”, conta Fernando.

A partir desse momento, o banco estava pronto para criar um programa de inovação aberta, e assim, surgiu o  inovaBRA, projeto voltado a descobrir startups inovadoras, sendo o primeiro movimento de inovação aberta de um grande banco no Brasil. Depois dessa iniciativa, surgiu o Bradesco Ventures, processo de inovação através do mundo corporativo, através  de compra de equity em startups que tenham a ver com a questão estratégica do banco.

Segundo Fernando, o Bradesco está em busca de startups de blockchain, plataformas digitais que eliminam a fricção entre banco e cliente, computação cognitiva/analytics e tudo ligado a IoT, tanto na inovação aberta, fechada e no Bradesco Ventures.

“Estamos provavelmente vivendo o que todo mundo chama de quarta revolução industrial, depois do último encontro em Davos, na Suíça, de uma forma geral isso está na cabeça de todos os CEOs do mundo e quanto mais a tecnologia avança, nós acreditamos que o processo entre banco e cliente terá uma fricção muito próxima de zero, ou seja, as soluções serão cada vez mais simples, parece algo contraditório, mas nós não acreditamos, quanto mais você avança na computação cognitiva, em algoritmos e plataforma digitais, mais simples será a relação entre bancos e clientes. Nessa direção, acreditamos que no Brasil os bancos terão processos junto com as startups de colaboração e cada vez mais, a inovação dos bancos também serão feitas através das startups”, finaliza Fernando.

Desafios

Segundo Alexandre Lara, o empreendedor de fintech, além dos desafios enfrentados pelo empreendedor de outros setores, ainda encontra um setor extremamente regulado e com incumbentes ricos e cheios de talentos entre seus colaboradores.

“Existem vários pontos que, uma vez ajustados, vão apoiar ainda mais a aceleração das fintechs. As oportunidades são muito parecidas às demandadas em outros setores de vanguarda: amadurecimento do ambiente regulatório, maior apoio governamental à cena empreendedora, crescimento do número de formandos em tecnologia e inovação e maior integração entre pesquisa acadêmica e a indústria”, afirma Alexandre.

“O setor de fintech tem passado por uma rápida evolução no Brasil, entretanto, por se tratar de uma área bastante regulada, é necessário que os órgãos reguladores como o Banco Central e a CVM entre outros, acompanhem este ritmo para que possam ao mesmo tempo manter a segurança do sistema, mas dando liberdade e tendo flexibilidade para que as inovações surjam e tenham efetividade”, destaca Cassio Spina, Fundador da Anjos do Brasil.

Em junho o Stratupi participou do evento Fintech View, encontro que debateu os principais aspectos do movimento que está transformando o mundo financeiro no Brasil e no mundo, organizado pela Cantarino Brasileiro, empresa de marketing e comunicação com larga experiência nos mercados financeiro e de meios de pagamento.

Durante o evento, Fabio Lacerda Carneiro, representante do Banco Central, trouxe uma mensagem aos empreendedores do segmento, no sentido de que o órgão regulador não deve adotar intervenções regulatórias significativas antes de conhecer as reais implicações destas medidas.

Carneiro também explicou que o Banco Central do Brasil segue o posicionamento que vem sendo adotado por entidades reguladoras em todo o mundo, como o Financial Stability Board (FSB) que em carta ao G-20, falando sobre seu programa de trabalho para 2016, incluiu a observação sobre o movimento das fintechs. Da mesma forma, o comitê de Basileia na suíça, constituiu uma força tarefa recentemente para entender a questão das fintechs.

Carneiro ressaltou que os empreendedores precisam ter o controle de todos os aspectos da sua operação. “Esta é sua responsabilidade porque se a empresa causar problemas aos cidadãos, certamente o Estado vai responsabilizá-lo”. Segundo ele, o papel do empreendedor é pensar no que pode dar certo e fazer o melhor possível para que isto aconteça. “O papel do regulador é justamente o contrário. Pensar no que pode dar errado e tentar evitar prejuízos à sociedade”, destacou. Neste sentido, o cuidado tem sido o de evitar que a regulação mate a inovação. “Cuidado na intervenção regulatória significa tempo, por isso digo que estamos no gerúndio: acompanhando, avaliando e monitorando, esperando o mercado maturar”, concluiu.

 O que esperar desse mercado?
Para Marcelo Nakagawa, as startups serão responsáveis pela inovação e validação de novos modelos de negócio, e os grandes bancos pela distribuição em maior escala. Também haverá startups que se tornarão empresas de maior porte pois conseguirão manter sua competitividade após a fase de startup.

“Muitos bancos já estão fazendo a sua lição de casa e passarão a oferecer soluções que concorrerão com as de algumas fintechs. O nome do jogo, porém, é agilidade e diferenciação. Aqueles que conseguirem um time-to-market razoável terão mais condições de emplacarem as suas soluções. Caso contrário, passarão a ceder porções cada vez mais relevantes de suas margens”, destaca Alexandre.

Conclusão

Segundo Marcelo Nakagawa, o mercado brasileiro de fintech vive uma terceira geração de startups. A primeira ocorreu na primeira bolha pontocom com startups como M4U (2000) e Lemon Bank (2002). Uma segunda onda foi percebida na segunda metade da década de 2000, marcada, principalmente, por soluções em meios de pagamento como ocorreu com BrPay/PagSeguro (2006) e Moip (2008). Agora há uma terceira geração muito maior e mais ampla com soluções em vários nichos simultaneamente.

Como todo mercado muito atrativo, há empreendedores de todos os níveis de preparo e conhecimento do setor financeiro e bancário. De forma geral, para quem pensa em empreender em fintech é preciso tomar alguns cuidados e primeiramente entender onde está se metendo. Não raro, startups de fintech atuam em regiões “cinzentas” não definidas complementarmente do ponto de vista legal ou regulatório. Isto pode implicar em crimes, passivos ou prejuízos exponenciais. A segunda questão está associada à capacidade de desenvolvimento tecnológico, o desenvolvimento de soluções deste mercado tende a custar muito mais caro, pois exige uma maior demanda de programadores, aspectos de segurança, desempenho e esforços de divulgação. Outro ponto relevante diz respeito à competição com os players tradicionais já estabelecidos. Os grandes grupos financeiros já estão atentos e interessados em desenvolver soluções semelhantes ou fechar parcerias com startups”, destaca Marcelo.

Para ele, o que chama a atenção é a presença cada vez maior de executivos que já tiveram uma longa carreira no mercado financeiro e decidiram abandonar a segurança e os benefícios para aproveitar nichos bem definidos. Este tipo de empreendedor consegue trazer conhecimento de mercado, regulatório, tecnológico e networking, o que contribui para a criação de startups com maior potencial de sucesso.